Rússia promete "resposta militar" a bases de mísseis americanos na Alemanha

Reagindo ao anúncio de que a Alemanha abrigará bases de mísseis americanos de longo alcance a partir de 2026, a Rússia disse nesta quinta-feira (11) que avalia medidas "ponderadas, coordenadas e eficazes" para frear a "ameaça muito séria à segurança" do país por parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O recado foi dado pelo porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, segundo quem a Otan é "um instrumento de confronto e não de paz e segurança".

"Constatamos que nossos adversários na Europa e nos Estados Unidos não são partidários do diálogo. E a julgar pelos documentos adotados na cúpula da Otan, não são partidários da paz", declarou.

Na quarta-feira, às margens da cúpula da Otan, Alemanha e EUA haviam anunciado a instalação de bases permanentes de mísseis americanos de longo alcance na Alemanha, incluindo armas do tipo SM-6, Tomahawk e dispositivos hipersônicos em desenvolvimento, com alcance superior ao das armas atualmente disponíveis na Europa.

O chanceler federal alemão Olaf Scholz saudou a iniciativa: "Há muito tempo nos perguntamos como podemos proteger, com armas convencionais, o território da nossa própria aliança, mas também a Alemanha", disse em Washington a jornalistas. "Essa decisão foi preparada por muito tempo e não é uma surpresa para qualquer um envolvido em políticas de segurança e paz."

Resposta será "principalmente militar"

Segundo o ministro alemão da Defesa, Boris Pistourius, a instalação de bases permanentes de mísseis deve encorajar a Alemanha e outros países europeus a investirem no desenvolvimento e compra de mísseis de maior alcance.

Mísseis lançados do solo com capacidade de viajar entre 500 km e 5.500 km de distância eram banidos por um acordo de 1988 assinado pelos EUA e a antiga União Soviética. Após acusar a Rússia de violar o tratado com o desenvolvimento de novas armas em 2014, os americanos acabaram abandonando o acordo em 2019.

Para o vice-ministro russo do Exterior Sergei Ryabkov, a iniciativa teuto-alemã visa prejudicar a segurança da Rússia. Ele prometeu que seu país dará uma resposta "principalmente militar (...), sem demonstrar nervosismo ou emoções".

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Ucrânia em "caminho irreversível" para a adesão à Otan

As reações russas vêm também na esteira da reafirmação do compromisso da Otan com a Ucrânia - que, segundo a própria Otan, estaria em um "caminho irreversível" para a adesão ao grupo.

"Desde o início, temos dito que a integração da Ucrânia à Otan supunha uma ameaça inaceitável para nós", afirmou Peskov. "Agora, vemos que a Otan adota um documento que diz que a Ucrânia se unirá definitivamente à Otan."

Reunida em Washington, a aliança militar do Ocidente aprovou um orçamento de 40 milhões de euros em apoio a Kiev para o ano de 2025, além de enviar aviões F-16 e baterias de defesa antiaérea.

Também ficou decidido que boa parte das entregas de armas à Ucrânia e o treinamento de suas tropas será futuramente coordenado a partir de um centro da Otan em Wiesbaden, na Alemanha.

Com isso, a coordenação do apoio à Ucrânia sai dos Estados Unidos, numa espécie de blindagem contra um eventual retorno de Donald Trump à Casa Branca.

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Europeus temem que o republicano, que já prometeu acabar com a guerra em 24 horas, suspenda a ajuda militar americana a Kiev.

Perguntado sobre se está disposto a assumir um papel de liderança dentro da Otan caso a aliança deixe de ser uma prioridade dos americanos, Scholz disse que a Alemanha vai aumentar seus gastos militares, se necessário. "A Alemanha é o maior país europeu na Otan. Há uma responsabilidade especial que emana disso. E posso dizer isso aqui com muita clareza: Nós vamos - eu vou - fazer jus a essa responsabilidade."

Tom em cúpula da Otan também irritou China

Durante a cúpula da Otan, o presidente dos EUA, Joe Biden, instou os membros da aliança a elevarem sua produção de armas a fim de assegurar seu poder de fogo perante a Rússia, que estaria sendo ajudada por China, Coreia do Norte e Irã.

A declaração final da cúpula da Otan adotou o tom até agora mais crítico à China. O país foi acusado pela aliança de apoiar a economia e a indústria bélica russa e, com isso, sustentar os esforços de guerra do Kremlin na Ucrânia, pondo a Europa em risco.

A China, por sua vez, respondeu à Otan aconselhando à aliança que evite "provocar" uma "confrontação" por causa das relações de Pequim com Moscou. "Não foi a China que provocou a crise na Ucrânia", afirmou um porta-voz da missão diplomática chinesa na União Europeia, que chamou de "difamação" as acusações contra seu país.

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"A China se opõe firmemente às difamações e ataques da Otan contra a China, à sua disposição de culpar os outros e ao uso pela Otan da China como pretexto para se expandir para o leste na região Ásia-Pacífico e fomentar tensões regionais", afirmou Lin Jian.

O regime em Pequim não condena publicamente a Rússia pela guerra na Ucrânia e continua a abastecer o aliado com insumos militares e civis, tendo intensificado suas relações com Moscou desde o início do conflito. O país também tem protagonizado tensões militares na região Ásia-Pacífico.

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