Kerry prepara viagem a Cuba para ampliar diálogo sobre direitos humanos

Lucía Leal.

Washington, 28 fev (EFE).- O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, viajará em breve a Cuba para potencializar o diálogo sobre direitos humanos, o tema mais espinhoso da nova relação entre os dois países, e aplainar o caminho para a visita de Barack Obama, em um momento de fortes críticas republicanas sobre a repressão na ilha.

Kerry, que em agosto se tornou o primeiro-secretário de Estado americano a visitar Cuba em 70 anos, disse esta semana que poderia retornar à ilha "em uma semana ou duas, para ter um diálogo de direitos humanos".

O anúncio foi feito pouco depois de a Casa Branca anunciar que Obama viajará para Cuba nos dias 21 e 22 de março, e é surpreendente pelo fato de Kerry assumir a liderança de um diálogo que até agora tinha sido liderado por um de seus subordinados, o subsecretário de Estado, Tom Malinowski.

"Enviar Kerry para liderar a delegação americana no diálogo sobre direitos humanos em Havana demonstra a importância que o presidente Obama dá a esse tema", disse à Agência Efe um especialista em Cuba da American University, William LeoGrande.

Para Michael Shifter, presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano, a visita de Kerry reflete um desejo de "apaziguar os que exigem uma posição mais forte neste assunto".

Em quatro audiências no Congresso esta semana, vários legisladores republicanos pressionaram Kerry para que citasse avanços nos direitos humanos em Cuba, denunciaram que a situação piorou desde o reestabelecimento de relações diplomáticas e criticaram o plano de Obama de viajar à ilha apesar disso.

Segundo a dissidente Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional (CCDHRN), em janeiro houve pelo menos 1.414 detenções por motivos políticos na ilha, uma dos números mensais mais altos da última década.

"Eu gostaria de ir ao mesmo oculista que você, porque os óculos cor de rosa (com os quais olha para Cuba) são incríveis", alfinetou a congressista republicana de origem cubana Ileana Ros-Lehtinen, que denunciou as "maciças detenções" na ilha.

Seu companheiro de partido, Mario Díaz-Balart, lembrou na quarta-feira que, em uma entrevista ao Yahoo! em dezembro, Obama disse que não faria sentido visitar Cuba se o país "andasse para trás" nas liberdades para o povo cubano.

"E sob qualquer medida objetiva, o regime dos Castro não melhorou seu histórico de direitos humanos", ressaltou o congressista.

Segundo LeoGrande, no entanto, "a atenção de alto nível que está sendo dada ao diálogo sobre direitos humanos é a forma que a Administração tem de refutar as críticas de que ignorou esse tema no processo de degelo".

Esta seria a primeira rodada formal do diálogo sobre direitos humanos, após uma reunião preliminar em março de 2015 em Washington que se limitou a definir a metodologia e a estrutura da conversa bilateral sobre o tema.

"Sem dúvida, Kerry falará sobre as coisas que Cuba poderia fazer na área de direitos humanos para ajudar a viagem do presidente (Obama) ser o mais bem-sucedida possível", opinou LeoGrande.

Segundo Shifter, "embora Cuba esteja avançando muito devagar em direitos humanos, ainda esteja detendo dissidentes, está enviando alguns sinais encorajadores, como o recente anúncio de vistos" para que sete ex-presos políticos "possam viajar uma só vez para fora do país".

Félix Navarro, um desses sete ex-presos, disse à Agência Efe em Havana que rejeitará essa concessão do governo cubano e a atribuiu a "uma estratégia" relacionada à visita de Obama à ilha.

Um porta-voz da Casa Branca, Pete Boogard, disse à Efe na quinta-feira que a concessão de vistos é uma boa notícia, mas pediu às autoridades da ilha que estendam essa autorização a outros quatro ex-prisioneiros que não a receberam.

Kerry também lamentou esta semana que Cuba voltasse a prender cinco dos 53 presos políticos libertados como parte do acordo para o reestabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos.

"Acreditamos que serão libertados em breve", disse Kerry em uma audiência na Câmara dos Representantes.

Apesar desse panorama, LeoGrande vê avanços em direitos humanos, como o início de "um debate entre a sociedade civil sobre o futuro econômico e político de Cuba", a expansão do acesso à internet, e a tolerância de Havana com o crescimento do setor privado.

Segundo Shifter, Obama quer "aproveitar este momento para encorajar avanços em direitos humanos, mas sem coagir".

"Isto requer paciência, contenção e cabeça fria. Se Obama for muito crítico com a lentidão do governo cubano no assunto, toda sua estratégia cairia e poderia ser contraproducente", apontou Shifter. EFE

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