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Acampados no aeroporto de Guarulhos, afegãos buscam começar nova vida longe do Talibã

04.out.2022 - Cerca de 150 refugiados afegãos, incluindo homens que viajaram sozinhos e famílias com crianças pequenas, ocupam um saguão no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, Guarulhos. - WAGNER VILAS/ONZEX PRESS E IMAGENS/ESTADÃO CONTEÚDO
04.out.2022 - Cerca de 150 refugiados afegãos, incluindo homens que viajaram sozinhos e famílias com crianças pequenas, ocupam um saguão no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, Guarulhos. Imagem: WAGNER VILAS/ONZEX PRESS E IMAGENS/ESTADÃO CONTEÚDO

Fernando Cardoso

Da Reuters

14/10/2022 16h23Atualizada em 14/10/2022 16h23

Cobertores no chão, barracas montadas a partir de carrinhos de bagagem e crianças correndo pelas fileiras de assentos se tornaram a nova realidade do saguão do Terminal 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, que foi transformado em abrigo por mais de uma centena de afegãos que chegaram ao Brasil após fugirem de seu país por causa do retorno do Talibã ao poder.

Desde o final do ano passado, o governo brasileiro aprovou cerca de 6 mil vistos humanitários para afegãos que buscam fugir do regime autoritário que reassumiu o país em agosto de 2021.

No entanto, as autoridades locais em Guarulhos dizem que não foram avisadas do fluxo e que a falta de coordenação transformou o acolhimento dos recém-chegados em um esforço de emergência para contornar os transtornos de quem chega.

"Todas essas pessoas que você vê aqui, suas vidas estavam em risco no Afeganistão", diz Mohammad Aryobee, ativista de direitos humanos e engenheiro civil que chegou ao Brasil na terça-feira vindo do Irã, após ter que fugir do Afeganistão, segundo ele, por ter "ideais seculares".

"O motivo (para estarem aqui) é salvar suas vidas, salvar suas famílias", acrescentou. "Minha expectativa não é tão alta... Eu preciso de um lugar para viver e encontrar um pequeno trabalho, para melhorar minha vida, salvar minha vida e ter uma renda".

No fim da tarde de quinta-feira, havia 129 afegãos no Terminal 2, confirmou a Reuters junto ao Posto Avançado de Atendimento Humanitário ao Migrante do aeroporto, que acabou se transformando em uma agência de assistência aos refugiados.

As dezenas de refugiados do maior aeroporto do país apresentam dois perfis: homens solteiros e famílias completas, ambos em busca da liberdade de um regime que persegue todos aqueles que tenham alguma associação com o governo anterior, apoiado pelo Ocidente. Os homens conversam e escutam música, enquanto as mulheres se escondem nas cabanas improvisadas.

Moribuz, que optou por este nome fictício por temer por sua segurança, de 30 anos, trabalhava para a agência de inteligência do Afeganistão antes da chegada do Talibã ao poder. Ele diz que manteve-se em seu posto até o último momento possível, mas teve que fugir quando o grupo radical tomou o país.

"Eu estive no meu posto até o último minuto antes do governo cair para o Talibã , o que significa que não tenho histórico criminal. Se tivesse, não teria sido contratado pela agência mais prestigiosa do país", afirma Moribuz, a partir de um texto traduzido do persa em seu próprio celular.

COBRANÇA DO MPF

Após a longa jornada para chegarem ao Brasil os imigrantes têm enfrentado uma situação de vulnerabilidade em parte por ausência de ações do governo federal para lidar com a questão, de acordo com o Ministério Público Federal (MPF), que montou uma operação especial para enfrentar a situação.

"O governo federal, que emitiu os vistos humanitários, precisa, conforme determina a lei, coordenar os trabalhos com os demais entes federativos de modo a evitar situações tão graves como a atual, onde, nesse momento, crianças e bebês afegãos estão em situação de total vulnerabilidade no saguão do aeroporto. Isso é inadmissível", disse em nota o procurador Guilherme Rocha Goepfert, que coordena os trabalhos do MPF para contornar a situação dos refugiados no aeroporto.

O MPF encaminhou ofício esta semana ao governo federal exigindo informações sobre ações que tenham sido implementadas ou que estejam em planejamento para lidar com o número crescente de imigrantes afegãos acampados no aeroporto.

Procurado, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pela emissão dos vistos humanitários, não respondeu imediatamente ao pedido de comentário.

De acordo com as autoridades de Guarulhos, os problemas no aeroporto tendem a crescer nas próximas semanas, com a chegada prevista de novos imigrantes. Em média, quatro voos diários chegam de regiões que trazem os afegãos, como Oriente Médio e Ásia Meridional. Com a aproximação da Copa do Mundo do Catar, em novembro, o monitoramento da prefeitura aponta que a quantidade de voos vindos destes locais tende a crescer, trazendo novas e mais volumosas levas de pessoas.

"A maior dificuldade do município hoje é a imprevisibilidade da chegada dessas pessoas. No começo de abril, a gente não tinha nem noção de quantos vistos tinham sido emitidos", diz Fábio Cavalcante, secretário de Desenvolvimento e Assistência Social do município de Guarulhos.

Em associação com entidades civis e o governo do Estado de São Paulo, a secretaria agora lidera o acolhimento daqueles que aterrissam no país, garantindo ao menos segurança alimentar, atualização da carteira de vacinação e a transferência para cidades que se oferecem para acomodar os imigrantes e aliviar a sobrecarga no aeroporto.

A GRU Airport, concessionárias do aeroporto, remeteu a reportagem para a Prefeitura de Guarulhos e informou que tem contribuído para mitigar a situação, com manutenção de limpeza do espaço e comunicação de fatos ao MPF.

As medidas, no entanto, não vieram sem a pressão de grupos da sociedade civil, que se mobilizaram diante da crise para oferecer um serviço que o poder público tardou a disponibilizar.

"Hoje, depois de muito lutar como sociedade civil, a gente consegue dar para eles três refeições, manta, vacinação, tudo aquilo que já deveria ter tido desde o começo", diz Swany Zenobini, membro do coletivo Frente Afegã, mobilizado para participar dos esforços de recepção e acomodação dos refugiados.

No saguão do Terminal 2, um afegão de 31 anos, que também decide não revelar seu nome por questões de segurança, conta ter trabalhado para um importante banco de desenvolvimento asiático como especialista em finanças. Separado da família, que aguarda no Afeganistão, ele agora procura um lugar seguro para que suas duas filhas possam continuar os estudos, pois o Taliban não permite que garotas estudem após a sexta série. Se o Brasil se provar ser este local, ele pretende trazê-las.

Apesar da precariedade na chegada, o ativista Aryobee fala com otimismo sobre o futuro: "Posso dizer que esperávamos uma situação assim... Estes são novos dias para nós, nós começamos do zero aqui".