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Sem partido e sem rumo, capitão criou uma seita de fanáticos milicianos

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/04/2020 14h35

A estética é meio assustadora, parece que o país está indo à guerra e convocando os reservistas.

Desde a noite de quinta-feira, circula ferozmente nas redes sociais um cartaz ilustrado com Bolsonaro envergando a faixa presidencial em que se lê:

"Santa convocação do nosso presidente Jair Messias Bolsonaro para um JEJUM NACIONAL. 05 DE ABRIL/PRÓXIMO DOMINGO. "A todos os líderes evangélicos e seus respetivos ministérios, convocamos a todos para esse Jejum Nacional em prol da nossa nação". Segue um versículo bíblico.

Sem partido, sem base parlamentar, sem comando sobre seus ministros, completamente perdido em meio à pandemia de coronavírus, capitão Bolsonaro apega-se cada vez mais à sua base de crentes fanáticos, cevados pela milícia digital nas redes sociais.

Alguns deles se postam todos os dias à entrada do Palácio da Alvorada para louvar seu líder e hostilizar os jornalistas, eleitos como os grandes vilões, ao lado do governador paulista João Doria, que Bolsonaro acusa de "fazer terrorismo". Agem e comportam-se como milicianos.

Nesta sexta-feira, não foi diferente. Assim que o comboio presidencial estacionou junto ao cercadinho que separa os dois grupos, sem falar com a imprensa, ao descer do carro o capitão foi direto falar com os devotos da seita bolsonarista e começou a fazer o habitual discurso contra os governadores, a quem acusou de promover desemprego em massa, miséria, fome e violência.

"Chega para cá, pessoal, fica longe da imprensa". Chamou os jornalistas de "urubus" e, apontando para eles, proclamou: "Eu não cheguei aqui pelo milagre da facada, né? Não ganhei a eleição para perder para esses urubus aí".

Depois de comparar a pandemia do coronavírus a uma chuva, que vem e que passa, apenas molhando alguns pelo caminho, ouviu sermões e aclamações, como se estivesse num culto neopentecostal, com louvações a Deus e ao capitão, nessa ordem.

A convocação para o "Jejum Nacional" de domingo faz parte desta escalada mística de Bolsonaro nos últimos dias, feito um Antonio Conselheiro redivivo, com um olho nos templos da seita e outro nos quartéis.

Antes de partir, ele contou outra mentira: "A opinião pública está vindo para o nosso lado", assegurou aos fiéis, na mesma hora em que a XP Investimentos divulgava nova pesquisa, na qual 80% da população aprova o isolamento social defendido pelo Ministério da Saúde, que Bolsonaro tanto combate.

A rejeição ao seu governo subiu para 42% (era de 36% em março) e a aprovação caiu dois pontos, para 28%.

Despencando nas pesquisas e em confronto aberto com todo o mundo civilizado, motivo de chacota na imprensa internacional, 15 meses após a posse Bolsonaro está vendo de perto o fundo do poço em que se meteu.

Só isso explica como ele pode propor jejum a um povo em que o desemprego, a miséria e o desalento não param de crescer, num país onde a fome já faz parte do dia a dia de cada vez mais brasileiros.

"Tirando os pastores, 80% do rebanho está em jejum permanente", comentou o internauta Alan Barreto Silva no meu Facebook.

Com seus discursos alucinados, ele está fazendo com que já aumente o movimento de gente e de carros nas ruas, exatamente no momento em que se aproxima o pico da pandemia previsto para esse mês.

Em tempo: já foi identificada a professora que pediu ao presidente para colocar o Exército nas ruas e reabrir o comércio, em vídeo divulgado por Bolsonaro.

Trata-se de Fátima Montenegro, empresária de Brasília, militante bolsonarista de raiz, que publicou um vídeo nas redes sociais comemorando a vitória na eleição, com o título:

"O dia em que o Brasil voltou a respirar".

Estamos vendo...

Assim como no caso do "desabastecimento" do Ceasa de Belo Horizonte, divulgado em outro vídeo presidencial esta semana, e logo desmascarado, trata-se de ficções produzidas pelo "gabinete do ódio" que assumiu o poder de fato.

Posso estar enganado, mas não tem como isso aí, como diz o presidente, perdurar por muito tempo, talkei?.

Não vai ser o jejum que devolverá comida no prato, os empregos e os salários perdidos.

Que falta faz ter um presidente da República, digno do cargo, para comandar o país nesta hora de tantas dificuldades para todos.

A grande farsa está chegando ao fim, espero.

Bom fim de semana.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho