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Camilo Vannuchi

Que ameaça comunista é esta de que o Governo tanto fala?

Dilma Rousseff recebe todos os quatro ex-presidentes vivos para a cerimônia de lançamento da Comissão Nacional da Verdade  - Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Rousseff recebe todos os quatro ex-presidentes vivos para a cerimônia de lançamento da Comissão Nacional da Verdade Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

28/05/2020 13h11

Esta foto completou oito anos na semana passada. Não se tem notícia de registro anterior a este em que se viam, num mesmo frame, todos os cinco presidentes da República ainda vivos. A foto foi feita em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, por Roberto Stuckert Filho, fotógrafo oficial do governo Dilma Rousseff. O quinteto voltaria a se encontrar um ano e meio depois, em viagem oficial à África do Sul por ocasião do sepultamento de Nelson Mandela.

Esta foto é de 2012. Entre Dilma, à esquerda, e Fernando Henrique Cardoso, à direita, confraternizam Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Collor de Mello e José Sarney. Juntos, ou melhor, sucessivamente, os cinco governaram o Brasil por 29 anos entre 1985 e 2016. Somente entre 1993 e 1994, o presidente foi Itamar Franco, falecido em 2011. Cada um dos cinco imprimiu uma trajetória diferente ao cargo. Um virou presidente na condição de vice. O titular, escolhido pelo colégio eleitoral e já diplomado, adoeceu antes da posse e faleceu pouco depois. Dois foram afastados do cargo, um após dois anos de governo e outra após cinco anos e quatro meses: um irmão, um Fiat Elba, um motorista, uma crise institucional e pedaladas fiscais contribuíram nesses processos. Os outros dois governaram por oito anos cada, mantendo-se até hoje no topo do ranking dos ex-presidentes mais bem avaliados pelos brasileiros.

Esta foto se reveste de uma simbologia histórica bastante oportuna. A imagem foi capturada no dia da instalação da Comissão Nacional da Verdade, em 16 de maio de 2012. FHC e Lula viajaram de São Paulo a Brasília para se juntar à chefe de Estado e aos outros dois veteranos, ora senadores da República, num dia de compromisso com a democracia e a Justiça de Transição. Estavam ali para apoiar publicamente os trabalhos de investigação, análise, sistematização e registro das violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura militar (1964-1985). Diante do imperativo categórico do resgate da memória dos anos de exceção, o que menos importava, naquele momento, era se o maranhense e o alagoano tinham começado suas carreiras políticas na Arena, o partido dos militares, ou se a mineira tinha feito parte de uma organização guerrilheira. Todos reconheciam a importância daquela comissão como etapa indispensável no processo de transição para a democracia.

Enquanto isso, um deputado federal do Rio de Janeiro usava a tribuna para protestar contra a instalação da comissão. Já em 2010, discutindo a implantação da Comissão da Verdade em audiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, disse: "Eu queria torturar muitos dessa comissão. O instrumento de tortura que eu quero usar é a verdade". Em seguida, acusou a comissão de ser "totalmente parcial" e de buscar "a calúnia, a mentira". Anos antes, em 2005, protestara contra a instalação de um grupo dedicado a fazer buscas de ossadas na região da guerrilha do Araguaia, aniquilada pelo Exército em 1974, fixando na porta de seu gabinete um irônico adesivo com o simpático desenho de um filhote e o texto: "Quem procura osso é cachorro".

É esse mesmo deputado que, alçado ao posto máximo do Executivo federal, afirmou em entrevista que não houve ditadura no Brasil, conclamou os quartéis a festejar o aniversário do golpe de 1964 e, mais recentemente, recebeu o torturador Curió para uma animada conversa no Palácio do Planalto. Seus correligionários e parentes ameaçam de forma recorrente as instituições democráticas, seja por meio de um cabo e um soldado instruídos a fechar o STF, seja por meio de um novo AI-5, o ato institucional que fechou o Congresso, instalou a censura e deu plenos poderes ao general-presidente.

Principalmente, Bolsonaro repete aos quatro ventos a teoria de que há, no Brasil, o plano de implantar o comunismo. E que esse plano precisa ser desmantelado. Por certo, uma tarefa para o messias, para o alecrim dourado que, em 1987, ameaçou colocar bombas de pequeno alcance para pressionar o comando do Exército". Por certo, o comando do Exército era comunista naquela época e, por isso, cabia ao capitão enfrentá-lo.

Bolsonaro vive na Guerra Fria. Divide o mundo em comunistas e capitalistas, traidores e patriotas, pessoas de bem e terroristas. É uma espécie de obsessão, uma ideia fixa. A ele, não basta a hegemonia nas urnas, a vitória no processo democrático. Ele quer "fuzilar a petralhada", mandar a esquerda para a "ponta da praia", convencido de que "o erro da ditadura foi torturar e não matar". E quem é de esquerda que tome tubaína.

Na última semana, os jornais Folha de S.Paulo e O Globo anunciaram a interrupção da cobertura presencial diária no Palácio da Alvorada após suas equipes de reportagem serem hostilizadas pela claque. Com os dedos do meio em riste, ofensores repetiam a mesma ladainha. "Imprensa podre! Comunistas!", berrou uma mulher. "Mídia comunista, comprada! Cambada de safados!", gritou um homem.

A lista de comunistas elaborada pelas mentes criativas das hostes bolsonaristas cresce a cada dia. Na cosmogonia presidencial, além da Folha e do Grupo Globo, compõem o rol o youtuber Felipe Neto, o médico Drauzio Varella, a ONU, a OMS, o Papa Franciso e até a Brastemp. Sim, a Brastemp! Após anunciar que mandaria retirar um anúncio da empresa publicado no site Jornal da Cidade Online, propagador de fake news, a empresa virou alvo. Apoiadores do presidente subiram no Twitter a hashtag #BrastempApoiaOComunismo, uma espécie de surto coletivo contra a acertada atitude da gigante dos eletrodomésticos. O contrário disso seria o quê? Uma opção consciente e deliberada por financiar a mentira? É isso o que a claque defende, publicamente, à luz do dia?

Depois da Brastemp, quem resolveu combater a rede de financiamento e distribuição de notícias falsas em benefício do capitão - uma operação que deveria ter sido deflagrada ainda na campanha eleitoral - foi o ministro do STF Alexandre de Moraes. Outro comunista. Quem não gostou nada foi o ex-parlamentar e radialista Roberto Jefferson. Um dos alvos da operação, Jefferson havia sugerido a Bolsonaro destituir o Supremo e, duas semanas atrás, publicara uma foto no Twitter empunhando uma metralhadora. "Estou me preparando para combater o bom combate", escrevera no post. "Contra o comunismo, contra a ditadura, contra a tirania, contra os traidores, contra os vendilhões da Pátria. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos." Também alvo da operação, a ex-candidata e ex-feminista Sara Winter, que também já divulgou fotos com armas de fogo, publicou um vídeo chamando Alexandre de Moraes de "arrombado" e de "filho da puta" e o ameaçando. "Nunca mais vai ter paz na sua vida", prometeu. "A gente vai descobrir tudo da sua vida até o senhor pedir para sair".

Bolsonaro não demorou a reagir à operação autorizada pelo Supremo com o autoritarismo de sempre. "Não teremos outro dia como ontem; chega!", afirmou, tratando como inevitável uma ruptura com o STF e indicando que a briga entre os três poderes deve ocupar o noticiário por um longo período. Nas hostes bolsonaristas corre a teoria (conspiratória) de que os ministros do Supremo são quase todos de esquerda - afinal, a maioria foi nomeada pelos governos dos comunistas Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff - e seriam controlados ainda hoje por petistas. O mesmo STF que Lula chamou de acovardado, que referendou sua prisão e em nenhum momento se opôs ao impeachment de Dilma, seria, hoje, um STF comunista. Lula, aliás, cujo governo tanto ajudou bancos e empreiteiras e não conseguiu sequer regular a mídia, também é comunista. FHC, o príncipe das privatizações e do Proer: comunista.

Nas agressões, no discurso, nos pronunciamentos e nas atitudes, a guerra contra a ameaça comunista segue a pleno vapor no Brasil. Até bem pouco tempo atrás, no universo fantástico de Bolsonaro, o objetivo era transformar o Brasil numa Venezuela. Na falta do ouro de Moscou ou do dinheiro do Fidel, que teriam embalado os sonhos ditatoriais de Dilma e de outros petistas nos rebeldes anos 1960, talvez agora os recursos venham da China, aquele paisão comunista que se tornou o maior celeiro do capitalismo mundial e criou o coronavírus para destruir a América, começando com nosso irmão do Norte. Foi o chanceler Ernesto Araújo quem apelidou o Sars-CoV-2 de comunavírus. E acrescentou: "A pretexto da pandemia, o novo comunismo trata de construir um mundo sem nações, sem liberdade, sem espírito, dirigido por uma agência central de 'solidariedade' encarregada de vigiar e punir", afirmou, referindo-se à Organização Mundial de Saúde (OMS).

Outra hipótese é que o golpe comunista no Brasil seja financiado por comuninvestidores como Leonardo DiCaprio, Bill Clinton e Barack Obama. Ou como George Soros (Open Society), Bill Gates (Microsoft) e Jeff Bezos (Amazon), empresários que mantêm iniciativas voltadas à defesa da democracia, da justiça social e que sugerem cobrar impostos mais altos dos muito ricos.

Resta saber a corrente de cada um. Seria Alexandre de Moraes stalinista? Felipe Neto é trotskista? Ou castrista? DiCaprio gosta tanto de selva que deve ser maoísta. Foquista, talvez. E William Bonner, qual a doutrina comunista defendida por ele? Posadistas, morenistas, leninistas, internacionalistas, marxistas utópicos ou libertários, eco-socialistas, quem é quem no mapa do comunismo brasileiro?

Na famosa reunião ministerial de abril, divulgada a pedido do também comunista Sérgio Moro, o ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, sugeriu uma força-tarefa do Governo, com o empenho de todos, para colocar em marcha um plano interministerial de retomada. Segundo o general, aquele seria "um Plano Marshall brasileiro". Oito minutos depois, terminado o PowerPoint, o ministro da economia Paulo Guedes pediu a palavra e foi na jugular do general. "A primeira observação, é o seguinte: não chamem de Plano Marshall porque revela um despreparo enorme", afirmou. Braga Netto respondeu que tinha usado aquela expressão apenas ali, na reunião, e que o verdadeiro nome do plano era Pró-Brasil. Guedes insistiu: "Pró-Brasil é um nome espetacular. Plano Marshall é um desastre. Revela despreparo". Didático, explicou que os Estados Unidos poderiam criar um Plano Marshall para ajudar o Brasil, mas não o próprio Brasil criar um Plano Marshall para ajudar a si mesmo. E afirmou: "A China (palavrões) deveria financiar um Plano Marshall para ajudar todo mundo que foi atingido".

Plano Marshall foi um programa criado pelos Estados Unidos para ajudar na reconstrução de países europeus nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Seu pulo do gato foi, ao mesmo tempo, conquistar hegemonia sobre países como Alemanha, França e Itália, largamente apoiados pelo Estado norte-americano, e evitar que a comunista União Soviética, também vitoriosa na Segunda Guerra, avançasse sobre a Europa, expandindo a área de influência da doutrina socialista. Em 2020, um Plano Marshall ajudaria a salvar o Brasil e, por tabela, ajudaria a dispersar esse teimoso avanço comunista que, diz a rede de fake news investigada pelo STF, nos espreita por todos os lados.

Não espantaria, no entanto, se o encontro de ministros, após o pito de Guedes, resultasse na elaboração e implantação de outro plano, o Plano Cohen. Quem lembra? Muito tempo antes de surgir a expressão fake news, Plano Cohen foi uma farsa criada em 1937 pela equipe do presidente Getúlio Vargas para convencer a população de que seria mais prudente cancelar as eleições e estender a permanência de Vargas no poder, agora como ditador, para evitar uma suposta ameaça comunista. Foi um dossiê, forjado do início ao fim, segundo o qual havia um plano de invasão do Brasil prestes a ser deflagrado. Sua autoria é atribuída ao capitão do Exército Olímpio Mourão Filho, então líder da Ação Integralista Brasileira e chefe de seu serviço secreto, o mesmo que, em 1964, deflagraria o golpe contra João Goulart, outro comunista notório que tinha ido à China, veja você, e defendia ideias comunistas como a reforma agrária. Fato é que, em 1937, quando Vargas já se preparava para deixar a presidência, com eleições diretas agendadas para o ano seguinte, o Plano Cohen justificou o golpe que inaugurou o Estado Novo: a ditadura Vargas, entre 1937 e 1945.

A obsessão de Bolsonaro e seus correligionários em afirmar, insistentemente, a existência de uma ameaça comunista, por mais insana e anacrônica que seja essa hipótese - sobretudo agora, quando não há mais nenhuma potência comunista minimamente constituída e disposta a investir numa guerra ideológica em nível mundial -, torna plausível o surgimento de uma sandice como o Plano Cohen, ora incensada pelas redes bolsonaristas de produção e distribuição de fake news, finalmente alvejadas pelo Supremo.

Atenção, patriota! A invasão comunista é iminente. E os ministros do STF estão entre seus líderes. Esteja alerta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.