Retorno de Cuba à OEA fica mais difícil após conflito com Almagro

Cristina García Casado.

Washington, 25 fev (EFE).- O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, prometeu recolocar Cuba na entidade durante seu mandato, uma hipótese que está cada vez mais longe após Havana negar que o ex-chanceler uruguaio participasse de um ato da dissidência.

Almagro pensou que o recente convite de receber um prêmio em memória da morte do dissidente Oswaldo Payá era uma oportunidade para aproximar Cuba dos princípios da OEA, mas especialistas na América Latina consultados neste sábado pela Agência Efe consideraram que, ao aceitá-lo, deu um "passo arriscado" que afasta a volta da ilha à organização.

A tentativa fracassada de viajar a Havana para receber na quarta-feira um prêmio da dissidência não ajudará no objetivo de conseguir que Cuba se reintegre à OEA, indicou o diretor do centro de análise política Diálogo Interamericano, Michael Shifter.

Almagro tentou até o último momento que o governo cubano permitisse viajar à ilha e que ficou "doído" com as mentiras que Havana contou para justificar a negativa, explicou o diplomata em entrevista à Agência Efe na última quinta-feira.

Cuba considerou o convite como uma "grande provocação para gerar instabilidade interna" e acusou Almagro de "declarações e atos anticubanos" e de "reforçar os ataques imperialistas e oligárquicos".

"É óbvio que esse conflito entre o secretário-geral e o governo de Cuba complica muito a reintegração na OEA. Cuba não está interessada na possibilidade de ser pressionada pelos direitos humanos e a democracia se entrar na OEA. Esse conflito mostra que a OEA está levando o assunto a sério", afirmou à Agência Efe Cynthia Arnson, diretora do programa latino-americano do Wilson Center.

O próprio Almagro admitiu que a volta de Cuba à OEA, um objetivo que o ex-chanceler uruguaio estabeleceu quando assumiu o cargo em maio de 2015, é difícil e "pode ser que não ocorra".

"Se eles têm problemas com alguém indo receber um prêmio, é óbvio que não estão prontos para retornar à OEA", disse Almagro.

Arnson concorda com o secretário-geral sobre a necessidade de Cuba cumprir uma série de critérios para voltar a OEA, uma "organização de democracia que tem instituições de direitos humanos, como a Comissão e a Corte Interamericana".

"Não acredito que Cuba vá retornar em breve porque não está disposta a aceitar a condição de abraçar os princípios da democracia liberal e os direitos humanos", afirmou a especialista.

Cuba, membro da OEA desde a criação da entidade em 1948, foi suspensa em 1962 após o triunfo da revolução liderada por Fidel Castro devido à adesão do governo ao socialismo e à aliança feita com a União Soviética dentro do contexto da Guerra Fria.

Quase meio século depois, o chileno José Miguel Insulza abriu as portas para Cuba na OEA. Em 2009, o órgão retirou a suspensão. Em 2014, o próprio Insulza viajou à ilha e, no ano seguinte, Cuba participou pela primeira vez de uma Cúpula das Américas.

Esses avanços, além da normalização das relações com os Estados Unidos iniciada em dezembro de 2014, fizeram com que Almagro pensasse que Cuba poderia voltar à OEA ainda em seu mandato.

"Com a visita a Havana, Almagro queria forçar para ampliar as margens do debate e dar uma mostra muito forte de apoio ao pluralismo político e a favor dos direitos civis", disse Arnson.

Já Shifter disse que o movimento de Almagro é "admirável de certo modo", mas pode incomodar alguns países da OEA.

"Os governos da região rejeitam o modelo cubano e suas violações de direitos humanos, mas há pouco apetite para tomar uma atitude hostil, por medo que seja contraproducente e faça que seja uma oposição a mais a fazer as reformas necessárias", completou.

Alguns observadores, após a notícia da viagem de Almagro a Cuba para receber um prêmio da dissidência, questionaram se Cuba seria a nova frente do secretário-geral já que, desde que assumiu o cargo, o ex-chanceler foi um dos principais críticos do governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

Mas Shifter acha que a missão do secretário-geral será ainda mais complicada. "Será mais difícil do que no caso da Venezuela para Almagro mobilizar os governos regionais a criticar publicamente o histórico de direitos humanos de Cuba", afirmou.

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