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Internacional

Expurgo profundo nas forças armadas aumenta incerteza política na Argélia

21/12/2018 23h16

Javier Martín.

Argel, 21 dez (EFE).- O expurgo na cúpula das forças armadas e dos órgãos de segurança da Argélia multiplicou neste ano a incerteza sobre o futuro do país, que é cenário de uma severa crise econômica e de uma luta amarga pela sucessão do presidente, Abdelaziz Bouteflika, que a cada dia parece estar mais doente.

Apesar de finalmente ter recebido este ano a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, depois do cancelamento de última hora em 2017 por causa de uma bronquite, outros dignitários, como o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamad bin Salman, viram suas audiências com Bouteflika canceladas mais uma vez por "motivos de saúde".

O presidente argelino não se move por si só nem fala em público desde 2013, quando sofreu um grave "acidente cardiovascular", e quase não aparece em atos públicos além de algumas comemorações e festas nacionais, sempre em uma cadeira de rodas empurrada por seu irmão.

Bouteflika também não viaja ao exterior desde então, exceto para se submeter ao que o palácio presidencial chama de "revisões médicas de rotina".

Esta situação suscita todo o tipo de especulações na Argélia, onde o principal tema de debate é elucidar quem governa o país na realidade.

Uma dúvida que ficou maior nos últimos meses devido à destituição inesperada de vários generais de alta categoria das forças armadas e de outros cargos relevantes da polícia nacional, da gendarmaria e do Ministério da Defesa.

Cinco deles tiveram seus passaportes confiscados e compareceram em meados de novembro diante de um tribunal militar para responder sobre supostos crimes de corrupção e tráfico de influência.

Habib Chentouf, Said Bey e Abderrazak Chérif, ex-comandantes-chefes da primeira, da segunda e da quarta região militar, foram acusados de "enriquecimento ilícito e abuso de funções".

Junto deles compareceram por supostos crimes similares o general Nuba Menad, ex-comandante da Gendarmaria Nacional, e o general Boudjemaa Boudouar, antigo diretor central de finanças do Ministério da Defesa.

Em setembro já tinham sido cassados outros dois militares de alta categoria e responsabilidade nas forças armadas argelinas: os generais Abdelkader Lunas, comandante-chefe da força aérea, e Ahcene Tafer, chefe do exército terrestre.

Dois meses antes, foi a vez do general Abdelghani Hamel, chefe da polícia argelina desde 2010.

Essa profunda "reforma" do aparato de segurança nacional começou em setembro de 2015, com a impactante cassação do general Mohamad Mediane "Tawfik", chefe durante 25 anos do temido serviço secreto argelino.

Mediane, um dos homens mais poderosos e influentes do país, era considerado um dos possíveis sucessores de Bouteflika e, aparentemente, a principal ameaça para a círculo mais próximo do presidente, integrado por seu irmão Said e pelo vice-ministro da Defesa, Gaed Salah.

A saída de Mediane, um homem obscuro do qual apenas há uma única fotografia, representou uma série de destituições que não só levaram à reforma dos serviços de Inteligência, mas que também teve impacto no setor socioeconômico.

Ao mesmo tempo em que o general caía em desgraça, uma série de obstáculos freavam o impulso da Cevital, o maior conglomerado privado do país, com interesses no setor agroalimentar, varejo, indústria e serviços, fundado em 1998 por Issad Rebrab, um multimilionário argelino com contatos em Paris, e que se opõe a Bouteflika.

O expurgo coincidiu este ano com um acirrado debate interno e público sobre a conveniência de um doente Bouteflika se apresentar como candidato para um quinto mandato nas eleições presidenciais previstas para 2019.

Um pleito que agora está no ar depois que vários grupos de oposição manifestaram seu possível apoio a um adiamento e, inclusive, à sua substituição por um "Consenso Nacional" que decida o futuro político de um dos principais produtores de petróleo e gás do mundo.

"O país não pode tolerar outra crise como a dos anos 1990. A Argélia precisa que todos estejam de acordo", afirmou no início de dezembro o líder da plataforma Esperança para a Argélia, Ammar Ghoul.

A ideia de adiar as eleições contou, uma semana depois, com a adesão da Frente de Forças Socialistas, um dos principais partidos da chamada "oposição real" na Argélia, ao lado do movimento islamita.

Analistas locais e internacionais asseguram que essas mudanças na cúpula do exército argelino e as mudanças bruscas no espectro político respondem a uma estratégia planejada para manter o regime militar e "preparar o período pós-Bouteflika". EFE

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