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Imprensa internacional repercute CPI da Covid: 'Quantas vidas poderiam ter sido salvas?'

Relator Renan Calheiros (MDB-AL) apresenta hoje o relatório final da CPI da Covid, que pedirá o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - Jefferson Rudy/Agência Senado
Relator Renan Calheiros (MDB-AL) apresenta hoje o relatório final da CPI da Covid, que pedirá o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

20/10/2021 11h49Atualizada em 20/10/2021 12h43

A apresentação oficial do relatório do senador Renan Calheiros na CPI da Covid é uma das principais manchetes da imprensa europeia nesta quarta-feira (20). Os diários destacam uma série de crimes "intencionais" de que Bolsonaro é acusado porque "decidiu deliberadamente não tomar medidas para conter a circulação do coronavírus".

A correspondente do jornal Libération em São Paulo, Chantal Rayes, se pergunta se o cenário hoje poderia ser diferente, caso o presidente brasileiro agisse para barrar a propagação do vírus. A matéria afirma que se Bolsonaro tivesse adquirido a tempo as vacinas anticovid, "ao menos 100 mil vidas das 600 mil perdidas no maior país da América Latina" poderiam ter sido poupadas.

No entanto, "o presidente é acusado de deixar o vírus se espalhar deliberadamente, para favorecer uma ilusória imunidade coletiva - tudo isso sabotando as medidas sanitárias - como o confinamento e o uso da máscara - adotadas por prefeituras e Estados", reitera Libération. "Notável antivacina", a matéria afirma que Bolsonaro também se recusou a adquirir os imunizantes no ano passado, encorajando o uso da hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz contra a Sars-Cov-2.

Crime contra a humanidade

O senador Renan Calheiros consentiu em retirar do texto crimes de homicídio e genocídio indígena, mas o presidente será acusado de crime contra a humanidade, prevaricação, charlatanismo, infração a medidas sanitárias com resultado de morte, entre outras incriminações.

Segundo o jornal Le Monde, "apesar de gravíssimas, essas acusações devem ter impacto simbólico, essencialmente político", já que Bolsonaro tem apoio suficiente no Congresso para evitar um processo de impeachment. Da mesma forma, "o procurador-geral da República, Augusto Aras, aliado do presidente, deve bloquear qualquer indiciamento".

O jornal português Público tem a mesma análise que o Le Monde. Para o diário, dificilmente Bolsonaro sofrerá um processo de impeachment e será protegido por Augusto Aras, "que espera ganhar uma vaga no Supremo Tribunal Federal" em troca de sua fidelidade ao presidente.

Na Espanha, o jornal El País escreve que a "gestão errática" de Bolsonaro envolveu "a propagação de informações falsas sobre a Covid-19". "Houve uso da máquina do governo e cumplicidade do Conselho Federal de Medicina, que permitiu a alguns de seus membros promover medicamentos de eficácia não comprovada contra a doença", apontou El País, depois de consultar um rascunho do texto do relator. A opção pela imunidade de rebanho, para não prejudicar a economia, ajudou o Brasil a atingir índices de mortalidade bem superiores a outros países do mundo, assinala o diário espanhol.

Retrato devastador da negligência

No Reino Unido, o The Guardian diz que "o relatório da CPI exibe um retrato devastador da negligência, da incompetência e do negacionismo" defendido pelo presidente, que ignorou a emergência de saúde pública, deixando a Covid-19 matar mais de 600 mil brasileiros.

Nos Estados Unidos, a imprensa também reage à finalização do relatório da CPI da Covid. O jornal The New York Times consultou trechos do documento e destaca que Bolsonaro é responsabilizado por "ter intencionalmente deixado o vírus se propagar pelo país, matando centenas de milhares pessoas na maior economia da América Latina". De acordo com o diário, três filhos do presidente e diversos membros do governo também poderão ser indiciados.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.