Guerreiros e cavalos "invadem" parlamento da Mongólia

Tamara Gil.

Ulan Bator, 24 jul (EFE).- Quando o cantor Saman Javkhlan recebeu sua ata de deputado o fez com uma centena de cavalos. Era a primeira vez em muito tempo que se via tal quantidade destes animais no centro de Ulan Bator, a capital da Mongólia. E ele não quer que seja a última.

Parece velha política, mas é a nova, a que saiu das urnas no final de junho, quando os socialistas do Partido Popular da Mongólia (PPM) ganharam as eleições legislativas com uma grande maioria absoluta.

Das 76 cadeiras do Grande Hural (parlamento), o PPM - que liderou a oposição na legislatura anterior - conseguiu 63, muito à frente da legenda governante, os conservadores do Partido Democrático (PD), que somou 11.

As duas cadeiras restantes foram para o Partido Popular Revolucionário da Mongólia, uma cisão do PPM, e para um candidato independente, o cantor Saman Javkhlan.

Para Javkhlan, um dos artistas de música tradicional mais populares do país, todos os deputados deveriam vestir traje tradicional no parlamento, a capital mongol deveria abandonar o uso de veículos e os cavalos teriam que ser o único transporte. Podem parecer ideias retrógradas, mas o fizeram entrar na política em pleno século XXI.

"Na Mongólia, muita gente ainda vive ancorada na tradição. E preocupa o dano ao meio ambiente e o que a mineração provoca, à qual Javkhlan se opõe", explicou uma empresária nascida na capital.

Essa empresária considera que para os oriundos de Ulan Bator o cantor representa um "retrocesso", embora destaque que a situação muda para outra grande parte da população, pois centenas de milhares de mongóis continuam sendo nômades.

A Mongólia, situada entre dois gigantes - Rússia e China -, é lar de uma das últimas culturas nômades do planeta e ainda está longe de perder seus costumes, inclusive aquelas que remontam à época de Genghis Khan, como a luta mongol.

Junto com Javkhlan, este ano também entraram no parlamento vários guerreiros. Entre eles, o "gigante invencível" Badmaanyambuu Bat-Erdene, 11 vezes consecutivas campeão de luta nacional e representante do país nos Jogos Olímpicos de Barcelona, Seul e Sydney no judô, na categoria de mais de 100 quilos.

"(A luta mongol) é uma herança que representa a grande cultura de nosso país. E o povo nos pede que façamos parte da política", declarou à Agência Efe o lutador na final dos jogos do Naadam, a festa nacional mais importante da Mongólia.

Nas últimas eleições do dia 29 de junho, três famosos lutadores conseguiram uma cadeira e para Bat-Erdene esta foi sua quarta vitória como deputado.

"Há muita gente que gosta da luta e veem os guerreiros como pessoas fortes, exemplos a seguir", destacou Bat-Erdene, enquanto o público não tirava o olhar dele.

Como o cantor Javkhlan, este homem se destaca como político por promover a luta contra a mineração ilegal e o cuidado com o meio ambiente, embora se distancie do primeiro em relação à volta dos cavalos.

Estava vestido com roupa de gala, com traje típico em tom verde claro e um chapéu tradicional que lhe dá aspecto de imperador, mas Bat-Erdene usa terno e gravata quando vai ao Legislativo e tenta deixar para trás a imagem de lutador para assumir seu novo papel.

No entanto, o campeão mongol não conseguiu ainda o apoio esperado e já teve que enfrentar uma grande derrota na arena política: quando em 2013 perdeu a corrida para a presidência.

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