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A Cara da Democracia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma direita autoritária, conservadora e conspiratória

07/06/2020 - Integrantes de um grupo bolsonarista se concentram na calçada da Avenida Paulista, na região central da cidade de São Paulo. - ANANDA MIGLIANO/ESTADÃO CONTEÚDO
07/06/2020 - Integrantes de um grupo bolsonarista se concentram na calçada da Avenida Paulista, na região central da cidade de São Paulo. Imagem: ANANDA MIGLIANO/ESTADÃO CONTEÚDO
A Cara da Democracia

A Cara da Democracia é um espaço de análise que apresenta contribuições de estudiosas e estudiosos do campo da ciência política sobre a democracia no Brasil. Partimos da defesa da democracia e da formulação de opiniões a partir de dados e informações cientificamente embasadas em pesquisas de opinião pública, entrevistas com atores e estudos comparados com outras experiências democráticas. Diante da ascensão do bolsonarismo e da percepção de que a nossa democracia está em crise, apresentamos para o debate público análises sobre a relação entre estes dois fenômenos. Aqui, você encontrará semanalmente discussões sobre temas relevantes para a política e democracia no país, em artigos de leitura dinâmica e compreensível. Convidamos leitoras e leitores a se juntarem às discussões mais promissoras da ciência política e pensar junto com a gente: qual é a cara da nossa democracia?

Colunista do UOL

14/05/2021 04h00

Carlos Ranulfo Melo*

Uma nova rodada de pesquisa do projeto “A cara da Democracia”, realizada entre 20 e 27 de abril, aponta para um crescimento dos brasileiros que se posicionam à direita no espectro ideológico. Levando-se em conta o primeiro levantamento feito pelo projeto, em 2018, o percentual dos que se posicionaram entre 7 e 10, em uma escala onde 10 significa “direita”, saltou de 21,8 para 35,7. Os dados podem ser vistos no gráfico 1.

1 - Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC) - Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)
Auto posicionamento ideológico
Imagem: Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)

Ainda mais notável que o crescimento dos que se declaram de direita, foi a diminuição do contingente daqueles que não se posicionam na escala (NS/NR) – de 38,7% para 15,3%. Para esse recuo contribuíram também, ainda que em menor grau, o aumento dos que se consideram de esquerda (de 16,6% para 21,3%) e dos que se situam ao centro (22,9% para 27,7%).

Essa inédita demarcação de campos políticos no país foi um dos resultados da eleição de 2018. Bolsonaro fez sua parte: pela primeira vez, desde a redemocratização, um candidato competitivo desenvolveu uma campanha com forte conteúdo ideológico ao assumir um perfil claramente à direita e identificar tal posição a causas conservadoras e retrógradas.

Cabe perguntar até se esse crescimento à direita representa um movimento mais consistente e programático de parcela da população ou se reflete principalmente uma identificação com o capitão. A diferença importa, uma vez que posicionamentos ideológicos baseados na identidade mais facilmente conduzem a níveis elevados de polarização afetiva e alimentam atitudes de ódio contra grupos “inimigos”.

A identificação com Bolsonaro é indiscutível. A pesquisa mostra que elementos de uma teoria conspiratória patrocinada pelo Presidente da República encontram campo fértil para proliferar entre os brasileiros que se posicionam à direita: 62,6% destes cidadãos acreditam que “os hospitais são pagos para declarar que há mais mortos por covid-19 do que a realidade”; 61,7% concordam que “há uma conspiração da esquerda para tomar o poder” e 60,7% concordam com a afirmação de que “o Coronavírus foi criado pelo governo chinês”. Da mesma forma, 45,9% destes brasileiros avaliam o governo Bolsonaro como ótimo ou bom, percentual que corresponde ao dobro do encontrado quando são considerados todos os entrevistados pela pesquisa.

Por outro lado, os dados não permitem afirmar que o crescimento à direita seja a expressão de algo mais consistente e programático de parcela da população. É certo que a pesquisa mostra um acentuado crescimento dos que expressam uma opinião programaticamente de direita e dizem preferir uma economia com maior liberdade para a ação do mercado, em detrimento de um papel mais incisivo do estado – de 25,7% em 2018 para 47,8% em 2021.

Mas no mesmo período não se registrou um aumento no percentual dos que optaram por posições mais conservadoras em temas que fazem parte do debate público no país. Pelo contrário. No que se refere à redução da maioridade penal, ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por casais homoafetivos, à legalização do aborto ou à possibilidade de prisão de mulheres que o pratiquem, as posições mais progressistas ganharam algum espaço – um crescimento que vai de seis a quinze pontos percentuais a depender da questão. Quando o assunto é a pena de morte, a descriminalização do uso de drogas ou a adoção de cotas raciais, os percentuais mantiveram-se constantes. Apenas quando perguntados sobre a proibição da venda de armas de fogo, os brasileiros mostraram-se mais conservadores em 2021.

Independentemente da questão colocada acima, as opiniões daqueles que se posicionaram à direita são consistentemente distintas daquelas expressas pelos que se colocaram à esquerda ou mesmo no centro do espectro ideológico. É o que se pode verificar no gráfico 2, para o qual foram selecionadas algumas das questões abordadas na pesquisa.

2 - Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC) - Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)
Apoio por auto posicionamento ideológico
Imagem: Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)

Como se pode perceber é à direita que a democracia é mais facilmente descartada. O gráfico mostra como reagiram os entrevistados quando colocados diante da possibilidade de um golpe de estado como resposta a um cenário de “muita corrupção” ou “muito crime”.

Brasileiros que se posicionam à direita são mais favoráveis à privatização dos serviços públicos no país. E se opõem de forma mais contundente que os de centro ou esquerda à adoção de cotas raciais ou ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo – o mesmo acontece com a redução da maioridade penal, a adoção de crianças por casais homoafetivos, a legalização do aborto, a prisão de mulheres que o pratiquem, a pena de morte, a descriminalização do uso de drogas e a proibição da venda de armas de fogo (não mostrados no gráfico).

Por fim, e mesmo diante da tragédia que assistimos a cada dia, 47,7% dos que situaram à direita discordam que Bolsonaro tenha dado pouca importância à pandemia, percentual muito superior ao encontrado ao centro (17,7%) ou à esquerda (13,9%).

Ainda que não seja possível traçar um quadro completo do crescimento da direita no país, os dados aqui apresentados mostram que boa parcela dos que se posicionam neste lado do espectro defende ideias semelhantes à de Bolsonaro: são mais autoritários, conservadores e propensos a aderir a teorias conspiratórias do que a média dos brasileiros.

Nota metodológica: A edição de 2021 da pesquisa nacional "A Cara da Democracia" foi realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. Foram entrevistados 2031 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 e 27 de abril. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais considerando um intervalo de confiança de 95%. A amostra representa a população eleitoral brasileira de 16 anos ou mais distribuída proporcionalmente à população eleitoral existente em cada uma das cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Os municípios foram selecionados probabilisticamente através do método PPT (probabilidade proporcional ao tamanho) tomando como base o número de eleitores de cada município. A amostra obedeceu ainda cotas de sexo, idade, escolaridade e renda familiar dentro de cada setor censitário. Esta edição da pesquisa foi realizada presencialmente, seguindo os protocolos de segurança conforme orientação dos órgãos competentes, tais como uso de máscaras e álcool em gel e distanciamento seguro.

*Carlos Ranulfo Melo é graduado em Geologia (1981), mestre em Ciência Política (1994) doutor em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (1981), e pós-doutor na Universidade de Salamanca (2006/2007). É professor titular do Departamento de Ciência Política e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL