Iowa e a queda de braço entre ideologia e pragmatismo econômico

Jairo Mejía.

Washington, 29 jan (EFE).- Estado que abre a disputa das primárias que vão definir os candidatos dos partidos Republicano e Democrata à presidência dos Estados Unidos, Iowa é um exemplo do quão complexo é conciliar posturas ideológicas destas legendas com o bem-estar econômico do cidadão.

Quando o senador pelo Texas Ted Cruz votou em 2014 contra os subsídios indiretos da Agência de Proteção Ambiental (EPA), o político ultraconservador e agora candidato estava mandando uma mensagem às bases contra o tão demonizado "governo grande".

O que possivelmente não entrou nos cálculos de Cruz na época é que essa regulação, que obrigava o uso de níveis mínimos de bioetanol na gasolina convencional, era algo vital para a economia de Iowa, que na próxima segunda-feira decidirá quais candidatos prefere para o pleito presidencial de 8 de novembro.

Iowa é um estado que combina uma economia primária moderna - com grande importância da pecuária suína e agrícola (especialmente milho) - com um dos setores industriais mais sólidos do meio-oeste.

Foi Donald Trump, apesar de seu discurso xenofóbico e suas propostas pouco claras ou praticáveis, quem melhor se conectou com o eleitor de Iowa ao pedir a volta dos padrões definidos pela EPA em 2007, algo que ajudaria grandes e pequenos produtores no estado.

O governador republicano do estado, Terry Branstad, pediu que os eleitores não apoiem Cruz, assim como fez Debi Durham, presidente da maior entidade patronal de empresários do estado.

As declarações de Branstad, governador que mais tempo ficou no poder na história dos Estados Unidos, são uma demonstração de que apesar de o Partido Republicano ter feito uma guinada mais à direita desde a chegada de Barack Obama à Casa Branca, o discurso ideológico só dura até certo ponto.

Durham e outros líderes empresariais de Iowa estão a favor de subsídios temporários, deduções fiscais a indústrias emergentes e inovadoras e iniciaram um programa de atração de mão de obra imigrante, que além disso conseguiu interromper a diminuição populacional do estado.

Do mesmo modo, a economia é um tema chave para a batalha das primárias do Partido Democrata, com Bernie Sanders, senador independente e autodenominado "socialista democrata", posicionado cada vez melhor para canalizar o descontentamento dos americanos com o ritmo da recuperação da crise de 2008.

A renda média de uma família em Iowa, de US$ 52 mil anuais, começa a se recuperar só agora dos níveis prévios à recessão, enquanto os salários continuam abaixo da média nacional, apesar de o desemprego estar abaixo do índice nacional de 5%.

É por isso que, também no caso democrata, a economia pode ter um papel importante, ao obrigar os eleitores a escolher entre a mudança apregoada po Sanders, com transferência de recursos por impostos à classe média, ou o continuismo encarnado por Hillary Clinton, mais próxima às teses de Obama em assuntos comerciais.

"Os acordos comerciais foram um desastre para as famílias trabalhadoras neste país (...) como se pode ter um grande país se tudo o que se compra vem da China?", disse Sanders em encontro com o sindicato de trabalhadores do setor siderúrgico de Iowa a uma semana das primárias.

Em Iowa, as siderúrgicas, cujo ritmo de trabalho é considerado um termômetro da indústria dos Estados Unidos, foram as mais afetadas pela recessão de 2008.

O fato de os ganhadores das primárias de Iowa serem decididos em um sistema de caucus (assembleias populares), faz com que aqueles mais afetados pela crise ou os mais beneficiados pela recuperação sejam os mais ativos neste sistema participativo. Resta agora saber quem será mais convincente.

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