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Anderson Baltar

Como Marcelo Adnet comanda uma invasão carioca nos sambas paulistanos

O humorista Marcelo Adnet - Estevam Avellar/Globo
O humorista Marcelo Adnet Imagem: Estevam Avellar/Globo
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

30/09/2020 12h17

Um dos mais populares humoristas do país, Marcelo Adnet descobriu, nos últimos anos, ter mais um talento: o de compor sambas-enredo. Ele, que sempre flertava com o gênero desde o início de sua carreira com paródias em espetáculos e programas de televisão, em 2019 encarou o desafio de concorrer com uma obra em sua escola de coração, a São Clemente. O compositor estreante venceu a disputa com todos os méritos e, de quebra, proporcionou um dos momentos mais comentados do desfile da escola de Botafogo ao imitar o presidente Jair Bolsonaro em um dos carros alegóricos.

Para 2021, Adnet prepara voos mais altos. Em parceria com Ricardo Hessez, virou carnavalesco da Botafogo Samba Clube, escola do terceiro grupo carioca, formada por torcedores do seu clube de coração - e onde ele também tinha vencido a disputa de samba para o último Carnaval. E, em uma impressionante trajetória, pegou a ponte aérea e tornou-se um frequentador assíduo das disputas de samba paulistanas. Na última segunda-feira, conseguiu sua quarta vitória, na Leandro de Itaquera, do Grupo de Acesso - antes havia vencido na Gaviões da Fiel, Rosas de Ouro e Dragões da Real.

O fato, em si, merece destaque.

Mais ainda quando se trata de um artista que não pertence aos quadros tradicionais das escolas de samba e que viveu, nestes tempos de pandemia, uma rotina intensa de trabalho com seus vídeos veiculados diariamente no Globo Play. Vindo de uma família em que a música era uma constante desde a mais tenra idade e extremamente inteligente, Adnet é talentoso e soube adaptá-lo para um estilo musical tão cheio de peculiaridades e marcado para o grande público por seus clichês.

Porém, há uma outra particularidade neste processo, do qual Adnet é ponta de lança.

Ele, na verdade, é o comandante de uma verdadeira invasão carioca nas disputas de samba paulistanas. Até agora, 11 das 14 escolas do Grupo Especial de São Paulo já escolheram os seus hinos. E, em todas elas, há pelo menos um compositor do Rio de Janeiro envolvido.

O sambista Dudu Nobre - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Compositor vitorioso na Mocidade Independente e cantor da Unidos de Padre Miguel, Diego Nicolau já emplacou vitórias na Tucuruvi, Vila Maria e Rosas de Ouro. Márcio André Filho, da União da Ilha, venceu na Mocidade Alegre e na Mancha Verde e ainda tem um samba na final da Tom Maior. O sambista Dudu Nobre e o intérprete da Viradouro, Zé Paulo Sierra, estão com Nicolau no samba da Unidos de Vila Maria. Vencedor em várias escolas cariocas, Cláudio Russo está nos sambas da Tatuapé e Águia de Ouro com o veterano intérprete Dominguinhos do Estácio - no samba da escola da Pompéia, também estão os mangueirenses Lequinho e Junior Fionda. Russo ainda está com André Diniz, da Vila Isabel, no samba encomendado pela X9 Paulistana. E Thiago Meiners assina as obras da Barroca Zona Sul e Colorado do Brás.

Ter compositores cariocas em suas disputas não é certamente uma novidade no carnaval paulistano. Porém, a pandemia e a consequente paralisação das atividades das escolas no Rio de Janeiro acelerou esse processo. Enquanto em São Paulo há, desde julho, um indicativo de que os desfiles acontecerão em meados de 2021, no Rio, até a semana passada o mundo do samba vivia em uma grande indefinição e até com o receio de que os desfiles não aconteceriam. Na última quinta-feira, a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) anunciou o cancelamento dos desfiles na data oficial e o indicativo de que os mesmos poderão ser fora de época.

No Rio de Janeiro, até agora, apenas duas escolas do Grupo de Acesso (Unidos de Padre Miguel e Império da Tijuca) fizeram suas disputas de samba - sempre por lives. E o Salgueiro, que iria iniciar a disputa no início de setembro, adiou a mesma por conta de casos de Coronavírus em meio aos seus compositores.

Enquanto isso, São Paulo largou na frente e adotou fórmulas diferentes para a disputa - seja por lives ou drive-in. Na semana passada, a Rosas de Ouro abriu sua quadra, em esquema de restaurante, para a final de samba - exibida por um telão. Ávidos por produzir, os cariocas migraram para a Terra da Garoa e se articularam com compositores paulistanos. E dois fatores foram determinantes: as facilidades tecnológicas e o baixo custo das disputas.

Em tempos de videoconferências e aplicativos de conversas, fazer um samba-enredo tornou-se uma atividade que pode ser feita em grupo, como sempre foi, mas com cada um em sua casa. Isso acentuou ainda mais o processo de integração de bambas dos dois lados da via Dutra. E, com disputas sem público e os tradicionais gastos com torcidas, adereços, cerveja e transporte, os custos de disputa diminuíram sensivelmente. Sentados em seus sofás em suas casas, os compositores cariocas podem acompanhar os desempenhos de seus sambas com toda tranquilidade, sem precisar arcar com despesas de viagem e hospedagem.

Com esse cenário, também não é inimaginável pensar no caminho inverso. Com o indicativo de desfile em 2021, aos poucos, as escolas cariocas irão abrir as suas disputas. E, certamente, muitos paulistanos se aventurarão no Rio de Janeiro. Que tenhamos boas safras de sambas para cantarmos assim que a vacina sair e pudermos, mais uma vez, festejar no Anhembi e na Sapucaí.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL