"Abenomics" é o maior trunfo eleitoral de Abe, apesar de desafios

Antonio Hermosín.

Tóquio, 20 out (EFE).- Os resultados visíveis do "Abenomics", como é chamada por analistas a estratégia de crescimento econômico do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, são o principal trunfo do governante para as eleições deste domingo, embora por baixo da solidez econômica do país ainda existam fissuras que colocam um ponto de interrogação sobre o seu futuro.

Abe chega às eleições como favorito graças ao bom ritmo da terceira maior economia mundial, que atravessa seu período expansivo mais longo nos últimos 11 anos e seu melhor momento desde que o líder conservador chegou ao poder, no final de 2012, quando iniciou um ambicioso plano baseado em reformas, estímulos e investimentos públicos.

Os indicadores mais recentes apontam que o Produto Interno Bruto (PIB) japonês continuará crescendo, e a Bolsa de Tóquio alcançou níveis inéditos nas últimas duas décadas, graças à confiança dos investidores nos lucros corporativos e na previsível continuidade de Abe no poder.

Esta bonança econômica ofusca os escândalos de favorecimento que abalaram o governo nos últimos meses e minaram a popularidade do primeiro-ministro, e representa "um dos motivos mais importantes" do renovado apoio popular a Abe, disse à Agência Efe o professor da Universidade de Tóquio Yu Uchiyama.

"Haverá muitos eleitores que não gostariam de tirar Abe do poder, mesmo que não sejam tanto seus partidários", explicou o cientista político.

Mas nem tudo são boas notícias para o premiê, a quem as pesquisas apontam como favorito para as eleições, já que a economia continua apresentando fraquezas estruturais em alguns dos seus pontos chave, e ainda é preciso resolver complexos desafios demográficos, sociais e trabalhistas.

O consumo doméstico, principal pilar do PIB japonês, continua sem dar o desejado impulso nos preços, já que os salários não aumentaram o suficiente, o que significa um obstáculo para a maquinaria do crescimento e afasta a meta inflacionária de 2% fixada pelo governo e pelo Banco do Japão (BoJ, banco central do país).

Os já modestos gastos das famílias podem diminuir ainda mais com a alta do imposto sobre o consumo de 8% para 10%, prevista para 2019 e necessária para melhorar a saúde fiscal do Japão, cuja dívida pública é maior que o dobro do seu PIB e a maior do mundo desenvolvido.

A falta de mão de obra vinculada ao envelhecimento demográfico e à baixa produtividade são outros problemas mais preocupantes do Japão a médio e longo prazos, segundo alertam entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os especialistas exigem reformas estruturais - as chamadas "terceira flecha" do "Abenomics"- para superar estes obstáculos, e em particular, para favorecer a natalidade, promover uma maior incorporação da mulher no mercado de trabalho e reduzir a diferença salarial entre empregados com contrato indefinido e os temporários.

Abe, de fato, justificou a convocação de eleições antecipadas com a necessidade de "aplicar as últimas fases do 'Abenomics' para garantir o crescimento", e detalhou algumas das medidas previstas, entre as quais se destaca um novo e substancial plano de investimento baseado na ampliação dos serviços públicos.

Estas medidas favorecerão setores como a saúde e a educação, embora "incluam pouco ou nada que melhore o potencial de crescimento a longo prazo do Japão ou que ajude a atingir uma inflação de 2%", aponta Mark McFarland, economista chefe da Ásia do Union Bancaire Privée (UBP), em um comentário sobre as eleições japonesas.

Mesmo assim, o especialista acredita que a inércia expansionista da potência asiática - impulsionada pelas exportações que vão de vento em popa graças à desvalorização do iene e à recuperação da demanda global - permitirá "continuar o crescimento das taxas que superam as previsões".

Na mesma linha, o departamento de análise do Goldman Sachs, acha "pouco provável" uma mudança de rumo significativa da economia japonesa se Abe renovar seu mandato, em um relatório sobre o panorama eleitoral do país.

"O 'Abenomics' está perto de alcançar seu limite, especialmente no que se refere à flexibilização monetária", adverte Uchiyama, que também expressou suas dúvidas sobre se Abe "será capaz de resolver este problema" (de se reeleger).

Por sua vez, o Partido da Esperança, da carismática governadora de Tóquio, Yuriko Koike, principal rival eleitoral do governante Partido Liberal Democrata, propõe uma alternativa ao "Abenomics" que põe mais ênfase no setor privado do que nos estímulos estatais para alavancar a economia.

O "Yurinomics", como Yuriko batizou seu programa econômico, inclui medidas como congelar a alta de impostos prevista para 2019 e incrementar as retenções sobre os lucros das grandes empresas para incrementar a arrecadação pública.

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