Discurso de Trump contra a imigração ilegal incentiva o voto latino

Irene Benedicto.

Washington, 27 mar (EFE).- O duro discurso contra a imigração ilegal adotado pelo pré-candidato republicano à Casa Branca Donald Trump se tornou o principal incentivo dos latinos dos Estados Unidos para comparecer às urnas, o que se reflete no aumento de solicitações de cidadania para poder exercer o direito ao voto.

A organizações defensoras dos direitos dos hispânicos e os números oficiais indicam que o número de pedidos da cidadania americana aumentou conforme a radicalização do tom de Trump, assim como do senador pelo Texas Ted Cruz.

O polêmico magnata, que lidera a disputa pela indicação presidencial republicana com um discurso xenófobo e ultranacionalista, prometeu construir um muro na fronteira com o México para bloquear a imigração e expulsar os 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem nos Estados Unidos.

Cruz, de origem de cubana, se comprometeu a reforçar a patrulha de fronteira, completar um muro na fronteira do México e acabar com as chamadas "cidades santuário", localidades com políticas de não perseguição aos imigrantes ilegais.

Em meio a esse panorama, uma coalizão de sete organizações em defesa dos interesses dos latinos lançou a campanha "Levante-se contra o ódio", para promover o voto hispânico.

A iniciativa nasceu como resposta "aos comentários racistas e ao ódio de alguns candidatos", explicou Pili Tobar, diretora de Comunicações da Latino Victory Project, uma das organizações que lidera a coalizão.

Com este tipo de campanha, as solicitações de cidadania aumentaram no último trimestre de 2015, logo antes do início do processo de primárias para escolher os candidatos presidenciais.

Em todo o país foram recebidas 12,64% mais solicitações da cidadania do que no mesmo período do ano passado, segundo dados do Serviço de Cidadania e Imigração.

"Quando os candidatos atacam a comunidade hispana, a comunidade latina responde. Os latinos entendem que, quando se está falando do tema migratório, na realidade está se falando de todos nós, sejamos cidadãos, residentes legais nos EUA, ou não", disse Clarissa Martínez de Castro, vice-presidente do Conselho Nacional da Raça (NCLR), a maior organização de defesa dos hispânicos nos Estados Unidos.

Antes do fim das primárias, a coalizão trabalha para divulgar informação sobre o processo e tenta tornar mais acessível o trâmite de naturalização, que possui um custo que não pode ser pago por todos os 55 milhões de hispânicos no país.

A taxa de desemprego é mais alta na minoria hispana do que no total da população e a renda média anual dos latinos é US$ 20 mil mais baixa que a média nacional.

Cálculos apontam que 24,14% dos latinos sobrevivem abaixo da linha de pobreza, o que deixa mais de cinco milhões de crianças sem dinheiro suficiente para levar uma vida digna, segundo o NCLR.

"O que os hispânicos querem é que Trump não ganhe porque pode ter um impacto negativo em suas vidas, e eles têm medo", disse Veronica Dahlberg, do grupo a favor dos latinos OLÁ.

Na Flórida, a Associação Cristã de Imigrantes Redlands (RCMA) orienta os hispânicos com oficinas sobre como se tornar cidadão e como se registrar para votar.

"Todos os latinos devem estar ofendidos porque Trump nos tachou do mesmo jeito: todos somos criminosos, todos somos menos humanos. É uma ofensa direta à nossa inteligência", disse à Agência Efe a diretora da RCMA, Lourdes Villanueva.

O que os imigrantes realmente temem é que se o magnata chegar à Casa Branca reforce a política anti-imigração, aumente as deportações e elimine as medidas do presidente Barack Obama para conter a expulsão de mais de 5 milhões de imigrantes ilegais.

Para os hispânicos, as eleições são a oportunidade de buscar uma mudança, segundo as associações, que não se cansam de enfatizar que a tarefa é escolher o candidato que torne isso possível.

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