Enda Kenny, a cara da recuperação econômica e a cruz da austeridade

Javier Aja.

Dublin, 25 fev (EFE).- O primeiro-ministro da República da Irlanda, o democrata-cristão Enda Kenny, pretende continuar no poder por mais cinco anos, após comandar um governo de coalizão com os trabalhistas que conseguiu tirar o país de uma das piores crises econômicas de sua história.

Com base nas pesquisas, seu partido, o Fine Gael (FG), ganhará as eleições gerais desta sexta-feira, mas ficará longe da maioria absoluta e nem mesmo outro pacto com os trabalhistas garantiria a reeleição como "taoiseach" (primeiro-ministro).

Nascido no condado rural de Mayo, no oeste do país, Kenny venceu as eleições de fevereiro de 2011, em grande parte porque o eleitorado do país quis punir duramente o governo do centrista Fianna Fáil (FF), que três meses antes havia pedido à União Europeia (UE) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um resgate de 85 bilhões de euros.

Já se sabia na época que Kenny, casado e pai de três filhas, não era um político carismático e que provocava inclusive receio entre certos setores do próprio Fine Gael, que em gaélico significa "família" ou "tribo dos irlandeses".

A postura educada e a linguagem comedida de Kenny, em excesso para os que o consideram entediado e monótono nos discursos, também não geraram o entusiasmo que muitos compatriotas esperavam para enfrentar a humilhação de se submeter à dependência econômica externa.

Kenny não foi o "chefe da tribo" que os irlandeses queriam, mas se comportou como um gerente sério e competente, e não tremeu na hora de iniciar uma profunda reestruturação da economia nacional e impor uma dura política de austeridade - condições incluídas no programa de ajuda internacional ao país - que abandonou com sucesso em dezembro de 2013.

Agora, o castigado da vez pode ser ele, apesar de a economia ter voltado a crescer muito acima da média da UE e a taxa de desemprego estar a ponto de cair para menos de 8%, após superar os 15% há quase quatro anos.

Fora o desgaste habitual causado pelo poder, o problema, segundo alguns observadores, é que Kenny não soube "vender" as conquistas de seu governo nem convencer o eleitorado, sem a necessidade de recorrer à política do medo de que só seu partido poderá manter o bom rumo da economia.

Durante esta campanha eleitoral, o "taoiseach", deputado desde 1975, repetiu insistentemente que uma mudança de governo frearia a criação de emprego e provocaria a fuga de capitais.

A favor de Kenny está o fato de nunca ter aderido à cultura do apadrinhamento ou nepotismo, característica que marcou a vida política irlandesa durante a chamada economia do "Tigre Celta".

Enda Kenny foi ministro de Turismo e Comércio entre 1994 e 1997 em um governo de coalizão com os trabalhistas, aliança que se repetiu no último mandato.

Também é creditado ao atual primeiro-ministro o processo de renovação ao qual submeteu seu partido desde que passou a liderá-lo, em 2002, para modernizar os "camisas azuis". O apelido tem origem no primeiro presidente do grupo, Eoin O'Duffy, cuja milícia de voluntários, vestidos dessa maneira, lutaram na Guerra Civil espanhola.

Após a dura derrota nas eleições de 2002, Kenny, um dos deputados mais veteranos na Câmara Baixa (Dáil), começou a se cercar de novos rostos e seu governo durante o último mandato incluiu jovens correligionários.

Há cinco anos, o jornalista irlandês John Waters analisou o papel do "taoiseach" de acordo com um livro intitulado "Presidente ou Chefe?", entendendo o termo "presidente" (chairman em inglês) como um coordenador, gerente ou facilitador.

Waters afirmou que Kenny, grande admirador de Bruce Sprinsgteen, o "Boss", nunca seria um "chefe", mas sim um bom coordenador, o que não parece suficiente para garantir outra contundente vitória eleitoral.

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