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"Falar em Terceira Guerra Mundial é exagero", diz analista sobre o Irã

Para professor Jorge Mortean, melhor postura para o Brasil após a morte de Qasem Soleimani é manter o silêncio - ATTA KENARE / AFP
Para professor Jorge Mortean, melhor postura para o Brasil após a morte de Qasem Soleimani é manter o silêncio Imagem: ATTA KENARE / AFP

03/01/2020 13h50

A morte do chefe da Guarda Revolucionária do Irã, general Qasem Soleimani, em um ataque autorizado pelos Estados Unidos no Iraque nesta quinta-feira (2) gera uma situação imprevisível no Oriente Médio. Soleimani era um dos homens mais poderosos do país. Apesar da escalada de tensões que a morte provoca, evocar a possibilidade de uma "terceira guerra mundial parece um tanto exagerado", na opinião do professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi Jorge Mortean, especializado no Irã.

A morte do chefe da Guarda Revolucionária do Irã, general Qasem Soleimani, em um ataque autorizado pelos Estados Unidos no Iraque ontem gera uma situação imprevisível no Oriente Médio. Soleimani era um dos homens mais poderosos do país.

Apesar da escalada de tensões que a morte provoca, evocar a possibilidade de uma "Terceira Guerra Mundial parece um tanto exagerado", na opinião do professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi Jorge Mortean, especializado no Irã.

"O problema que se gera ali é totalmente regional", frisa o consultor em Oriente Médio. "Estados Unidos e Irã já devem estar conversando desde o ataque e acho que não haverá uma solução militar nesse caso. O Irã não tem essa potência toda que clama em termos militares. E a Guarda Revolucionaria até entraria em um combate, mas seria mais num viés de defesa, e não de ataque."

Apesar do grande contingente das forças armadas de Teerã, os equipamentos militares do país se encontram defasados por conta das sanções internacionais. As restrições incluem impedir a compra de armamentos de boa parte do mundo, desde a Revolução Islâmica, em 1979.

"Traição" de americanos

Ele lembra que Soleimani foi um general que, nos bastidores, ajudou os Estados Unidos na reconstrução do Iraque pós-Saddam Hussein. "Apesar de não terem relações diplomáticas desde 1980, interesses regionais de americanos e iranianos levaram a essa cooperação. Agora, Washington rompe essa aliança de background e matam principal líder de forças especiais de atuação em conflitos", observa o especialista.

Mortean morou três anos no Irã, onde concluiu um mestrado. Ele avalia que a prioridade agora para Teerã é determinar como os americanos conseguiram concretizar esse bombardeio, em pleno aeroporto internacional de Bagdá. "Eles costumam dizer que 'resistir' é um verbo iraniano. É um país que, nos seus 4 mil anos de história, foi invadido 88 vezes, se adaptou a isso e conseguiu expulsar todos os invasores."

Brasil ganha mais se ficar calado

Para o especialista, o histórico de conflitos iranianos indica que o contra-ataque do país deve se dar pela tentativa de gerar prejuízos a parceiros econômicos norte-americanos no Oriente Médio. Neste contexto, pode ser arriscado para o Brasil adotar uma postura clara no conflito - que tenderia a ser pró-Washington.

"O Irã é um país superimportante na nossa história diplomática. Apesar de todas as reviravoltas políticas que tivemos aqui e lá, a nossa relação com os iranianos sempre foi pacífica", destaca. "É um dos nossos grandes parceiros econômicos internacionais e um dos poucos do Oriente Médio que nos dá superávit comercial, graças às nossas exportações de frango, carne bovina, açúcar, milho, autopeças e outros produtos."

Como foi o ataque

O ataque coordenado pelos EUA contra um aeroporto em Bagdá, no Iraque, matou Qasem Soleimani, o chefe da Força Revolucionária da Guarda Quds do Irã, considerado um dos homens mais importantes do país. Além dele, ao menos outras sete pessoas morreram. Entre elas estava Abu Mahdi al-Muhandis, comandante de milícia do Iraque, apoiada pelo Irã. A milícia da qual ele fazia parte também atribuiu a morte aos EUA.

Naim Qassem, segundo na linha de comando do Hezbollah no Líbano, também seria uma das vítimas.

A Guarda Quds é uma força de elite do exército iraniano e teria sido responsável pela invasão da Embaixada dos EUA, em Bagdá, no início desta semana.

Pentágono diz que ataque foi ordenado por Trump

O Pentágono confirmou que o ataque aconteceu "sob ordens do presidente" Donald Trump. "Os militares dos EUA tomaram medidas defensivas decisivas para proteger o pessoal dos EUA no exterior, matando Qasem Soleimani", afirmou em nota.

"Este ataque teve como objetivo impedir futuros planos de ataque iranianos. Os Estados Unidos continuarão a tomar todas as medidas necessárias para proteger nosso povo e nossos interesses, onde quer que estejam ao redor do mundo", concluiu.

De acordo com o Pentágono, Soleimani "orquestrou" ataques em bases de coalizão no Iraque ao longo dos últimos meses e aprovou os "ataques" na embaixada dos EUA em Bagdá, ocorridos no início desta semana.

Horas após a confirmação da morte de Soleimani, a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, que na terça-feira foi alvo de um ataque por uma multidão pró-Irã, recomendou a seus cidadãos que deixem o Iraque "imediatamente".

Aiatolá do Irã fala em vingança e premiê, em guerra duradoura

O guia supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou que vai "vingar" a morte de Soleimani e decretou três dias de luto nacional no país.

"O martírio é a recompensa por seu trabalho incansável durante todos estes anos (...) Se Deus quiser, sua obra e seu caminho não vão parar aqui e uma vingança implacável espera os criminosos que encheram as mãos com seu sangue e a de outros mártires", afirmou Khamenei em sua conta no Twitter em farsi.

Khameni nomeou o vice de Qasem Soleimani, o general Esmail Ghaani, como novo chefe das Forças Quds. O programa da força "permanecerá inalterado em relação ao período de seu antecessor", afirmou o aiatolá.

O primeiro-ministro do Iraque, Adel Abdel Mahdi, afirmou nesta sexta-feira que o ataque vai "desencadear uma guerra devastadora no Iraque". "O assassinato de um comandante militar iraquiano que ocupava um posto oficial é uma agressão contra o Iraque, seu Estado, seu governo e seu povo", afirmou.

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