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Covid é pano de fundo para ataques políticos a opositores no Brasil e nos EUA

Bolsonaro e Trump espalharam desinformação durante a pandemia - Jim Watson - 7.mar.2020/AFP
Bolsonaro e Trump espalharam desinformação durante a pandemia Imagem: Jim Watson - 7.mar.2020/AFP

Gustavo Queiroz

Da Agência Lupa

14/07/2020 04h00

Além de liderarem o ranking de casos e mortes por covid-19, Estados Unidos e Brasil têm outro ponto em comum: ambos se destacam no uso de desinformação para fins políticos.

Durante toda a pandemia, informações falsas sobre autoridades, incluindo ações, declarações e políticas públicas, circularam constantemente nos dois países.

Nos Estados Unidos, os checadores de fatos produziram 180 verificações envolvendo o presidente Donald Trump e outras autoridades nacionais e locais, além de deputados e governadores.

Já no Brasil, a Lupa fez 56 checagens de conteúdos falsos sobre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), governadores, prefeitos e outros políticos. No mundo todo, plataformas de checagem de 60 países desmentiram ao menos mil conteúdos falsos deste tipo.

Semelhanças

Padrões semelhantes de desinformação podem ser vistos nos dois países que lideram o ranking. Os alvos preferenciais são os opositores dos governos federais, tanto no Brasil quanto nos EUA. Posts falsos sobre governadores que se posicionaram favoráveis a medidas de isolamento social são um dos tipos de desinformação identificados.

No Brasil, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), foi acusado de desrespeitar a quarentena que ele mesmo propôs em uma suposta viagem a Araçatuba. O mesmo aconteceu com o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), em um falso almoço em Angra dos Reis, e com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), acusado de passear de teleférico na Serra Gaúcha durante a crise. Nos três casos, as imagens usadas como provas eram anteriores à pandemia.

Já nos Estados Unidos, os governadores democratas Gretchen Whitmer, de Michigan, Tom Wolf, da Pensilvânia, e Gavin Newson, da Califórnia, foram acusados de violar o próprio decreto estadual de isolamento. Todas as alegações foram classificadas como falsas por checadores americanos.

Outra prática comum foi apontar que governadores de oposição estariam sendo "anti-patrióticos". Tanto Whitmer, governadora de Michigan, nos EUA, quanto Camilo Santana (PT), governador do Ceará, foram acusados de proibir bandeiras nacionais durante a pandemia. Nos dois casos, a informação era falsa.

Algumas temáticas são mais presentes no Brasil. Durante a pandemia, o país foi um terreno fértil para teorias da conspiração envolvendo uma suposta manipulação dos dados referentes à doença por parte dos governadores.

Rui Costa (PT), governador da Bahia, por exemplo, foi acusado de exigir que uma prefeita aumentasse o número de casos para receber mais verbas. No vídeo que provaria essa informação, ele não fala isso.

Já no Ceará, circulou um arquivo de áudio no qual um suposto assessor de Camilo Santana combina o número de mortos que deveria ser divulgado por uma rede de televisão. A pessoa identificada como "assessor do governador" nunca trabalhou no governo cearense.

Outros temas predominaram nos Estados Unidos. O governador de Wisconsin, o democrata Tony Evers, foi acusado falsamente de aproveitar a pandemia para confiscar armas de fogo. Já o governador de Nova York, Andrew Cuomo, também democrata, foi alvo de uma peça de desinformação que o acusava de tentar banir cigarros no estado durante a pandemia —algo que, logicamente, não aconteceu.

Presidentes tiveram parte na guerra da desinformação

Outro ponto em comum entre Brasil e Estados Unidos é que os dois presidentes espalharam desinformação durante a pandemia.

Em abril, Bolsonaro compartilhou um vídeo falso que supostamente mostrava a CeasaMinas, em Contagem (MG), desabastecida por causa de políticas de isolamento social. O vídeo foi desmentido: o responsável pela gravação fez as imagens quando o local estava fechado para limpeza.

Bolsonaro também declarou, em diversas ocasiões, que o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, se posicionou contra políticas de isolamento social —algo que nunca aconteceu.

Já Trump fez diversos apontamentos falsos sobre seus adversários políticos. Ele acusou seu antecessor, Barack Obama, de não ter deixado nenhum respirador para a atual gestão —quando, na verdade, mais de 16 mil unidades estavam disponíveis no Estoque Nacional Estratégico.

O presidente norte-americano também acusou a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, de "provocar muitas mortes" por causa de uma visita ao bairro de Chinatown, em São Francisco, em fevereiro deste ano.

A primeira morte na cidade só aconteceu no final de março, quase um mês depois da visita de Pelosi. Trump disse ainda que portadores de lúpus estavam imunes à covid-19 por causa do uso contínuo da hidroxicloroquina. Não existe evidência de que isso seja verdadeiro.

Embora esse fenômeno seja acentuado no Brasil e nos Estados Unidos, o uso de desinformação sobre covid-19 para atacar políticos não se limita a esses dois países. Na Alemanha, por exemplo, extremistas usaram falsas informações sobre covid-19 para atacar as políticas de imigração do governo.

Um dos conteúdos falsos sobre o fechamento das fronteiras dizia que solicitantes de refúgio poderiam entrar livremente no país sem passar por exames médicos. Checadores alemães avaliaram a informação como falsa.

A entrada de refugiados estava autorizada mediante realização de exames e tratamento médico no caso de infectados. A vice-presidente do grupo parlamentar de extrema-direita AfD (Alternativa para Alemanha), Beatrix von Storch, foi uma das responsáveis por disseminar a informação.

Na França, um dos rumores mais compartilhados dizia que um decreto federal autorizava a eutanásia de pacientes idosos que contraíram Covid-19. A informação, verificada como falsa por duas plataformas, chegou a ser compartilhada por Gilberto Collard, deputado francês ligado ao partido conservador Reagrupamento Nacional.

Esta coluna foi escrita pela Agência Lupa a partir das bases de dados públicas mantidas pelos projetos CoronaVerificado e LatamChequea
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, que têm apoio do Google News Initiative, e pela CoronaVirusFacts Alliance, que reúne organizações de checagem
em todo mundo. A produção das análises tem o apoio do Instituto Serrapilheira e da Unesco. Veja outras verificações e conheça os parceiros em coronaverificado.news

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