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Amaury Ribeiro Jr

Queimada em refúgio das onças em MT teve origem em fazenda clandestina

Amaury Ribeiro Jr

Natural de Londrina (PR), Amaury Ribeiro Jr é jornalista, escritor e compositor. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou como repórter especial dos jornais O Globo, JB, Correio Brazilense. Trabalhou também como editor da revista IstoÉ e produtor executivo da Rede Record. Em trinta anos, ganhou os principais prêmios de jornalismo: Esso (três), Embratel (dois), Líbero Badaró (dois), Vladimir Herzog (quatro), Rei da Espanha entre outros. É autor dos livros "Privataria Tucana", "O Lado Sujo do Futebol" (junto om Luiz Carlos Azenha e Leandro Cipoloni) e "Poderosos Pedófilos".

30/09/2020 04h01Atualizada em 30/09/2020 18h54

Uma apuração da reportagem do UOL com base em estudo elaborado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) com imagens fornecidas pela Agência Espacial Europeia (ESA) apontou que um dos focos de incêndio em Mato Grosso, que destruiu 90% do Parque Encontro das Águas, o principal refúgio de onças do Pantanal e do mundo, teve origem em uma fazenda clandestina, ou seja, que não aparece nas bases de dados oficiais.

A propriedade faz divisa ao sul com o território dos bororo da Terra Indígena Perigara, no município de Barão de Melgaço (MT). Segundo apuração da coluna, a propriedade não tem registro em cartórios e nos órgãos governamentais.

Essa prática pode indicar que a fazenda está ocupada por grileiros de terras e revela a dificuldade dos órgãos públicos de encontrar eventuais responsáveis por incêndios criminosos no Pantanal.

O mesmo incêndio atingiu quase a totalidade dos 19 mil hectares da Terra Indígena Baía dos Guató, localizada no mesmo município.

O levantamento mostra ainda que o outro foco do incêndio que atingiu o Parque Estadual Encontro das Águas também teve origem em propriedades rurais, as fazendas São Benedito e Comitiva, perto da rodovia Transpantaneira, no município de Poconé (MT). As duas propriedades fornecem carnes para grandes frigoríficos do país.

A exemplo do que ocorre no vizinho Mato Grosso do Sul, a participação de fazendeiros nas queimadas do Pantanal está sob investigação do Ministério Público e da Polícia Federal. Em Mato Grosso, a PF requisitou as imagens de satélite ao ICV.

Foto de Amanaci, onça-pintada que teve as quatro patas queimadas em incêndio no Pantanal - Divulgação / Twitter - Divulgação / Twitter
Amanaci, onça-pintada que teve as quatro patas queimadas em incêndio no Pantanal
Imagem: Divulgação / Twitter
Incêndios foram na direção de santuário das onças-pintadas

O estudo do instituto detalha todo o caminho seguido pelo fogo. Embora tenham partido de pontos diferentes, os dois focos de incêndios seguiram um trajeto parecido. Depois de invadir outras propriedades rurais, chegaram ao Parque Encontro das Águas. De lá, o fogo seguiu até a aldeia Baía dos Guató.

As lideranças indígenas já contabilizam os prejuízos: todos os 2.000 hectares usados para agricultura viraram cinzas pela ação do fogo, que matou peixes, onças pintadas e outros animais e provocou a expulsão dos búfalos selvagens. Esses animais, que há cerca de três décadas se tornaram livres depois de arrombar as cercas onde eram criados nas propriedades rurais, lutam para chegar em áreas não atingidas pelo fogo.

"Essas imagens não nos surpreenderam. Antes de a área ser demarcada, os fazendeiros clandestinos tentavam invadir nossas terras motivados pela ganância de destruir a mata para criar novas áreas de pastagens", disse ao UOL a líder indígena Alessandra Guató.

Segundo ela, as imagens de animais mortos têm chocado toda a comunidade indígena. "Um dia deparei com um onça-pintada morta, que havia fugido do Parque das Águas e comecei a chorar." Ela contou que não teve coragem de fotografar o animal, que lutava para não morrer.

Alessandra disse que a ação predatória sobre o Pantanal, ao longo das últimas décadas, é responsável pela diminuição do seu povo, que, segundo ela, já teve mais 1.000 famílias espalhadas por todo o bioma. Hoje, os Guató, que vivem da agricultura e da pesca, contam com cerca de 160 famílias distribuídos em duas terras indígenas: a Baía dos Guató, em Mato Grosso, e a da região da Serra do Amolar, no norte de Mato Grosso do Sul.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.