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Leonardo Sakamoto

Sete vezes em que Bolsonaro lamentou, mas nem tanto, as mortes pela covid

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em live semanal no Facebook - Reprodução
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em live semanal no Facebook Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

07/08/2020 09h15

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"A gente lamenta todas as mortes, vamos chegar a 100 mil, mas vamos tocar a vida."

Essa é a forma que o presidente Jair Bolsonaro usou para abordar a chegada do Brasil à marca de 100 mil mortes - o que deve acontecer até este sábado. Oficialmente, claro, porque na prática já ultrapassamos o número devido à subnotificação. Lamenta, mas, ao mesmo tempo, minimiza.

Em sua live semanal, nesta quinta (6), ele ainda defendeu a cloroquina, mesmo reconhecendo não ser um "remédio comprovado cientificamente". Para entender como isso é estranho, troque "cloroquina" por "ozônio no ânus", tratamento também sem eficácia.

Não é a primeira vez que ele faz um "lamento condicionado", sem se preocupar em expressar real pesar às famílias das vítimas, nem tratar do significado das mortes para a nossa sociedade - comportamento que seria esperado de um líder que sente empatia. O que indica que isso faz parte de um método.

"A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", disse ele no dia 2 de junho. Foi assim que respondeu a um convite de um de seus apoiadores para enviar uma mensagem de conforto aos familiares das vítimas do coronavírus, na porta do Palácio da Alvorada.

"Vão morrer alguns [idosos e pessoas mais vulneráveis] pelo vírus? Sim, vão morrer. Se tiver um com deficiência, pegou no contrapé, eu lamento", disse ao apresentador Ratinho, no SBT, no dia 20 de março.

"Infelizmente algumas mortes terão. Paciência, acontece, e vamos tocar o barco. As consequências, depois dessas medidas equivocadas, vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus", afirmou em 27 de março ao jornalista José Luiz Datena, na Bandeirantes.

"Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia", disse no dia 29 de março, após ter provocado uma aglomeração em uma caminhada com apoiadores no Distrito Federal.

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre." Enquanto isso, sua claque ria em frente ao Alvorada, no dia 28 de abril, ao ser questionado sobre o fato de o Brasil ter superado a China em número de mortos.

"O Brasil está quebrando. E depois de quebrar, não é como alguns dizem, 'a economia recupera'. Não recupera. Vamos ser fadados a viver em um país de miseráveis, como tem alguns países da África Subsaariana. Está morrendo gente? Tá. Lamento? Lamento, lamento. Mas vai morrer muito, muito, mas muito mais se a economia continuar sendo destroçada por essas medidas [de isolamento social]", afirmou no dia 14 de maio.

Focado em si mesmo, ele trata a tragédia como se fosse algo quase natural - menosprezo que é fruto de uma narrativa que também buscar terceirizar sua responsabilidade, jogando-a nas costas apenas de prefeitos e governadores que respeitaram a quarentena e, com isso, conseguiram reduzir o número de mortos. Além disso, se óbitos "acontecem", vende a ideia de que nada que o presidente faça pode interferir no curso natural da doença.

Pensa na reeleição, em 2022, e quer uma economia de pé o quanto antes para aumentar suas chances. Mas se esquece que não é quarentenas e bloqueios totais que estão deprimindo o PIB, mas a doença em si, ou seja, o fato de mais de mil brasileiros estarem morrendo todos os dias. O medo em um país com crise sanitária descontrolada afasta as pessoas das ruas, mas também reduz negócios e afasta turistas.

Jair Bolsonaro segue apostando que mais de 100 mil mortos (porque ainda estamos longe do fim dessa tragédia) irão impactar menos no povão do que milhões de desempregados. E, ao invés de agir como um líder que articula a nação para atravessar um momento sombrio, alia-se ao vírus.

Lamentamos todos. Sem mas.