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Lula é 1º ex-presidente levado pela PF no período democrático. O que acontece agora?

Lula chega à sede do PT em São Paulo - Marcos Bizzotto/Raw Image - Marcos Bizzotto/Raw Image
O ex-presidente Lula chega ao diretório do PT no centro de São Paulo, após deixar o aeroporto de Congonhas, onde prestou depoimento à Polícia Federal
Imagem: Marcos Bizzotto/Raw Image

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

04/03/2016 13h55

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro ex-mandatário a ser levado a depor coercitivamente – quando o investigado é obrigado a depor – pela Polícia Federal durante o período democrático, segundo especialistas ouvidos pelo UOL. A investigação faz parte da 24ª fase da Operação Lava Jato, que tem como alvo Lula e seu filho Fábio Luíz Lula da Silva.

Os carros da PF chegaram às 6h desta sexta-feira (4) à casa de Lula, em São Bernardo, e, em seguida, o ex-presidente foi levado para depor no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, deixando o local no começo da tarde. Segundo informações divulgadas pela força-tarefa que apura um grande esquema de corrupção na Petrobras, há evidências de que o ex-presidente e seu instituto receberam R$ 30 milhões, entre 2011 e 2014, de empreiteiras investigadas.

O cientista político e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Cláudio Couto lembra os depoimentos prestados por Juscelino Kubitschek durante a ditadura militar como episódio que mais se assemelha ao desta sexta.

Para Couto, a ação sinaliza mais uma demonstração de força e uma resposta da PF à mudança do ministro da Justiça e às declarações de Lula e do próprio PT sobre a operação do que uma necessidade da investigação, uma vez que Lula já havia declarado que estava disposto a depor.

“Não vejo muita necessidade do ponto de vista do processo investigativo de uma operação desse porte”, afirma. “É mais uma tentativa da PF de mostrar ao governo e ao PT que mesmo mudando o ministro da Justiça não há como limitar a Lava Jato. Isso degrada ainda mais o ambiente político que já vinha degradado."

Ricardo Ismael, cientista político e professor da PUC-RJ (Pontífice Universidade Católica do Rio de Janeiro), também lembra o caso de Kubitschek, e diz que a ação quebra a ideia de que Lula seria inatingível. “O PT vai tentar dizer que o estado de direito está sendo violado, tentar desqualificar a operação Lava Jato, porque acha que o presidente Lula é intocável, não pode ser investigado, mas esse discurso é incompatível. Uma investigação que demonstre que não há nenhuma relação com ele e esses casos o fortaleceria”, afirma.

Para ele, mais grave do que a nova fase da Lava Jato são as declarações da suposta delação do senador Delcídio do Amaral, que envolvem diretamente a presidente Dilma Rousseff. "A pedalada fiscal é difícil de explicar para a população em geral, que nem sabe ao certo o que é o TCU (Tribunal de Contas da União). Quando falam que Dilma esta tentando impedir a operação Lava Jato, isso desconstrói o discurso que ela vinha defendendo e a coloca no foco de uma possível investigação. São questões mais fortes para o público entender." 

Ambos ressaltam que tanto Lula quanto o PT têm um papel fundamental na sustentação política da presidente, seja no Congresso, na questão do impeachment, seja nas ruas, e que o seu envolvimento na Lava Jato prejudica o Planalto. "Lula é o principal símbolo da esquerda e do PT que se vê em uma ação como essa. O governo fica mais fraco e mais isolado e impeachment pode se tornar uma saída", diz Couto.

Cerca de 200 agentes da PF e 30 auditores da Receita Federal cumprem, ao todo, 44 mandados judiciais, sendo 33 mandados de busca e apreensão e 11 de condução coercitiva no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia.

Em nota o Instituto Lula chama de "violência" a e usa a expressão "nada justifica" em cinco situações para criticar a atitude da força-tarefa.

Segundo o procurador Lima, o objetivo da condução coercitiva foi evitar manifestações. "Não havia como não fazer a oitiva do ex-presidente, e, se tivéssemos marcado com antecedência, havia um risco maior de segurança".