Manchester volta à normalidade após atentado de jihadista criado na cidade

Judith Mora.

Manchester (R.Unido), 24 mai (EFE).- Manchester retornou nesta quarta-feira a sua rotina sob fortes medidas de segurança e com a constatação de que o autor do atentado de segunda-feira era apenas mais um morador, nascido e criado nesta cidade do norte da Inglaterra.

Com aproximadamente 520 mil habitantes, mas com uma região metropolitana de 2,7 milhões, Manchester se orgulha de seu caráter acessível e tolerante, como ficou em evidência na vigília de ontem em homenagem às vítimas, e as autoridades insistem que o ataque "não dividirá" a população.

No entanto, a biografia do terrorista suicida, o britânico de origem líbia de 22 anos Samal Abedi, educado e formado no sistema local, sugere que, sob essa aparente coesão, esconde-se em Manchester um substrato de tensões entre as comunidades.

"O difícil de encarar agora é que (o agressor) foi criado aqui", reconheceu hoje o prefeito da região metropolitana de Manchester, o trabalhista Andy Burnham.

A mesquita de Didsbury, que Samal supostamente frequentava junto com o seu irmão Ismail - que foi detido na terça-feira - e seu pai, Ramadan Abedi, denunciou hoje que recebeu "notícias preocupantes sobre atos de ódio direcionados aos muçulmanos, como insultos e vandalismo nas mesquitas", e sugeriu aos afetados que denunciassem à polícia.

O porta-voz e membro do Conselho de Administração da mesquita, Fawzi Haffar, condenou "o atroz" atentado cometido após o show de Ariana Grande, que deixou 22 mortos, entre eles crianças, e 64 feridos, e enfatizou que "tal ato de covardia" não pertence à religião islâmica, nem a nenhuma outra".

O porta-voz não detalhou se Abedi e seus familiares tinham comparecido à mesquita e se, como também foi veiculado pela imprensa, seu irmão mais velho era o técnico de informática do centro.

Uma muçulmana que frequenta regularmente o templo, jornalista da "BBC" e que pediu o anonimato, disse à Agência Efe que Didsbury "é uma mesquita moderna, aberta e liberal".

"Duvido que (ele) tenha se radicalizado aqui", declarou a jornalista.

Esta mulher constatou, no entanto, que em Manchester, "assim como em qualquer cidade", "há tensões" entre as diferentes comunidades e, nos últimos anos, "aumentaram as agressões contra muçulmanos".

"(As agressões) começaram sobretudo após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Eu mesma fui atingida por uma cusparada no rosto", contou a jornalista de fé islâmica.

Este contexto de marginalização e de desconfiança mútua, que, segundo os especialistas, pode levar à radicalização em alguns casos, explicaria o crescimento do partido anti-imigração e populista de direita, UKIP, conforme disse à Efe Graham Smith, morador de Fallowfields, o local onde vivia o terrorista.

"O UKIP começou a triunfar em Manchester após a recessão de 2008", opinou este professor de 45 anos, que comentou que o partido "explorou a insegurança das pessoas e utilizou os muçulmanos como bodes expiatórios".

Samal Abedi nasceu em Manchester em uma família de refugiados líbios que chegou ao Reino Unido após fugir do regime do coronel Muammar Kadafi.

Segundo a imprensa, seus pais tinham retornado a seu país e ele mesmo acabava de regressar da Líbia quando cometeu o atentado, que foi reivindicado pelo grupo jihadista Estado Islâmico.

Abedi estudou em uma escola local e posteriormente na universidade de Salford, mas acabou abandonando prematuramente os seus estudos.

A polícia ainda não averiguou qual foi o seu processo de radicalização.

Fontes anônimas declararam à "BBC" que pelo menos duas pessoas que o conheceram na universidade chegaram a telefonar para a polícia para alertar sobre suas ideias extremistas, há cerca de cinco anos.

Na medida em que a investigação progride, que considera que Abedi contava com uma rede de apoio, é possível que surjam detalhes que surpreendam ainda mais os moradores de Manchester.

Não obstante, à margem dos últimos eventos, como operações policiais e cinco detenções relacionadas com o ataque, há muita gente que acredita que Manchester "manterá seu espírito generoso e positivo", como indicou à Efe Sarah Wellington, uma trabalhadora de 25 anos.

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