Conteúdo publicado há 27 dias

Caminhão com doações ao RS está preso na Argentina há 23 dias

A ajuda solidária de brasileiros residentes na Argentina e de argentinos comovidos com a tragédia no Sul do Brasil requer uma autorização para prosseguir que a Embaixada do Brasil em Buenos Aires prometeu conseguir há duas semanas. Os envolvidos na doação fazem apelo pela liberação da carga, aguardada pelos necessitados. O dono do caminhão acumula perdas diárias.

A estudante brasileira de Medicina na cidade de Rosario, a terceira mais importante da Argentina, Cristina Vieira está desolada.

"Estamos tristes, totalmente tristes. Saber que todo o nosso esforço está preso na fronteira é desumano. E gera muita indignação saber que tudo é por uma questão burocrática, que pode ser revolvida pela Embaixada do Brasil, mas não é. O nosso povo está sofrendo e precisando de ajuda. A ajuda está disponível, mas não chega até eles", desabafa Cristina em entrevista à RFI.

Comovidos pela tragédia no Rio Grande do Sul, mais de 30 brasileiros, na sua maioria estudantes de Medicina, transformaram a sua rede de amigos e colegas em atores de uma campanha solidária.

Aos poucos, a progressão geométrica envolveu toda a cidade. Apartamentos, igrejas, galpões, qualquer espaço solidário tornou-se um posto de coleta.

O resultado do esforço coletivo foram três toneladas de roupas (principalmente contra o frio), colchões, cobertores e água.

Através das redes sociais, Cristina Vieira conseguiu uma empresa brasileira na região que adotou a campanha, conseguindo a solidariedade de uma empresa de caminhões dedicada ao transporte entre Brasil e Argentina.

No dia 28 de maio, o caminhão partiu de Rosario, chegando à fronteira no dia seguinte. Desde então, a carreta permanece retida na alfândega do lado argentino, na cidade de Paso de los Libres.

Embaixada do Brasil não agiu a tempo

Faltam apenas oito quilômetros para atravessar a fronteira, mas falta também uma autorização que a Embaixada do Brasil na Argentina ficou de conseguir desde o dia 29 de maio.

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"Desde então, a Embaixada não nos deu mais nenhum retorno O dono do caminhão não cobrou pelo frete, mas diariamente acumula mais prejuízos por ter o caminhão parado", conta à RFI Felipe Laydner, coordenador de logística das doações.

Felipe descreve o sentimento de ver tanto esforço deste lado da fronteira não chegar a quem tanto precisa do outro lado. Há 23 dias, os necessitados de ajuda aguardam no Rio Grande do Sul.

"É um sentimento de impunidade, de raiva, de insegurança, de ver que quando a gente precisa que o governo ajude ou que a Embaixada ajude, na verdade, só atrapalham. Eles estão se lascando para os necessitados", diz indignado.

O argentino Danilo Scheidler, dono da Dalanema Transportes, está estupefato com a incompetência dos que prometeram uma solução.

"Não cobramos o frete porque estamos sensibilizados com o que aconteceu no Brasil e queremos ajudar. Já perdemos cerca de R$ 30 mil. Mas a maior indignação é com a burocracia que não se importa com as pessoas necessitadas dessa ajuda. Não se importam com as pessoas e não se importam com as perdas que geram. É uma indignação duplicada", critica Danilo em entrevista à RFI. Na próxima semana, as perdas com o caminhão parado chegarão a R$ 40 mil.

Itamaraty alega não ter sabido da doação a tempo

O nível de integração entre Brasil e Argentina é o maior da região. Os dois países formam o eixo do Mercosul, bloco com 33 anos de vida. Nada disso impediu que o caminhão com uma causa nobre permanecesse refém da burocracia.

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Em nota, o ministério das Relações Exteriores informou que "a Embaixada do Brasil em Buenos Aires não havia sido notificada com a antecedência devida sobre a doação em questão, impossibilitando a realização dos trâmites necessários em tempo hábil" e que "desde o momento em que foi notificada da situação, a Embaixada atua para agilizar o ingresso das doações em território brasileiro".

No entanto, a RFI pode confirmar que os envolvidos enviaram vários e-mails à Embaixada desde o dia 21 de maio e que a Embaixada só respondeu em 29 de maio, tomando conhecimento formal do caso quando o caminhão já estava na fronteira.

Há 12 dias, o diplomata da Embaixada do Brasil responsável pela gestão junto à Chancelaria argentina prometeu dedicar-se ao assunto. Somente nesta semana, depois de saber da reportagem, começou o processo para pedir a liberação da carga, solicitando os dados mais básicos do caminhão. O pedido de liberação só foi feito três semanas depois de o caminhão ter chegado à fronteira.

"Para mim, a Embaixada do Brasil é a responsável por essa situação. Eles sabem que é uma situação de emergência, mas não resolvem. Fizemos tudo o que eles pediram: ficamos três dias pesando, etiquetando, separando, limpando, preenchendo planilhas. Tudo do jeito que pediram. E vêm agora simplesmente dizer que o caminhão está parado na fronteira porque não pode passar pela alfândega. Para mim, é falta de boa vontade, falta de humanidade da Embaixada", aponta Cristina Vieira.

Apelo coletivo

Algumas das responsáveis pela coleta gravaram vídeos de apelo à Diplomacia.

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"Eu estou aqui para expor o meu sentimento de profunda tristeza e desânimo porque continuam a chegar doações e nós não temos mais como pegar essas doações porque não sabemos qual vai ser o destino final dessas doações e, neste momento, todos precisam e nós não podemos fazer nada, estamos de mão atadas", lamenta Cristina Vieira.

"Se a Embaixada tivesse um pouco de respeito por nós e principalmente pelas pessoas que são afetadas por todo esse desastre, eu acredito que seria um problema diplomático fácil de solucionar. Não é tão complicado, sendo que não mandamos nada perecível e nada fora das normas do que eles solicitaram", implora.

A voluntária Sara Schreiber também se sente frustrada: "A gente está se sentindo triste, sinceramente, porque foi muito esforço que a gente teve e é uma causa humanitária pelo nosso país".

E a voluntária Flávia Azevedo desabafa: "Isso gera uma angústia para gente porque toda a nossa ideia era de ajudar o povo do Rio Grande do Sul, que ainda está precisando, mas a gente tem todas essas coisas lá esperando para passarem de um país ao outro e isso gera assim uma tristeza enorme na gente".

"Se esse diplomata tivesse feito o pedido de liberação sem demoras, esse caminhão já teria cruzado a fronteira. Do outro lado, em Uruguaiana, a Defesa Civil brasileira aguarda a carga para a distribuição aos necessitados de ajuda no Rio Grande do Sul", conclui Felipe Laydner.

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