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8 meses

Miséria do Sertão nordestino aumentou durante governo de Bolsonaro, afirma Le Monde

Governo Bolsonaro teria acentuado a pobreza na região, afirma reportagem - Marcos Corrêa/PR
Governo Bolsonaro teria acentuado a pobreza na região, afirma reportagem Imagem: Marcos Corrêa/PR

22/03/2021 07h16

O jornal Le Monde desta segunda-feira (22) traz uma reportagem especial de seu correspondente no Brasil, Bruno Meyerfeld, que visitou o interior do estado do Pernambuco. Moradores ouvidos pelo diário afirmam que, com os cortes das ajudas sociais pelo governo de Bolsonaro, a miséria voltou a se instalar no Sertão nordestino.

A matéria do Le Monde destaca que nessa região do nordeste onde vivem 25 milhões de brasileiros, acreditou-se durante muito tempo era possível sair da pobreza. Mas a atual crise econômica da qual o Brasil é palco cria desilusões e castiga a terra de onde é natural o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O repórter Bruno Meyerfeld visitou a casa de moradores da comunidade de Quixabeira Helena, fundada por descendentes de escravos, onde "todos vivem abaixo da linha da pobreza e a grande maioria é analfabeta". Nos últimos tempos, a situação piorou, afirma o jornal.

Em entrevista ao Le Monde, uma moradora do local, Jasinta Helena Gomes da Silva, de 73 anos, conta que há oito meses não recebe sua aposentadoria. Ela divide a casa com a a filha, de 31 anos, e dois netos. Com os cortes no Bolsa Família e outras ajudas sociais, viver durante a epidemia de Covid-19 ficou ainda mais complicado: falta até mesmo comida para as crianças.

Le Monde salienta que a história de Jasinta não é exceção: "todo o Sertão nordestino sofre com essa angústia", acentuada pela crise sanitária e a política do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Para o diário, o cenário é diferente dos anos em que Lula governou o país.

"Bombardeio" de programas sociais

Entre 2003 e 2011, o líder petista encarnou uma grande batalha contra a miséria, "bombardeando o Sertão com programas sociais", como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Fome Zero, Luz Para Todos, entre outros. A reportagem reitera que, naqueles tempos de crescimento econômico do Brasil, o PT abriu linhas de crédito, construiu um milhão de cisternas, financiou bolsas de estudos de jovens, subvencionou o preço dos medicamentos na farmácias e garantiu a aposentadoria de agricultores. "Em dez anos, a pobreza caiu pela metade", destaca Le Monde.

No entanto, com a crise econômica em 2014, durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, a região recomeçou a ser castigada. Quando Temer assumiu, depois que a ex-presidente foi destituída, os investimentos caíram vertiginosamente. "Mas a eleição de Bolsonaro foi pior do que tudo: o governo esqueceu totalmente essa região", explica a Le Monde Cicero Felix dos Santos, coordenador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa).

A matéria diz que as razões deste retrocesso são múltiplas, começando pela linha ultraliberal, hostil aos programas sociais do ministro da Economia Paulo Guedes. Mas, além disso, Bolsonaro prefere se aliar às ricas famílias do agronegócio do nordeste, influentes em Brasília e contra os pequenos agricultores. A reportagem cogita também uma última possibilidade: "punir uma região que vota tradicionalmente entre 80% e 90% para a esquerda brasileira".

Bolsonaro x Lula

No entanto, Le Monde publica que, nos últimos tempos, Bolsonaro tenta correr atrás do prejuízo para conquistar o eleitorado da região, multiplicando viagens ao nordeste, inaugurando trechos da transposição do Rio São Francisco, prometendo água potável à população, posando para câmeras com chapéu de vaqueiro.

A reportagem afirma que o presidente até conseguiu ganhar alguns pontos de popularidade na região devido à ajuda emergencial que concedeu durante a crise sanitária, mas, ao ouvir moradores da região, o correspondente do Monde no Brasil conclui que o "sertão deve continuar fiel a Lula", caso seja candidato em 2022.

Para muitos habitantes locais, como Maria Ribeiro, ouvida pelo jornalista, "Bolsonaro quer a morte dos nordestinos". Outros, como Miguel, se dizem extremamente decepcionados com os políticos. "Nunca mais votarei. Salvo se Lula for candidato", promete.

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido. Os ministérios contam com alta participação de militares. Bolsonaro coloca seu alinhamento político à direita e entre os conservadores nos costumes.