Islamitas marroquinos ganham eleições pela 2ª vez, apesar de entorno hostil

Fátima Zohra Bouaziz.

Rabat, 27 dez (EFE).- As eleições legislativas de outubro no Marrocos permitiram ao partido islamita Justiça e Desenvolvimento (PJD) repetir a vitória e até melhorar seu número de deputados, apesar de um contexto regional marcado pela queda do islã político no mundo árabe.

O PJD, liderado pelo presidente de governo Abdelilah Benkirane, conseguiu nas eleições legislativas de 7 de outubro 125 cadeiras (18 a mais que na Câmara anterior), quase um terço do total, ficando muito à frente de seu principal rival, o Partido Autenticidade e Modernidade (PAM, 102 cadeiras), que se apresentava como paladino do laicismo. No entanto, esta vitória ficou ofuscada ante a margem de manobra cada vez mais reduzida dos islamitas, que não conseguiram até hoje, mesmo dois meses depois, formar um governo.

Se a Irmandade Muçulmana perdeu o poder no Egito em 2013 por um golpe de estado e o partido Ennahda perdeu as eleições na Tunísia, os islamitas do PJD mostraram resistência a este aparente declínio do islamismo político. Chama a atenção, por exemplo, que o partido islamita tenha conseguido manter o impulso político, apesar das medidas impopulares que decretou ao longo dos cinco anos em que esteve no poder, e sem ter conseguido introduzir no país nenhuma mudança significativa.

O partido reformou o sistema de subvenção dos produtos de primeira necessidade, aplicou sanções salariais aos grevistas e aprovou a polêmica reforma do sistema previdenciário que inclui aumentar os anos de contribuição e diminuir a prestação. Esta determinação na hora de aplicar medidas impopulares não foi muito longe, e o partido não chegou a tocar em âmbitos mais estratégicos como o da religião, a política externa e a economia, que ficam fora da influência do governo.

Este aspecto ficou evidente no último dia 7, quando o Ministério das Relações Exteriores lembrou a Benkirane a necessidade de não interferir na política externa do país depois de fazer declarações sobre a intervenção russa na Síria.

Em poucos países do mundo o Ministério das Relações Exteriores recrimina assim o próprio chefe de governo, ao lembrar que somente o rei "é o fiador das constantes e da continuidade das posturas diplomáticas do Reino do Marrocos, e do respeito a seus compromissos internacionais".

Nos últimos cinco anos de governo, Benkirane viu assuntos de segurança, religiosos e até a educação lhe serem negados; a maior humilhação sofrida pelo partido ocorreu durante a campanha eleitoral, quando vários de seus comícios e atividades foram proibidos. Apesar de tudo, o PJD não ficou desgastado, mas ao contrário: conseguiu que o eleitorado votasse e conseguiu se impor como o principal partido do país.

Se em 2011, Benkirane conseguiu formar governo em pouco mais de um mês, desta vez nada ficou definido. Apesar de ter conseguido apoio do Partido Progresso e Socialismo (PPS, ex-comunista) e do nacionalista Partido Istiqlal (PI), que conseguiram, respectivamente, 12 e 46 cadeiras, ainda faltam 15 cadeiras para o PJD formar maioria absoluta.

Agora as negociações estão em um impasse devido às exigências de outro eventual aliado, o partido Reagrupamento Nacional de Independentes (RNI), liderado pelo milionário Aziz Akhannouch, que ficou em quarto nas legislativas de outubro passado com 37 cadeiras. Alguns observadores não descartam a intervenção do rei como árbitro se Benkirane não conseguir superar este "bloqueio político" e formar governo.

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