Escritores argentinos relembram golpe na Argentina pelo olhar de crianças

Mar Centenera.

Buenos Aires, 23 mar (EFE).- Bairros silenciosos como cemitérios, murmúrios, mãos que tremem e explosões de choro são diferentes formas do ver e sentir o mesmo medo que tomou conta da Argentina durante o golpe militar. Agora, 40 anos depois, 24 escritores argentinos que viveram a ditadura na infância voltam à essa época obscura no livro "Golpes".

Os críticos em literatura argentina Victoria Torres e Miguel Dalmaroni convidaram escritores nascidos entre 1957 e 1973, que ainda estavam na escola durante a última ditadura (1976-1983), para escreverem um relato pelo 40º aniversário do golpe militar, lembrado nesta quinta-feira, 24 de março.

Na infância e na adolescência "certos cantos e tons da memória pessoal e das próprias biografias ganham intensidades únicas e significados perturbadores, inquietantes e sempre abertos", escreveram os curadores da obra no prólogo.

"O momento anterior à literatura é o particular", disse Dalmaroni à Agência Efe.

Com crianças como principais protagonistas, a escola, a casa e o bairro são alguns dos cenários mais recorrentes, como "espaços emocionais intermediários entre o íntimo e o exposto, entre o público e o privado".

Assim, Mariana Enríquez recriou a perturbação de uma menina ao ver um homem enforcado, balançando em uma casa demolida pela passagem de uma estrada em construção. Para Juan José Becerra, a lembrança da porta-bandeira de uma turma que foi beijada pelo ditador Jorge Rafael Videla.

Sergio Olguín recorreu ao olhar infantil para narrar como tremiam as mãos de uma mãe ao lavar os copos que seu filho deu a dois militares que tocaram a campainha porque tinham sede.

Pais sem resposta às perguntas de seus filhos, os desaparecimentos e os tiroteios ocasionais ocupam as páginas dos contos, gritos e prantos se mesclam no dia a dia com espessos silêncios, que só aumentam a incompreensão dos menores.

Algumas histórias remontam a dias ou meses antes do golpe, outras após a Argentina voltar à democracia, mas há relatos que ignoram a cronologia para deixar a leitura aberta a sensações e humores.

"Qualquer ordem de leitura é válida", avaliou Dalmaroni, que apontou que só a terceira parte é intencional, já que gira ao redor do 24, "o número e o momento cronológico do trauma coletivo".

O título da obra, "Golpes" remete à tomada de poder pelos militares em 24 de março de 1976, e também "sobre como o golpe foi sentido por cada um dos autores", afirmou o editor.

"Cada um conta como foi para eles, mas jogam também com o equívoco da palavra, como no conto em que uma criança não entende quem deu esse golpe de que os adultos falam", disse, sobre o texto assinado por Federico Jeanmaire.

Como os autores, Dalmaroni, nascido em 1958, também tem lembranças da ditadura durante sua juventude.

"Tenho uma lembrança pessoal muito obsessiva, que me acompanhou em pesadelos durante muitos anos. Tive que fazer o serviço militar durante a ditadura", revelou o editor.

Ele lembrou que um dia quem passou sua tropa em revista foi Antonio Domingo Bussi, a máxima autoridade da província de Tucumán entre 1976 e 1978, que morreu em 2011 enquanto cumpria prisão domiciliar perpétua por crimes contra a humanidade.

"Era um clima... Nos sentíamos ameaçados, nas mãos dos carcereiros da ditadura fazendo o serviço militar nesse momento", continua.

Especialista em literatura, ele acredita que esta disciplina tem a capacidade de reinventar o passado, e avaliou que "'Golpes' dá continuidade ao incessante e indelével trabalho de recuperar a memória do horror argentino".

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