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World News Day: como seria um dia sem a imprensa no Brasil

UOL participa do projeto mundial World News Day, junto com cerca de 100 veículos de comunicação, nesta segunda-feira (28) - Divulgação/WND
UOL participa do projeto mundial World News Day, junto com cerca de 100 veículos de comunicação, nesta segunda-feira (28) Imagem: Divulgação/WND
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/09/2020 12h50

Resumo da notícia

  • UOL participa do projeto World News Day, com cerca de 100 veículos de comunicação pelo mundo
  • Na próxima segunda-feira, materiais jornalísticos de diversos países serão publicados pelo UOL
  • Reportagem sobre dossiê antifascista, do colunista Rubens Valente, do UOL, circula mundialmente
  • Ricardo Kotscho, também colunista do UOL, escreve a seguir sobre mote do projeto: "notícias importam"

Como de hábito, João das Neves é um cidadão brasileiro que vai dormir sem saber das notícias da noite porque precisa acordar cedo para ir ao trabalho.

Ao abrir a porta, não encontra seu jornal de todos os dias.

"Seu João, hoje não entregaram nenhum jornal aqui", informa-lhe o porteiro do prédio.

Entra na internet e não consegue abrir nenhum dos portais de notícias. Estão todos fora do ar.

Liga a televisão e, em lugar dos telejornais da manhã, são exibidos desenhos animados.

Quando chega ao escritório, sem saber de nada, nem o resultado do futebol, já encontra a maior balbúrdia armada em torno da mesa do chefe, com todos falando ao mesmo tempo, sem entender o que está acontecendo.

Sem maiores explicações nem aviso prévio, o governo havia decretado um dia sem notícias.

Estão chovendo fake news

Discretamente, João das Neves abre o celular e vai conferir as mensagens no WhatsApp, no Twitter e no Facebook.

Aí é que complicou tudo. Mil boatos, versões, conspirações, uma chuva de fake news sobre a repentina falta de notícias.

Para complicar ainda mais a sua vida, até as agências de checagem ficaram fora do ar.

Num mundo em que todos viraram emissores e receptores de informações e opiniões, cada um fazia e contava a sua própria verdade, sem a filtragem e a mediação dos profissionais do ramo, os odiados jornalistas.

Acreditar em quem? João das Neves sentia-se cada vez mais perdido porque até as cotações do dólar e da Bolsa variavam de acordo com os interesses e as vontades de cada um.

Deu saudade até daquele blogueiro

Não dava para confiar mais nem na previsão do tempo.

Ficar um dia sem carro ou sem poder fumar ele até aceitava numa boa, mas de repente percebeu que não poderia viver um dia sem notícias verdadeiras, o mais próximo possível da verdade, apuradas e editadas por profissionais, obrigados a obedecer ao código de ética de suas empresas e das entidades de classe.

Jornalistas têm um nome a zelar e são responsáveis pelo que escrevem, com nome e sobrenome, podendo responder criminalmente se faltarem com a verdade.

No cipoal de anônimos de big datas, big techs, algoritmos e inteligência artificial dos conglomerados digitais da internet, o nosso personagem também começou a imaginar coisas e a duvidar das suas mais arraigadas certezas.

Sentiu falta até dos colunistas e blogueiros que costumava esculhambar na área de comentários. Ficou sem referências, perdido no espaço, torcendo para esse dia acabar logo.

Melhor deixar o celular no bolso

Mas, e se as notícias não voltassem à meia noite, como estava previsto no comunicado oficial do governo?, pensou. Vai que eles gostaram da experiência e resolvem implantá-la até o final do mandato.

E resolveu fechar e colocar o celular no bolso para não enlouquecer de vez com a falta de notícias e a proliferação de mentiras, simples mentiras, agora chamadas de fake news, das mais variadas latitudes.

Seus colegas de repartição continuavam discutindo em altos brados, ninguém conseguia trabalhar sem saber o que se passava no mundo lá fora.

Já no desespero, chegou a ligar para pedir ajuda a um repórter amigo, mas o celular estava desligado.

Notícia importa porque você importa

Com os jornalistas fora de combate, os robôs estavam a mil por hora, brigando entre eles para ver quem publicava a mentira mais escandalosa.
Sem notícias, os apoiadores do governo se sentiram aliviados e, os demais cidadãos, perdidos no espaço.

João das Neves temia pelo pior: só falta agora os outros países gostarem da ideia e também adotarem um dia sem notícias.

Jamais ele poderia imaginar que esse dia chegasse, que a ditadura globalizada das redes assumisse o controle de tudo, de todas as informações e opiniões.

Sabe agora por que as notícias importam, João das Neves?

Porque você importa.

E porque nos preocupamos uns com os outros. A gente se importa com a nossa liberdade. Por isso as notícias importam.

A gente não se soma aos que nos cobram obediência. Por isso as notícias importam.

Para garantir a você a informação mais confiável, a redação do portal UOL, onde eu trabalho, em São Paulo, conta com cerca de 350 jornalistas, mais 200 colunistas, mais centenas de colaboradores fixos e eventuais.

Um mundo sem news jamais será um mundo sem amos.

Vida que segue.

Em tempo: a história do personagem João das Neves é ficção, escrita a proposito do World News Day, do qual o UOL participa, mas no futuro ela poderá se tornar real com a ditadura globalizada das redes de fake news..

"Mentiras não deixam de ser mentiras quando alguém acredita nelas" (Sergio Rodrigues)

    ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.