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Acervo digital reúne fotos, correspondência e reportagens de Vlado Herzog

Vladimir Herzog em foto dos anos 1970. A imagem faz parte da coleção pessoal de Ivo Herzog no Acervo Vladimir Herzog - Acervo Vladimir Herzog
Vladimir Herzog em foto dos anos 1970. A imagem faz parte da coleção pessoal de Ivo Herzog no Acervo Vladimir Herzog Imagem: Acervo Vladimir Herzog
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

26/06/2020 00h09

Façamos um teste rápido. Quando você escuta o nome Vladimir Herzog, qual fotografia lhe vem à cabeça? Não vale pensar. O que vale é a associação imediata, espontânea. Como Vlado aparece nesta foto?

Se você tem menos de 60 anos, é bem possível que a primeira imagem que venha à sua cabeça seja o retrato de uma farsa: o corpo já enrijecido do jornalista de 38 anos pendurado a meia altura na grade de uma cela do DOI-Codi de São Paulo.

Para muitos, é essa a lembrança que ficou do Vlado, uma espécie de retrato oficial da violência de Estado, um souvenir macabro que nos ensina a todos que não havia limites para a truculência e a perversidade dos ditadores que controlavam a nação.

O clique, forjado pelo fotógrafo da polícia civil Silvaldo Leung Vieira, recém-admitido no emprego aos 22 anos, revelou ao mundo a prática recorrente de atribuir suicídio aos que morreram sob tortura. E suscitou um vasto rol de contestações. Como alguém se enforca tocando o chão com os pés e com os joelhos dobrados? Como o preso arrumara a tira de pano? Por que escolhera aquela barra de ferro na grade da janela se havia uma segunda barra mais alta à disposição? Por que o Exército divulgara que a tira de pano era o cinto do macacão do preso se o modelo adotado no DOI-Codi não tinha cinto?

Foram tantas as evidências que o rabino Henry Sobel decidiu: não enterraria Herzog na ala do cemitério destinada aos suicidas.

Sou dos que conheceram Herzog pela foto forjada. Somente muito mais tarde, e aos poucos, fui apresentado a outras imagens. Vlado escrevendo à máquina; Vlado com o amigo Fernando Pacheco Jordão num estúdio da rádio BBC em Londres; Vlado abraçado a um violão.

E quem era Vlado antes da morte? Vlado dirigia o jornalismo da TV Cultura e havia trabalhado na BBC de Londres. Dirigia filmes. Sua esposa se chamava Clarice, aquela que viria a chorar no solo do Brasil. Que mais?

Neste sentido, a publicação do Acervo Vladimir Herzog vem muito a calhar. Trata-se de um amplo arsenal de imagens, documentos e textos antigos reunidos por parentes, amigos e pesquisadores ora disponibilizados pelo Instituto Vladimir Herzog (IVH) no endereço https://www.acervovladimirherzog.org.br/. O acervo será lançado oficialmente nesta sexta-feira, 26 de junho, véspera do aniversário de 83 anos do Vlado, com um debate virtual nas redes sociais do IVH a partir das 19h.

O que salta aos olhos numa rápida consulta ao acervo é o Vlado anterior ao DOI-Codi, um Vlado que a maioria de nós ainda não conhecia. Um jornalista compenetrado, detalhista e atento, multimídia muito antes de surgir essa expressão. Um agitador e produtor cultural que fazia documentários, fotografava, traduzia, editava e até ilustrava.

Conheci parte deste acervo na Ocupação Vladimir Herzog, a mostra mais visitada do Itaú Cultural em 2019. No ambiente digital, assim como na ocupação, a ampla iconografia ajuda a reparar a injustiça histórica de tornar alguém - quem quer que seja -, mais conhecido por sua morte do que por sua vida. Um despropósito.

Estão ali reportagens escritas por Vlado para o Estadão e para a revista Visão. Estão ali algumas cartas de Londres, endereçadas no final dos anos 1960 a Jean-Claude Bernardet, Perseu Abramo e Fernando Henrique Cardoso, entre outros amigos. Estão ali registros de Vlado em ação: na inauguração de Brasília (1960), entrevistando a atriz Helene Weigel (1965) e o então ministro da Educação Jarbas Passarinho (1970-1974), gravando depoimentos da população de Canudos, no interior da Bahia (1975). Há também toda uma seção dedicada a imagens de família, da farra com os filhos Ivo e André, dos momentos de afeto com Clarice. E vídeos, alguns feitos por ele e outros, produzidos recentemente, com depoimentos de colegas e amigos sobre Vlado.

A propósito, a certidão de nascimento também está exposta. Traduzida do croata para o português, elas nos conta que Vladimir é apelido. O nome de batismo do filho de Ziga e Zora, nascido na Croácia em 1937, é que é Vlado. A imagem no acervo não me deixa mentir.

A partir das 19h desta sexta-feira 26, participam da live de lançamento o diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili; o presidente do Conselho do Instituto (e filho do Vlado), Ivo Herzog; o coordenador técnico do Acervo Vladimir Herzog, Luis Ludmer; e a jornalista e escritora Bianca Santana, membro do Conselho Consultivo do IVH. Nas redes sociais do Instituto.

Camilo Vannuchi