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Phillip Grandson - conhece? - fala sério quando o circo pega fogo

O infuenciador digital Felipe Neto - Reprodução
O infuenciador digital Felipe Neto Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

17/07/2020 12h58

Até a madrugada desta sexta-feira, 17 de julho de 2020, um vídeo de Felipe Neto publicado dois dias antes no New York Times, com chamada na home, havia sido visualizado por 4,5 milhões de pessoas na página original. Outras 660 mil pessoas assistiram ao vídeo no canal do jornal no YouTube, onde ganhou legendas em português e em inglês. A rápida repercussão do vídeo fez com que milhares de pessoas o republicassem em suas próprias páginas, canais e perfis, o que torna praticamente impossível calcular seu alcance real.

Considerando que Felipe Neto não é exatamente um astro conhecido internacionalmente, embora seu canal tenha quase 39 milhões de internautas inscritos - doze vezes mais do que os 3 milhões de inscritos no YouTube oficial do New York Times - e seja um dos maiores do mundo em audiência, o vídeo foi um petardo. Pelo menos no Brasil. No Twitter, o link do vídeo no site do NYT beirou as 350 mil interações e foi compartilhado por gente como Guga Chacra, Glenn Greenwald, Fernando Haddad e até Luciano Hang, o dono da Havan, com uma beliscada: "Felipe, quem?", escreveu o empresário bolsonarista. "Me admiro o New York Times ficar dando palanque para as baboseiras ditas por esse moleque".

Fato é que o vídeo agitou a crônica política da semana a ponto de motivar Felipe Neto a tirar onda mais uma vez, alterando seu nome no Twitter, onde tem 12 milhões de seguidores, para Phillip Grandson na madrugada desta sexta-feira.

Não é por menos. Dois meses depois de deitar e rolar no Roda Viva, Felipe Neto estreou no jornal mais importante dos Estados Unidos metendo os dois pés na porta. Com um olho no Brasil e outro na America, falou com segurança, propriedade - e inglês correto - sobre os efeitos perversos dos respectivos governos federais na escalada do novo Coronavírus nesses dois países, líderes em contágio e número de mortos. Falou com a gravidade que o assunto exige. "Quando o palhaço precisa falar sério, você sabe que o circo provavelmente está pegando fogo", avisou, logo no início da peça.

Americanos costumam se gabar de serem os líderes mundiais em tudo. Desde o início da pandemia, vocês são os campeões em número de mortes por Covid. Isso em parte se deve a seu presidente, Donald Trump, que muitos de vocês afirmam ser o pior chefe de Estado do mundo democrático hoje. Bem, estou aqui para mostrar que as 200 milhões de pessoas que vivem no Brasil estão ganhando de vocês. OK, neste momento ainda estamos em segundo lugar no número de mortes. Mas tenho certeza que nosso presidente, Jair Bolsonaro, é o pior líder do mundo no combate à Covid.

Ao longo de seis minutos, o mais conhecido influenciador digital do Brasil em 2020 fez uma breve e eficiente descrição da trágica figura que governa os brasileiros. Lembrou do apoio incondicional à tortura, do estímulo ao armamento, da disposição em "fuzilar a petralhada" e do orgulho em se dizer homofóbico. Por fim, mostrou que Donald Trump, a trágica figura que governa os Estados Unidos, é seu irmão siamês.

Trump chama Bolsonaro de amigo, e essa amizade é crucial para Bolsonaro manter sua popularidade. Isso legitima Bolsonaro. Vocês são campeões mundiais em mortes por Covid e, agora, estão nos levando para o abismo. Seu presidente tem pequenos clones operando em todo o mundo. Nós somos suas vítimas. Então, se você estiver se perguntando o que pode fazer para ajudar o Brasil a lidar com nosso lunático, por favor, não reelejam o lunático de vocês. Em novembro, vote para tirar Trump da Casa Branca.

Felipe Neto é jovem. Aos 32 anos, alguns meses a mais do que nossa igualmente jovem e combalida Constituição, ele é novo demais para se candidatar a presidente da República em 2020, como já repetiu algumas vezes, sempre que surge uma nova insinuação nesse sentido. Sua postura, no entanto, revela maior maturidade, engajamento e zelo com o futuro do país do que a maior parte dos políticos e influenciadores com idade - alguns com idade de sobra - para se candidatar em 2020.

Há momentos em que silenciar é consentir, em que não se posicionar é ser conivente com o genocídio, com a opressão, com a violação de direitos. Felipe Neto, à sua maneira, fala com milhões, dialoga com os muito jovens, traduz o que deve ser traduzido. Felipe Neto não tem bolha nem quadrado. Que seu humor permaneça sensível, inteligente, permanentemente arejado e contemporâneo, endurecido sem perder a ternura, como foram Henfil no traço e Stanislaw Ponte Preta no texto.

Camilo Vannuchi