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Crise na Bolívia: O 'ajuste de contas' do governo interino com Evo Morales, colaboradores e seguidores

Evo Morales, exilado no México, descreveu Áñez como "presidente autoproclamada" - Getty Images
Evo Morales, exilado no México, descreveu Áñez como 'presidente autoproclamada' Imagem: Getty Images

Boris Miranda

Da BBC News Mundo na Bolívia

18/11/2019 10h01

Para Jeanine Áñez, presidente interina da Bolívia, Morales é responsável por crise que levou a sua renúncia em meio a acusações de fraude eleitoral.

Era uma das consequências previsíveis da mudança de comando da Bolívia, e aqueles que seriam afetados diretamente bem que sabiam disso.

Não foram poucas as vezes que o agora ex-presidente Evo Morales, em tom de brincadeira, disse a seus então assessores e funcionários que iriam sair tão "queimados" quando acabasse seu governo que seriam alvos dos mais diversos tipos de retaliações.

"Onde vão conseguir emprego", brincava Morales, quando o fim de sua era ainda parecia bastante distante. Mas a gestão chegou ao fim neste mês de forma súbita e dramática.

As eleições presidenciais de 20 de outubro, nas quais Morales pretendia se manter na Presidência até 2025, foram contestadas em meio a protestos e acusações de fraude.

Depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) fez uma auditoria no pleito, apontou irregularidades e questionou a vitória de Morales no primeiro turno, o então presidente concordou em fazer novas eleições, mas as Forças Armadas "pediram" sua saída e ele acabou renunciando ao cargo.

Desde então, a crise política boliviana não deu trégua e, uma semana após a renúncia, já se vê que a previsão de Morales, que insiste em denunciar que foi vítima de um golpe de Estado, se torna real.

'Ajuste de contas'

Não se passaram nem 24 horas desde a fuga de Morales para o México em busca de asilo político para que a senadora opositora Jeanine Áñez fosse juramentada presidente interina.

O primeiro sinal enviado por seu ministro de governo, Arturo Murillo, foi apontar que iria "caçar" autoridades do governo anterior que ainda incitavam protestos pró-Morales nas ruas do país.

"Vou me encontrar imediatamente com a polícia para dar as instruções necessárias. Iremos à caça de Juan Ramón Quintana", disse a autoridade em referência a um ex-ministro do governo Morales.

Arturo Murillo, um dos detratores de Morales atuantes desde o primeiro dia em que o ex-líder cocaleiro chegou ao poder, acrescentou que Quintana "não será o único, e aplicaremos todo o rigor da lei".

"Vamos ao ajuste de contas. Não é vingança, é justiça", disse à BBC Mundo Rafael Quispe, deputado e líder indígena crítico de Evo Morales.

O parlamentar, que foi aliado de Morales nos primeiros anos do mandato do então presidente, ressalta que nos últimos anos fora julgado 20 vezes pelo governo.

"Fomos perseguidos porque éramos adversários. E nenhum julgamento contra eles chegou ao fim porque controlavam a Justiça", diz o líder indígena.

Quispe acrescenta que "agora que os tribunais não são mais coagidos, espero que cumpram sua função e apliquem a Morales um processo."

"Segundo minha pesquisa, este foi o governo mais corrupto da história do país", conclui o ex-aliado de Morales.

A suíte presidencial

Nos quase 14 anos do governo Morales, diversos políticos de gestões anteriores foram processados e presos por diferentes razões.

Alguns morreram em suas celas, e outros deixaram o país se declarando "exilados políticos".

Durante todo esse tempo, detratores do ex-presidente acusaram seu governo de controlar a Justiça e, por extensão, de perseguir oponentes.

Outra queixa frequente é que o partido do então presidente controlava tanto as instituições judiciais, constitucionais quanto as eleitorais do país, já que elegeu todos os seus membros, graças ao controle que também tinha sobre a Assembleia Legislativa Plurinacional de 2010 a 2019.

Hoje, com os políticos que se diziam perseguidos no comando do país, os primeiros sinais da mudança na correlação de forças não foram reduzidos apenas aos anúncios de Murillo e Quispe.

O governo interino convidou jornalistas a visitar as entranhas da Casa Grande del Pueblo, o prédio com mais de 20 andares que Morales havia construído e no qual ele governou por apenas um ano e dois meses.

Câmeras registraram como eram os ambientes reservados aos quais a imprensa quase nunca teve acesso. Escritórios, salas de jantar...

O que gerava mais expectativa eram os andares 23 e 24, reservados para o gabinete do presidente e moradias privadas.

A sala presidencial estava em exibição e, a convite do novo governo, jornalistas revistaram gavetas e armários do presidente.

Colaboradores mais próximos

O ex-ministro Juan Ramón Quintana não é a única autoridade do governo anterior que está no radar dos novos mandatários.

Não há informações sobre o paradeiro de ao menos seis ex-ministros, enquanto ganha terreno uma onda de boatos em torno de um "numeroso desembarque" de evistas em Cuba.

Autoridades apresentaram grupo de nove venezulanos acusados de incitação à revolta e porte de armas - EPA
Autoridades apresentaram grupo de nove venezulanos acusados de incitação à revolta e porte de armas
Imagem: EPA

Um dos principais colaboradores de Morales (de paradeiro também desconhecido) compartilha, por meio do aplicativo de mensagens WhatsApp, diversos vídeos de seguidores do ex-presidente sofrendo repressões de forças policiais nas cidades bolivianas onde o conflito entre manifestantes e autoridades está mais acentuado.

Por outro lado, a ministra das Relações Exteriores em exercício, Karen Longaric, anunciou na quinta-feira passada que solicitaria à Embaixada mexicana na Bolívia uma lista de todos os ex-membros do governo Morales sob refúgio.

A nova chefe de diplomacia também anunciou a demissão de todos os "embaixadores políticos" de Morales ao redor do mundo.

O governo de transição declarou o rompimento de relações com o maior aliado político da Bolívia, Venezuela, e solicitou que todo o corpo diplomático deixasse o país vizinho.

Além disso, nove venezuelanos foram presos sob acusação de porte de armas e incitação à revolta e foram apresentados à imprensa, algemados e sob custódia da Interpol. Não há informações oficiais sobre o que estes disseram sobre as acusações.

Profissionais enviados por Cuba, outro país próximo do governo de Evo Morales, também já começaram a deixar o país.

O ministro de Governo (responsável pela segurança pública) mostrou na sexta-feira uma lista de mais de 700 cubanos que devem deixar logo o solo boliviano.

'Não vamos perseguir'

Em entrevista recente à BBC, a presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, afirmou que não haveria "caça às bruxas" nem revanchismo.

"Não é uma perseguição, não viemos para isso", disse.

A mandatária interina afirmou que caberá à Justiça definir o futuro de Evo Morales e dos membros de seu governo.

Mas aponta que eles não apenas responderão pela acusação de "fraude eleitoral descarada" como também pelas denúncias de corrupção que surgiram no passado e, garante, aparecerão no futuro.

E conclui que o ex-presidente, agora asilado no México, deveria voltar à Bolívia para acertar as contas com a Justiça. "Evo Morales agora faz o papel de vítima e o que ele diz não é verdadeiro. É uma atitude muito canalha da parte dele."

Também em entrevista à BBC, Morales afirmou que não cometeu nenhuma ilegalidade nas eleições e disse que os Estados Unidos foram cúmplices no processo que o levou a abandonar o cargo. Ele não descartou ser candidato novamente no futuro.

Para Morales, o governo que assumiu a Bolívia é uma ditadura que enfrentará resistência de movimentos sociais e indígenas.

A grave crise boliviana, que está próxima de completar quatro semanas e que soma ao menos 23 mortes, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), e cenas de forte repressão registradas nos últimos dias, causaram preocupação de entidades internacionais.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) condenou o "uso desproporcional da força militar e policial". "As armas de fogo devem ser eliminadas dos dispositivos utilizados para o controle dos protestos sociais."

"O Estado tem o dever de respeitar o direito humano de protestar pacificamente", defendeu a entidade.

O governo de transição, por meio do ministro da Presidência, Jerjes Justiniano, reiterou na noite de sexta seu chamado à pacificação e ao diálogo com os setores mobilizados.

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