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Brasil é visto pelos países vizinhos como "ameaça" e modelo "a ser evitado" na luta contra coronavírus

Alberto Fernández, presidente da Argentina - Gonzalo Fuentes/Reuters
Alberto Fernández, presidente da Argentina Imagem: Gonzalo Fuentes/Reuters

Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

15/05/2020 06h50

   

À medida que cresce o número de mortes por coronavírus no Brasil, aumenta o sinal de alerta entre os países vizinhos contra o perigo brasileiro. O Brasil faz fronteira com todos os países da América do Sul, menos com Chile e Equador. E tornou-se a referência do que deve ser evitado.

Ao contrário do Brasil, os demais países na região adotaram o isolamento total e obrigatório, o chamado lockdown, há dois meses. Alguns, inclusive, estabeleceram toque de recolher. Todos seguiram as orientações da Organização Mundial da Saúde e agora sentem que a ameaça mora ao lado, do lado brasileiro da fronteira.

Os vizinhos protegem-se do Brasil com medidas para redobrar o controle nas fronteiras. Quem entra pelo Brasil, passa por um controle mais estrito. Precisa ficar em quarentena por 14 dias e é monitorado pelas autoridades. Se for caminhoneiro, é controlado ao longo do percurso.

Os países também têm enviado militares à fronteira com o Brasil. A Colômbia, por exemplo, decidiu reforçar a presença militar, especialmente na cidade colombiana de Letícia, limite com o Peru e com a cidade brasileira de Tabatinga.

Letícia tem, proporcionalmente, o maior número de casos de coronavírus da Colômbia (94 a cada 10 mil habitantes) e muitos são importados do Brasil.

"Tomamos a decisão de militarizar os pontos de fronteira", anunciou o presidente colombiano, Iván Duque. A Colômbia tem 525 falecidos e uma taxa de letalidade de 3,86%.

Os países amazônicos observam preocupados o que acontece em Manaus, à beira de um colapso sanitário e funerário.

A maior preocupação, no entanto, acontece no Paraguai, no Uruguai e na Argentina, países com forte vínculo com o Brasil e com intenso fluxo de mercadorias.

Além disso, Brasil e Uruguai têm cidades unidas na fronteira como uma mesma urbe, sendo separadas apenas por uma rua. Cidadãos moram de um lado e trabalham do outro.

Na semana passada, o secretário da Presidência do Uruguai, Álvaro Delgado, admitiu que o governo uruguaio "está preocupado com a situação em cidades de fronteira, especialmente do lado brasileiro" e que o presidente, Luis Lacalle Pou, quer "uma maior presença na região de cidades binacionais". O Uruguai tem 19 falecidos e uma taxa de letalidade de 2,62%.

No Paraguai, a fronteira está fechada, mas os paraguaios podem retornar. E foi assim que o número de contagiados cresceu na semana passada: com os que chegaram do Brasil, muitos positivos. Quem entra, fica em quarentena em albergues na fronteira.

Tanto em Cidade do Leste quanto em Juan Pedro Caballero, há presença reforçada de militares paraguaios. Cidade do Leste está separada de Foz do Iguaçu pelo rio Paraná, mas em Juan Pedro Caballero, a fronteira é seca com a brasileira Ponta Porã. Os militares paraguaios cavaram uma vala de 250 metros para evitar que as pessoas atravessem ilegalmente a pé.

O Paraguai tem 11 falecidos e uma taxa de letalidade de 1,46%.

Na Argentina, a preocupação é com os argentinos que voltam pelo Brasil e com os caminhoneiros brasileiros. O governo tenta criar um "corredor rodoviário seguro" no qual o caminhoneiro brasileiro possa parar em lugares específicos e deixar a mercadoria sem ter contato direto com outras pessoas. A Argentina tem 353 falecidos e uma taxa de letalidade de 4,95%.

Reação dos governos

Há uma semana, o presidente paraguaio, Mario Abdo, aliado de Bolsonaro, disse que "o Brasil é uma grande ameaça para o Paraguai" porque "talvez seja o lugar com maior expansão do coronavírus no mundo".

O presidente argentino, Alberto Fernández, opositor político de Bolsonaro, repete sempre que "está muito preocupado" porque "o governo brasileiro não enfrenta o problema com a seriedade que o caso requer".

E, nessa linha, até mesmo o venezuelano Nicolás Maduro, inimigo de Bolsonaro, e questionado pelos números oficiais da pandemia na Venezuela, disse que "mandou reforçar a proteção na fronteira com o Brasil para garantir um cerco epidemiológico, sanitário e militar".

A Venezuela tem 10 falecidos e uma taxa de letalidade de 2,27%.

Choque entre Brasil e Argentina

A rivalidade Brasil x Argentina no futebol, agora parece ter passado ao campo sanitário. Parece haver uma disputa tácita sobre qual é o melhor modelo para enfrentar a pandemia e a crise econômica.

Bolsonaro disse que a Argentina se encaminha ao socialismo, numa alusão à Venezuela e ao seu colapso econômico e que a razão para a maior quantidade de mortos no Brasil é a quantidade de habitantes.

Mas a Argentina, com 45 milhões de habitantes, tem cerca de cinco vezes menos habitantes, mas 40 vezes menos mortos.

É a discussão sobre o que é mais importante: saúde versus economia. O presidente argentino tem usado o mau desempenho do Brasil para exaltar o bom resultado da Argentina. Tem sido assim a cada duas semanas, sempre que Alberto Fernández anuncia uma nova extensão do "lockdown" argentino. Mostra gráficos nos quais compara os números da Argentina com os do Brasil.

No dia 8 de maio, comparou os números da Argentina no 67.º dia da pandemia. Enquanto a Argentina tinha 293 mortos, o Brasil, 6.410.

"Em comparação com o resto do continente, a situação da Argentina é bastante controlada. Vemos o sucesso que tivemos como sociedade. Até aqui fizemos as coisas bem", disse Alberto Fernández.

No dia 10 de abril, disse que a Argentina tinha 1.975 contagiados enquanto o Brasil 19.638. A Argentina tinha 82 mortes enquanto o Brasil 1.056.

"E o Brasil tem cinco vezes a nossa população", sublinhou Fernández. A questão é como será depois da pandemia, quando as fronteiras forem reabertas?

Até onde irá o medo, o controle e até a proibição? O Brasil poderá ser considerado -como já é- um país de risco. E isso pode ter consequências para a recuperação do turismo dos dois lados da fronteira.

Em tempos normais, por ano, um milhão de brasileiros vêm à Argentina e dois milhões e meio de argentinos viajam ao Brasil.

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