PUBLICIDADE
Topo

A pandemia de Covid-19 segundo Bolsonaro: da "gripezinha" ao "e daí?"

Máscara cobre os olhos de Bolsonaro em coletiva sobre coronavírus - Reprodução
Máscara cobre os olhos de Bolsonaro em coletiva sobre coronavírus Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

30/04/2020 01h29

Jair Messias Bolsonaro passou da fase da negação à fase da raiva. Se antes a doença não existia ou podia ser comparada a um resfriado qualquer, agora ela existe e, segundo a cosmogonia do presidente com histórico de atleta, está ferrando com seu governo e - que saco! - não há o que se possa fazer. Nem botar a culpa no PT ele pode, o que deve deixá-lo transtornado.

A próxima fase é a da barganha. Se mantiver o mesmo ritmo, por volta de agosto ele começará a assimilar a gravidade da pandemia. Os mais otimistas garantem que, até o Natal, Bolsonaro estará apto a tratar do assunto com a gravidade e a responsabilidade que se esperariam de um presidente da República. Este é um país que vai pra frente.

Uma breve retrospectiva de tudo que Bolsonaro já disse sobre a Covid-19, desde a confirmação do primeiro brasileiro infectado com o novo Coronavírus (em 26 de fevereiro), revela um jeito um tanto prosaico de demonstrar solidariedade e liderar o país. Em "quebra-queixos", lives e pronunciamentos à nação, o ex-capitão parece afinado com a evolução da doença: quanto mais íngreme a curva de contágio, mais o presidente se esmera em proferir bobagens e agressões.

Na semana em que completamos dois meses de convívio com a doença e quarenta dias de distanciamento social, no mesmo dia em que o número de mortes no país ultrapassou a marca dos 5 mil e superou o total de óbitos registrados na China, Bolsonaro posou para fotos num stand de tiro - por certo foi treinar para meter bala no vírus - e reagiu à notícia com o sarcasmo habitual. "E daí?", respondeu, "Quer que eu faça o quê?"

Bom, a lista de opções é extensa. Bolsonaro poderia orientar a população a prorrogar o período de confinamento em vez de bater boca com governadores e prefeitos. Poderia dar o exemplo e deixar de sair à toa - sobretudo parar de abraçar, se aglomerar e tirar fotos com apoiadores. Poderia orientar o Banco Central a imprimir dinheiro, aumentar a capacidade de endividamento do Estado e zelar para que a renda básica emergencial chegue a quem mais precisa com rapidez. Poderia liderar a revogação imediata da emenda de 2016 que instituiu o teto de gastos por vinte anos.

Poderia se esforçar para colocar em prática uma política de relações internacionais fundamentada no respeito e na cooperação, e não na discriminação e na xenofobia. Poderia, enfim, concentrar esforços na aprovação urgente de uma reforma tributária que reduza a tributação sobre o consumo, aumente a tributação progressiva sobre renda e patrimônio, crie novas alíquotas do leão que incidam sobre os muito ricos e, finalmente, institua o imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição Federal de 1988.

Principalmente, poderia parar de ser desrespeitoso e leviano com uma população que tem motivos em abundância para estar preocupada e atenta a todos os cuidados.

Confira o histórico recente de comentários e declarações presidenciais:

27 de fevereiro: "O mundo todo está sofrendo"

6 de março: "Não há motivo para pânico"

9 de março: "Está superdimensionado o poder destruidor deste vírus"

10 de março: "Temos, no momento, uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala"

11 de março: "Outras gripes mataram mais do que essa"

16 de março: "Se eu me contaminei, ninguém tem nada a ver com isso"

17 de março: "Esse vírus trouxe uma certa histeria e alguns governadores, no meu entender, estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia"

20 de março: "Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar"

22 de março: "Brevemente, o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus"

23 de março: "A dose do remédio não pode ser excessiva de modo que o efeito colateral seja mais danoso que o próprio vírus"

24 de março: "Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria. Ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho. (...) Algumas poucas autoridades, estaduais e municipais, devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa"

25 de março: "O que estão fazendo com o Brasil, alguns poucos governadores e alguns poucos prefeitos, é um crime. Eles estão arrebentando com o Brasil. (...) Outros vírus mataram bem mais do que este e não teve essa comoção toda"

27 de março: "O maior remédio para qualquer doença é o trabalho. (...) Não podemos agir dessa maneira irresponsável. (...) Vão quebrar o Brasil por conta do vírus?"

29 de março: "O vírus está aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia."

2 de abril: "Tá com medinho de pegar vírus? Brincadeira. E o vírus é uma coisa que 60% vão ter, ou 70%. (...) Eu desconheço qualquer hospital que esteja lotado"

12 de abril: "Parece que está começando a ir embora essa questão do vírus, mas está chegando e batendo forte a questão do desemprego"

20 de abril: "Aproximadamente 70% da população vai ser infectada. Não adianta querer correr disso. É uma verdade. (...) Houve uma potencialização das consequências do vírus. (...) Levaram o pavor para o público, histeria"

28 de abril: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre"

29 de abril: "Não adianta a imprensa querer botar na minha conta estas questões que não cabem a mim"

Camilo Vannuchi