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Camilo Vannuchi

Jean-Claude quer saber: e agora?

Jean-Claude Bernardet e Vladimir Safatle em cena do filme "#eagoraoque", lançado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2020  - Reprodução
Jean-Claude Bernardet e Vladimir Safatle em cena do filme "#eagoraoque", lançado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2020 Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

23/10/2020 11h18

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começou na noite de quinta-feira (22) com um monte de coisa boa. Rabisquei no meu bloco de notas uma pequena lista de títulos para maratonar no fim de semana. As leitoras e os leitores desta coluna possivelmente se interessem por "Um dia com Jerusa", da advogada, cineasta e ativista negra Viviane Ferreira, eleita em agosto presidente do Comitê Brasileiro de Seleção do Oscar 2021. Também poderão se entusiasmar com "Ana.", de Lúcia Murat, e dois documentários sobre dois grandes artistas brasileiros: "Glauber, claro", de César Meneghetti, que aborda o período de exílio do cineasta baiano, e "Todas as melodias", de Marco Abujamra, uma viagem pela vida e obra de Luiz Melodia. Super-homem, supermosca, supercarioca.

Escolhi um para começar na quinta à noite. Ensaio fílmico documental com pinceladas de ficção - trechos que assumem quase sempre o aspecto e a função de um psicodrama registrado em vídeo -, "#eagoraoque" pode ser considerado um filme político, embora seja antes de tudo um filme psicológico. Feito sem orçamento entre o golpe e a barbárie, no calor de 2018 - o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse, segundo a definição precisa de Mário Magalhães - o longa é resultado da inquietação criativa de dois veteranos do cinema paulista: um vigoroso Jean-Claude Bernardet, aos 84 anos, e seu colega no curso de Cinema da USP, Rubens Rewald, aos 55.

Seu mote é o desbussolamento, não da humanidade diante dos desafios da pós-modernidade, mas da esquerda diante da escala da extrema direita e, principalmente, da fenda brutal que se abriu entre a prática dos políticos e dos intelectuais e a vida real nas quebradas: onde chicote estala, polícia mata, Estado cala e as mães se movem para garantir o pão do dia seguinte (enquanto oram para que nenhum assassino fardado abrevie a vida do filho com duas balas na nuca). Sobretudo o mote é o desbussolamento da esquerda branca das universidades, aqui personificada num Vladimir Safatle acossado, pressionado pelo pai e pela filha, exposto às limitações da própria atuação. "Como é que você vai falar de revolução sem estar perto das pessoas?", indaga a filha, Valentina Ghiorzi, cantora e líder estudantil.

A cobrança vai muito além, num mosaico multifacetado e colorido, um mural de lugares de fala distintos que se encontram no horizonte. "Quem é descartável em nosso país?", pergunta a atriz e cantora Palomaris Mathias, uma das personagens condutoras da narrativa, rosto preto sobre fundo preto. "A resistência não é com arma, a nossa resistência vai ser com a voz, vai ser com canto, vai ser com amor", discursa Carmen Silva Ferreira, do Movimento Sem Teto do Centro, no pátio da Ocupação 9 de Julho. "Tem muito desse pensamento branco e acadêmico, tá ligado, de trazer essas discussões por viés ideológico quando o bagulho é sobre vida, tá ligado, parça, e se é sobre vida não vai caber nos livros, tá ligado", rebela-se o mano zica de bombeta e argola nas orelhas. "Deixou de entender o povão, já era", resume Mano Brown.

O desafio da esfinge se instala: Como sair do gabinete ou do campus, tirar a cara dos livros e do tablet, e conseguir dialogar com "o povo", esta instituição amorfa e cada vez mais distante, este obscuro objeto de desejo ora convertido em fetiche.

O título "#eagoraoque" parece dialogar com o "e agora, José?", de Drummond, ao mesmo tempo em que se apresenta como uma versão atualizada de O que fazer?, título de um livro escrito por outro Vladimir, o Lênin, e lançado em 1902. É significativo que a pergunta permaneça mais de um século depois. O que fazer? É também significativo que a frase "o que fazer?" seja tão semelhante, quase um anagrama, de "fazer o quê?", seu contraponto imediato. "Fazer o quê?", perguntou Bolsonaro diante da iminência da tragédia sanitária. "Fazer o quê?", lamenta o militante desnorteado pós Lava Jato, impeachment da Dilma, prisão do Lula e ascensão do fascismo. "O que fazer?", indagam Jean-Claude, Rubens, Vladimir.

O campo progressista, no Brasil, parece cambalear entre uma questão e outra: a intenção e o conformismo, o estímulo e a clemência. Numa cena do filme, a questão ganha outros contornos pela voz de Jean-Claude Bernardet: "Como vocês vão sair dessa?". A pergunta proferida pelo intelectual de sotaque belga se dirige não somente ao filósofo-pianista Vladimir Safatle, mas também a si mesmo. Aos 84 anos, Jean-Claude quer saber.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.