Debate eleitoral iraniano se reduz ao velho jargão: "É a economia, estúpido"

Álvaro Mellizo.

Teerã, 25 fev (EFE).- "É a economia, estúpido", o velho jargão criado por Bill Clinton em 1992 resumiu também a campanha para os pleitos parlamentares no Irã; um assunto que revelou a preocupação real dos iranianos e que permitiu englobar outras questões de difícil exposição pública na República Islâmica.

Tanto os principalistas (conservadores), como o bloco formado pelos candidatos reformistas e moderados fizeram dessa questão o "cavalo de batalha" de uma eleição que é previsivelmente determinante para uma reviravolta no poder político iraniano e ver se é possível aprofundar o degelo com o Ocidente impulsionado pelo governo do presidente Hassan Rohani.

O presidente chegou ao poder em 2013 com a promessa de melhorar a economia, muito prejudicada pelas sanções internacionais e pela má gestão de seu antecessor Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), e por enquanto seu trabalho obteve resultados mistos.

Rohani conseguiu conter a inflação, que passou de 40% a 19% e saiu timidamente da recessão, embora a população ainda sinta o prejuízo causado pelos altos preços e pelo desemprego.

Assim, a gestão econômica e as possibilidades de crescimento econômico do país foram usadas por ambos grupos tanto para pedir o voto dos indecisos como para denunciar e desprestigiar o rival.

Os moderados de Rohani e seus aliados se apresentaram como fiadores do êxito econômico e da abertura ao mundo, ao investimento internacional, à reforma econômica e do bem-estar da classe média.

Deste modo, esperam tirar proveito eleitoral do acordo nuclear com Ocidente, do fim das sanções e da previsível onda de investimento que deve chegar ao país nos próximos meses, o que poderia estar em perigo se os principalistas triunfarem, críticos de qualquer aproximação com o Ocidente.

O objetivo último do setor é atrair o voto da classe média e dos setores mais escolarizados da população, determinantes nas eleições que levaram Rohani ao poder, mas que também são as que mais dúvidas geram sobre o regime e consequentemente mostram uma maior tendência a não participar das eleições.

Rohani insistiu precisamente durante a campanha em pedir "uma votação em massa" em candidatos que "se preocupem com a economia e com os jovens".

"Votem naqueles que têm planos para as exportações não petrolíferas, nos que querem trabalhar pela prosperidade econômica e nos que têm fibra para combater a corrupção e a recessão", disse.

Os principalistas, hoje a força dominante no parlamento, mas na defensiva perante o previsível sucesso de seus rivais, se centraram em desmontar esses argumentos, apontando que estes só defendem "a aristocracia", que os êxitos econômicos de Rohani não são tão consideráveis e que suas pretensões de buscar o bem-estar do povo são "uma brincadeira".

O jornal "Keyhan", porta-voz oficioso deste grupo, não duvidou em publicar uma análise na qual denunciou que "o respeitoso presidente" vive fora da realidade, mentiu sobre a situação econômica do país - que segundo eles segue em recessão - e que entre os candidatos que o apoiam "não há um só economista".

"Não conhecem a realidade econômica do país. Se somos positivos, é pela má informação, o que já é um desastre. Se somos mais realistas, é porque eles têm o estômago cheio e atuam em colusão com os senhores do poder e da riqueza", criticou o jornal.

Os principalistas lamentaram também que "o governo e seus partidários" falem da "suspensão de prisões domiciliares e de devolver liberdades" como se esses fossem os "verdadeiros problemas do país".

O "Keyhan" expôs assim diretamente um assunto sobre o qual os reformistas passaram pisando em ovos, mas que fez-se evidente durante toda a campanha, que são seus esforços em reabilitar os responsáveis do "movimento verde" e avançar na agenda social e política do país.

Para evitar conflitos com as estruturas do regime, líderes reformistas como Mohamad Reza Aref se referiram ao assunto dos "rebeldes", como são conhecidos os candidatos "verdes" Mir Hossein Mosavi e Mehdi Karrubi, em prisão domiciliar sem julgamento desde 2009, reafirmando sua sintonia com o líder supremo Ali Khamenei e salientando que os incidentes de então foram impulsionados de fora do país.

"A raiz da sedição está fora do país e temos que ser cuidadosos para não desviar-nos. O inimigo sempre é inimigo, embora às vezes apareça com aspecto de amigo", ponderou Aref.

Estas declarações, necessárias para não criar arestas com as estruturas do regime, ao mesmo tempo afastam a maioria de eleitores liberais de cuja participação ativa necessitam os reformistas para triunfar nas eleições.

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