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"Mortalidade na UTI foi de 53%": quatro meses em um hospital de campanha

A médica Fátima Buarque atuou na UTI do maior hospital de campanha do Recife - Imagem cedida ao UOL
A médica Fátima Buarque atuou na UTI do maior hospital de campanha do Recife Imagem: Imagem cedida ao UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

03/09/2020 04h04

Em 30 anos dentro de UTIs, a médica intensivista Fátima Buarque encarou em 2020 o maior desafio de sua vida: chefiar a unidade de terapia intensiva do maior hospital de campanha montado no Recife, no bairro dos Coelhos, para tratar pacientes com covid-19.

Em quatro meses, 1.600 pessoas foram tratadas, 700 delas sob cuidados intensivos. "A mortalidade na UTI foi de 53%. Nunca enfrentei algo assim", conta.

No último dia 23 de agosto, ela deu alta ao último paciente da unidade: o policial militar da reserva Ivan Luiz Monteiro, 58, que ficou internado por 12 dias. "Senti alegria. Foi a certeza do dever cumprido, uma satisfação em ver uma pessoa voltando para sua família, para sua rotina, para o seu trabalho. É isso que se espera de uma pessoa que fique doente: que ela saia curada", diz Fátima.

Inaugurado em 22 de abril, o hospital chegou a ter 350 leitos ativos, sendo 100 deles de terapia intensiva. "A UTI sempre teve a ocupação de pouco mais de 80%, que é o correto, tem de ter uma garantia que se chegar alguém, tem espaço", afirma a médica.

Durante os dias em que esteve à frente da unidade, a médica diz que sentiu "incapacidade e limitação como ser humano".

"Nunca me abati. Mas eu, Fátima Buarque, ficava triste porque via as pessoas morrendo, é verdade, mas deprimir, ficar sem reação? Não! A questão é que ver a pessoa morrer, num contexto desse, porque não colocou uma máscara na cara e não se afastou dos outros, revela que a situação da humanidade é difícil", explica.

O hospital de campanha no bairro dos Coelhos, no Recife, tratou 1.600 pessoas durante a pandemia da covid-19 - Divulgação/Prefeitura do Recife - Divulgação/Prefeitura do Recife
O hospital de campanha no bairro dos Coelhos, no Recife, tratou 1.600 pessoas durante a pandemia da covid-19
Imagem: Divulgação/Prefeitura do Recife

Médica contraiu a covid-19

A médica conta que no hospital ouviu relatos de muita gente doente que afirmou ter menosprezado a covid-19. "Igual àquele cantor [Cauan, que faz dupla com Cleber], que depois se arrependeu."

O exercício diário, marcado pelo misto de mortes e altas, foi algo que gerava sensações de angústia, que foram reduzindo ao longo do tempo.

"A gente conheceu melhor a doença, pode ir se antecipando as coisa que vão surgindo, um distúrbio metabólico, um descontrole da pressão, de diabetes; fazer ventilação mecânica não invasiva. Vai arrumando cada um em seu lugar e vai levando".

Fátima Buarque conta precisou se afastar por duas semanas quando contraiu a covid-19. Foi o momento mais tenso. "Fiquei curada em casa, foi leve. Mas o medo da morte foi demais", admite.

"Tão simples usar máscara e lavar as mãos"

Hoje a médica voltou a atuar no Hospital da Restauração, maior emergência de Pernambuco, no Recife. Para quem está na linha de frente (ela ainda cuida dos pacientes com covid-19 no local), o maior desgosto possível é ver pessoas aglomerarem como se a pandemia tivesse acabado.

"Você viu a praia [no Rio] domingo?", comenta. "Fico muito triste porque as pessoas não estão tomando consciência, não têm noção da gravidade. É lamentável. Não basta morrer o vizinho, tem de ser a pessoa", diz.

"O maior desafio agora é a população prestar atenção e fazer coisas tão simples que é usar máscara e lavar as mãos. Quer mais fácil que isso?"