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Categorizar 'Antifa' como terrorista pode aumentar violência da extrema-direita

1.jun.2020 - Reverendo Kevin McCall (centro) discursa no local em que George Floyd foi morto por um policial, em Mineápolis, nos EUA - Stephen Maturen/Getty Images/AFP
1.jun.2020 - Reverendo Kevin McCall (centro) discursa no local em que George Floyd foi morto por um policial, em Mineápolis, nos EUA Imagem: Stephen Maturen/Getty Images/AFP

01/06/2020 15h59

Enquanto milhares de manifestantes vão às ruas nos Estados Unidos para protestar contra a morte de George Floyd, um homem negro americano morto por um policial, o presidente Donald Trump indicou ontem que pretende classificar o movimento Antifa como organização terrorista. Para um militante do movimento, a declaração poderia aumentar atos de violência da extrema-direita americana.

O movimento Antifa, diminutivo de antifascista, estaria, segundo Trump, entre os grupos presentes entre os manifestantes e seria responsável pelos tumultos próximos à Casa Branca, em Washington, no último fim de semana e em outros estados americanos que começaram após a morte de George Floyd.

"Os Estados Unidos vão classificar ANTIFA como organização terrorista", publicou o presidente em sua conta do Twitter. Na rede social, ele ainda pediu aos prefeitos e governadores democratas para serem "duros". "Essas pessoas são anarquistas", disse.

Mas segundo um militante do movimento entrevistado pelo jornal Le Monde que não quis revelar sua identidade, a decisão de qualificar os atos como terroristas é política, sem repercussões jurídicas.

Apesar da lei federal americana prever a possibilidade de terrorismo interior nos Estados Unidos, a legislação não especifica crimes ou indica grupos que poderiam ser sancionados. O financiamento e apoio a organizações podem ser investigados somente em caso de terrorismo internacional. Uma investigação sobre um grupo terrorista local só pode acontecer no caso de crimes, violências e mortos.

No entanto, o militante considera que o post de Trump foi calculado e tem o objetivo de buscar o apoio de sua base. Ele teme que a declaração seja considerada como um sinal de encorajamento para a extrema-direita para realizar seus próprios ataques contra os manifestantes em toda impunidade. Incidentes desse tipo já foram repertoriados no fim de semana.

Quem são os Antifa

Antifa - Stephanie Keith/Reuters - Stephanie Keith/Reuters
Imagem: Stephanie Keith/Reuters

Descritos por especialistas como "anarquistas de extrema-esquerda", suas ações são normalmente violentas e visam à extrema-direita e os grupos supremacistas brancos.

Historicamente, a Ação Antifascista nasceu na Europa entre as duas guerras mundiais, principalmente na Itália, contra os camisas negras de Mussolini, ou na Alemanha, para se opor ao aumento do partido nazista de Hitler. Os historiadores marcam o retorno dos Antifa nos anos 1990, após a queda do muro de Berlim, contra a aparição de pequenos grupos neonazistas no leste da Europa.

Os Antifa de hoje não são facilmente identificáveis, não têm personalidades públicas conhecidas, ou um porta-voz. O movimento se divide em pequenos grupos que agem localmente e realizam ações fortes. Normalmente vestidos de preto, usando máscaras e capacetes para não serem identificados, os membros se identificam com ideologias de extrema-esquerda e combatem grupos de extrema-direita e supremacistas.

Eles não se definem como Antifa e não existe uma organização que os reúna. Por isso é difícil estabelecer o peso dos manifestantes próximos ao movimento nos protestos nos EUA. Apesar das tentativas das autoridades de responsabilizar indivíduos de outros estados pelos estragos nos conflitos de Mineápolis, os registros de detenções mostram um perfil de manifestante bem local, como lembra Le Monde.

Imagens de outras cidades circularam nas redes sociais, mas elas não permitem determinar se os manifestantes que causaram tumultos têm alguma afiliação política.

Nos EUA, os Antifa são conhecidos principalmente por uma volta às atividades em 2016, com o objetivo de protestar contra a eleição de Donald Trump.

Terrorismo

Esta não é a primeira vez que o termo terrorista é utilizado para classificar os Antifa nos Estados Unidos. O FBI os considerou como "terroristas domésticos" em documentos de 2017, publicados pelo site Politico, após os conflitos de Charlottesville na Virgínia contra grupos supremacistas.

A dificuldade de categorizar o movimento como organização faz com que a tarefa de detê-lo seja difícil, como reconhece o FBI em seus documentos. A imprensa americana precisa que, no caso dos protestos ligados à morte de George Floyd, o FBI não afirmou que todos os envolvidos nos confrontos sejam Antifa.