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Sob gritos de 'mitinho', Eduardo Bolsonaro repete gesto de Trump e convoca direita em evento 'importado' dos EUA

Ligia Guimarães

Da BBC News Brasil em São Paulo

12/10/2019 00h36

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foi a grande estrela da primeira noite do CPAC Brasil, inédita versão brasileira do Conservative Political Action Conference (CPAC), maior e mais tradicional evento conservador dos Estados Unidos.

Desde a chegada do filho do presidente Jair Bolsonaro ao hotel Transamérica, na zona sul de São Paulo, o deputado foi ovacionado pela plateia todas as vezes que subiu ao palco, aos gritos de "mito" e "mitinho", em referência ao apelido do pai.

Aos 35 anos e nome escolhido pelo presidente para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, o filho 03 do presidente foi o principal articulador para a vinda do evento ao Brasil, e que contou com a presença do próprio Matt Schlapp, presidente da American Conservative Union e responsável pelo evento nos EUA, além de presença constante como comentarista político no canal Fox News.

"Sejam bem-vindos ao maior evento conservador do mundo, que resgata e privilegia os valores da família e dos bons costumes", anunciou a apresentadora, explicando que o evento existe há 46 anos, desde a época em que Ronald Reagan, ex-presidente republicano dos EUA, era o principal discursante. Fora dos EUA, o evento já ocorreu em países como Austrália, Japão e Coreia.

"Aqui, para mim, é como jogar no Maracanã", disse um entusiasmado Eduardo Bolsonaro ao abrir o evento, que acontece nesta sexta e sábado na capital paulista.

"Talvez seja o momento mais importante da minha vida pública", afirmou, relembrando a uma plateia de militantes fervorosos os pequenos eventos conservadores dos quais ele já participou em cidades como São José do Rio Preto e Rio Claro.

"Quem diria há 15 anos que traríamos o maior evento conservador do mundo para o Brasil?".

O evento é bancado pela Fundação Instituto de Inovação e Governança (Indigo), do PSL, financiada com recursos do Fundo Partidário.

A relação de Eduardo e Schlapp começou nos corredores da Blair House, prédio reservado a visitantes da Casa Branca, segundo o deputado. Ele definiu a amizade entre os dois como uma "química" que evoluiu para namoro e atualmente está em fase de casamento.

O esforço por uma direita mais conectada internacionalmente marcou o tom da primeira noite do evento.

"A esquerda é muito melhor organizada que nós, conservadores. E ela se organiza em nível global. Muitas vezes o que sai na Folha de São Paulo sai no Le Monde, na França, sai no The Guardian, na Inglaterra, sai no New York Times, nos EUA. Enquanto aqui no Brasil, não temos essa estrutura toda", diz.

Schlapp, segunda fala da noite depois do vice-presidente do PSL, Antônio de Rueda, também destacou a importância da conexão internacional para o avanço da direita.

"Vemos o que vocês estão fazendo no Brasil e achamos fantástico", disse à plateia, que gritou o nome do presidente dos EUA, Donald Trump, em muitos momentos do seu discurso do americano.

Schlapp também enfatizou que não vê riscos de Trump deixar o cargo.

"Na América, o impeachment só serve para presidentes que cometem crimes! E não há crimes!", gritou.

"O que vocês estão fazendo no Brasil nos dá esperança. O que fazemos nos EUA, esperamos, lhes dá esperança".

Em homenagem a Trump, Eduardo repetiu um gesto que o presidente americano fez em seu discurso na CPAC deste ano, abraçando a bandeira dos Estados Unidos. Na versão nacional, Eduardo abraçou a bandeira do Brasil, sem citar a referência a Trump: "Adivinhem quem eu estou homenageando?"

Não discuta, faça memes

Na fala que durou cerca de meia hora, Eduardo também deu recomendações práticas para a militância. Citando como exemplo suas próprias atitudes em discussões na internet, ele orientou que os apoiadores façam memes sobre os oponentes em vez de entrar em discussões políticas acaloradas a sério.

O deputado mostrou capturas de tela de uma discussão que teve esta semana com o jornalista da Globo Guga Chacra, que escreveu no Twitter creditando a Felipe Martins, assessor especial da Presidência, a função de "mandar na política externa do Brasil". Na ocasião, Eduardo Bolsonaro rebateu dizendo que o jornalista buscava emprego em revistas de fofoca, afirmação que ele repetiu em tom jocoso durante o evento. Já Chacra rebateu dizendo não "estar atrás de emprego", já que tem três como jornalista trabalhando nos EUA.

"Se a pessoa 'se sentiu'? Faça memes, como eu fiz", orientou, sendo novamente ovacionado com gritos de torcida emocionados como "eu sou conservador", e "ão-ão-ão - Olavo tem razão".

Bolsonaro também marcou a ideia de que o objetivo do CPAC não é ser um "foro de São Paulo, que tem a intenção de chegar ao poder", em referência ao evento de esquerda que é famigerado entre bolsonaristas e olavistas. "A nossa sede não é de poder, mas de saber quem somos, de nos organizar, Se elegermos alguém, será consequência".

Jornalistas criticados

Jornalistas foram alvo de muitas críticas durante o evento. Além de Guga Chacra, Eduardo mostrou vídeos que criticavam a jornalista Miriam Leitão, do grupo Globo, e Reinaldo Azevedo, do grupo Bandeirantes.

Na entrevista coletiva que antecedeu o evento, a jornalista Patrícia Campos Melo, repórter da Folha de São Paulo e autora de uma reportagem que acusou empresas de comprarem pacotes de disparos em massa de mensagens a favor de Bolsonaro na campanha eleitoral, foi vaiada ao fazer uma pergunta ao deputado.

A sessão de perguntas e respostas foi dominada por blogs alinhados ao governo. Após uma indagação de uma jornalista do canal Globo News sobre as críticas do líder do PSL no Senado, Major Olimpio, a Eduardo Bolsonaro, a coordenadora da entrevista solicitou que apenas perguntas referentes ao evento fossem feitas. Um jornalista da Agência Estado tentou indagar o deputado mais uma vez sobre a crise no PSL, mas foi hostilizado pelo público e impedido de prosseguir pelos organizadores.

Mais cedo, o senador Major Olimpio (PSL-SP) afirmou que vê uma "conspiração baixa" dentro do PSL. Para o líder do partido no Senado, o presidente Jair Bolsonaro tem sido mal informado por membros da sigla que têm a pretensão de comandar o partido.

"Eu não faço parte da família real, não sou príncipe. Discordo dele, mas os assuntos do PSL têm que ser tratados de maneira interna, para evitar desgastes. É opinião dele, eu respeito, mas no momento em que estiver atrapalhando, o próprio presidente irá puxar a minha orelha", declarou Eduardo Bolsonaro.

Viagens longas e livros em alta

Pelos corredores do evento, mesmo antes da abertura dos auditórios, a venda de livros e revistas movimentava o hall do hotel Transamérica.

Estavam ali títulos de autores "de direita" mais antigos, como o filósofo Mário Ferreira dos Santos, morto nos anos 1960, e Roger Scruton, e de mais jovens e populares, como a deputada Ana Caroline Campagnolo, uma das primeiras apoiadoras do movimento Escola Sem Partido e que tinha à venda seu "kit antifeminismo", composto por livro e DVD.

"Ela é uma das que mais vende", disse o empresário Diego Pureza, 28 anos, um dos sócios do instituto conservador Burke, de São José dos Campos (SP), que se define como um centro cultural dedicado à filosofia grega, à moral judaico-cristã e ao direito romano, com cursos e conteúdo online.

É deles também a ideia do clube conservador, uma espécie de "Netflix conservador", que por uma mensalidade dá direito a um catálogo de conteúdos online.

O estudante Evandro Medeiros, 20 anos, viajou mais de sete horas em um ônibus com 45 pessoas vindo de Minas Gerais. Foram dois ônibus que partiram de Belo Horizonte mas pararam em diversas cidades para trazer os mais de cem representantes do Direita Minas, movimento elogiado por Eduardo Bolsonaro como exemplo de iniciativa que se organizou sem esperar a liderança de um político, e que hoje está presente em várias cidades do Estado.

"Precisamos ser mais proativos", defendeu o deputado.

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