PUBLICIDADE
Topo

Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Papai, o que é genocida?

Jair Bolsonaro faz pronunciamento em rede de TV e rádio - Reprodução
Jair Bolsonaro faz pronunciamento em rede de TV e rádio Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

03/06/2021 00h55

A pergunta foi feita semanas atrás, mas me lembrei dela na noite desta quarta-feira, quando os gritos de "fora, genocida" reverberaram na vizinhança. Desta vez, assim que a algazarra começou, as crianças aqui em casa já estavam familiarizadas com o léxico e com a mise-en-scène. Elas já aprenderam que genocidas são do mal e que a Presidência da República não é lugar adequado para esse tipo de gente. Em março, no entanto, quando o youtuber preferido do meu filho foi intimado após chamar o genocida de genocida, foi preciso investir alguns minutos para explicar o contencioso.

"Papai, o que é genocida?", meu filho quis saber. Primeiro, tentei uma definição abstrata: uma pessoa que mata muitas outras pessoas, uma comunidade inteira, ou tenta matar, geralmente movida por ódio ou preconceito contra determinado grupo social. Aí achei que estava muito complexo para um jovem de 9 anos e recorri a um exemplo. Falei do Hitler, clichê dos clichês, e descrevi muito resumidamente o Holocausto e o extermínio de judeus, mestiços, homossexuais e comunistas na Alemanha nazista, muitos anos antes de o papai nascer (e também o vovô). Meu filho ouviu atento. "Tipo o Bolsonaro?", indagou. Engasguei-me com o café. Tem cada vez menos bobo no Brasil de 2021.

Quando as panelas saltaram dos armários na noite desta quarta-feira, genocida foi a expressão mais difundida no condado de Perdizes, em São Paulo, seguida de perto por assassino. A cada quatro gritos de "fora, genocida", houve três berros de "fora, assassino". Noves fora, corrente A e tendência B convergiram na tese e no programa. Petistas, comunistas, socialistas, pessolistas, trabalhistas e até os neoliberais limpinhos da direita "light" concordam. Eis a verdadeira frente ampla, a frente ampla de repúdio ao genocida.

Por chamar o presidente genocida de genocida, Felipe Neto foi intimado a depor numa Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro. Por associar o presidente genocida ao nazismo numa charge, o cartunista Renato Aroeira foi investigado num inquérito da Polícia Federal, arquivado pelo Ministério Público Federal dias depois. Por expo em praça pública a charge de Aroeira e atribuir novamente ao presidente genocida a alcunha de genocida, Rodrigo Pilha foi preso no Distrito Federal. Nesta segunda-feira, um dia depois de um domingo marcado por protestos em todo o Brasil - embora alguns jornais tenham optado por esconder ou subdimensionar a notícia -, um professor de História de Trindade, na região metropolitana de Goiânia, repisou o caminho trilhado por Felipe Neto, Renato Aroeira e Rodrigo Pilha e foi detido por exibir uma faixa de protesto fixada no capô do carro: "Fora Bolsonaro genocida". Aos 58 anos, Arquidones Bites seria solto no dia seguinte, depois que a Polícia Federal desautorizou a intimação da Polícia Militar. "Achei um absurdo alguém não poder manifestar a sua contrariedade com o que está acontecendo no país", desabafou o docente. Solto, Arquidones retirou a faixa. "Me deram uma rasteira, dois chutes na perna e, na hora de me algemar, me deram dois murros nas costas", contou. "Não estou querendo sair na rua com a faixa, a princípio, para preservar a minha vida". Existe censura no Brasil e ela é feita com base no constrangimento e na intimidação.

No panelaço desta quarta-feira, enquanto o presidente genocida discursava em rede nacional - uma antologia de mentiras e cinismos, entre as quais a defesa da vacina, a promessa de empregos e a afirmação de que não foram poupados esforços para conter a pandemia -, mais um passo foi dado em direção à interdição ou aposentadoria precoce do ex-capitão. As janelas falam e vão falar cada vez mais alto. As ruas voltaram a juntar multidões, a despeito do medo, dos riscos e da necessidade de tantos cuidados para combater a crise sanitária.

Ainda é pouco. Aos parlamentares comprometidos com a ética e a justiça, é preciso ir para cima. À imprensa e à sociedade civil, cabe ficar atenta à CPI e não baixar a guarda. À população, é preciso transformar indignação, coragem e esperança em combustível para a resistência. Cadê o pessoal que dizia amar o Brasil? Não é razoável que, a esta altura do genocídio, a adesão ao "fora, genocida" permaneça menor do que a adesão ao "fora, Dilma". O país sem rumo e sem governo, a fome à espreita, a família presidencial intimamente ligada a milícias, indícios muito contundentes de corrupção e de improbidade administrativa de toda ordem, sobretudo na condução do combate à Covid-19, o que mais falta? A não ser que aceitemos, calados, que manobras contábeis conhecidas como pedaladas fiscais sejam crimes mais graves do que 470 mil óbitos, censura, fome, brasileiro passando vergonha em âmbito internacional, desmatamento, economia parada, um país em colapso.

Aliás, que falta faz um "não vai ter Copa" quando a gente mais precisa dele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL