Cangzhou, uma cidade que afunda

Adrià Calatayud.

Cangzhou (China), 2 ago (EFE).- Contam na cidade de Cangzhou, no nordeste da China, que havia um edifício de três andares no complexo do Hospital Popular, que afundou pouco a pouco até que chegou um dia em que, de tanto perder altura, acabou com um andar a menos.

Diante da inutilidade do imóvel, as autoridades decidiram derrubá-lo há quatro anos e construíram no lugar uma fonte, que hoje segue ali como uma recordação da peculiaridade de Cangzhou, uma cidade que está afundando.

De fato, cidade perde entre 1 e 3 centímetros de altura em relação ao nível do mar a cada ano na maior parte de seu território. Em certas regiões, porém, a terra afunda a um ritmo de 5 centímetros anuais, ou inclusive mais rapidamente.

Assim mostra um estudo publicado recentemente por geólogos chineses, que constataram que o fenômeno do afundamento se estende pela parte nordeste do país, incluindo a capital Pequim. A causa, para eles, está clara: a excessiva extração de água do subsolo.

"Há uma óbvia correspondência entre o afundamento da terra e o nível de água subterrânea", conclui o estudo, realizado pelos pesquisadores Yifei Xing, Xiaowei Tian e Zhongzin Xing, que documenta como, literalmente, a superexploração dos aquíferos "desinchou" a crosta terrestre em Cangzhou.

As ameaças provocadas pelo fenômeno, alertam os geólogos, são muitas: desde a maior probabilidade de inundações até fraturas na superfície terrestre, que põem em risco edifícios, estradas e especialmente a extensa rede ferroviária de alta velocidade no país.

Pequim, que fica a cerca de 220 quilômetros ao norte de Cangzhou e concentra boa parte do tráfego ferroviário do país, também sofre com o problema: afundou 80 centímetros na última década.

O desafio de lidar com o afundamento da terra, em todo caso, se acentua em regiões litorâneas como Cangzhou, que também enfrenta os riscos da salinização do solo - o que o invalida para a agricultura - e de ficar parcialmente submersa sob o mar.

Os geólogos autores do estudo lamentam que não foi estabelecido na cidade um sistema de controle do afundamento até 2008, apesar de o fenômeno ter sido identificado pela primeira vez na China na década de 1920, nas cidades portuárias de Xangai e Tianjin.

Foi preciso meio século para que os cientistas descobrissem que a superexploração dos aquíferos era a razão do afundamento. Porém, apesar da descoberta, o problema continuou piorando pela rápida urbanização promovida em toda a China.

Em um país com uma distribuição hídrica desigual, onde duas de cada três cidades têm déficit de água, as reservas subterrâneas foram a solução para as carências. No entanto, o crescente bombeamento desde o subsolo as está afundando.

Há cerca de 50 cidades chinesas que perderam mais de dois metros de altura em relação ao nível do mar nas últimas décadas como resultado do afundamento.

Para aliviar este problema, os especialistas pedem que sejam reduzidas as extrações de água subterrânea melhorando a eficiência de seu uso e introduzindo recursos externos, mediante dessalinização ou transposições.

Neste sentido, o seco norte da China recebe desde dezembro de 2014 água do rio Yang Tsé, que corta o sul do país, graças a uma faraônica obra de engenharia, o chamado "canal sul-norte".

Algumas zonas conseguiram deter o afundamento, como as províncias de Jiangsu e Zhejiang (ambas no leste do país), nas quais foi proibida a extração de água do subsolo, e os níveis dos aquíferos começaram a se recuperar em alguns anos.

Em Xangai a limitação da exploração dos aquíferos começou na década de 1960, embora o grande desenvolvimento econômico e urbanístico da cidade agravou o problema pela pressão que exercem seus arranha-céus sobre o solo.

Cangzhou também segue lançando novos projetos urbanísticos enquanto afunda por sua excessiva extração de água subterrânea: o último é a Nova Área de Desenvolvimento Cangzhou-Bohai, que procura ligar o núcleo urbano da cidade a seu porto por meio de um complexo residencial com parques industriais e tecnológicos.

"(O afundamento) não nos afeta muito, porque utilizamos água depurada e dessalinizada, portanto não há problema de superexploração", assegura à Agência Efe Zhang Guodong, diretor do conselho do governo da Nova Área de Desenvolvimento Cangzhou Bohai.

Em Cangzhou, como em muitas outras cidades do país, nem o afundamento e nem a escassez de água conseguem conter os planos de expansão urbanística das autoridades.

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