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Carolina Brígido

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com perfil de cabeça de chapa, Joaquim Barbosa não seria vice em 2022

O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa - Renato Costa/Folhapress
O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa Imagem: Renato Costa/Folhapress
Carolina Brígido

Escreve sobre Judiciário, especialmente o STF, desde 2001. Participou da cobertura do mensalão, da Lava-Jato e dos principais julgamentos dos últimos anos. Foi repórter e analista do jornal "O Globo" de 2001 a 2021. Foi colunista a revista "Época" de 2019 a 2021.

Colunista do UOL

03/12/2021 04h00

Sonho dourado de boa parte dos candidatos a presidente da República em 2022, o apoio de Joaquim Barbosa tem sido disputado a tapa nos bastidores do mundo político. O ex-juiz Sergio Moro procurou o ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) com a intenção de convencê-lo a ser seu vice na corrida ao Palácio do Planalto. A esquerda também não esconde o desejo de conquistar o apoio de Barbosa.

Ao longo dos onze anos em que integrou o STF, Barbosa construiu uma reputação de juiz rígido. Popularizou-se em 2012, durante o julgamento do mensalão, processo do qual era relator. Na sequência, assumiu a presidência da Corte. Aposentou-se em 2014. Hoje, tem um escritório de advocacia e vive praticamente no anonimato, em comparação à notoriedade do passado.

Como aconteceu com muitos ministros ao longo da história do STF, Barbosa não quis voltar à bancada depois de presidir o tribunal. O processo do mensalão já tinha sido encerrado e a Corte vivia uma entressafra no protagonismo da República. Barbosa preferiu se recolher.

O perfil do ministro revela uma peculiaridade. Para ele, se não for para desempenhar um papel efetivamente relevante na vida pública, não vale o custo de estar sob os holofotes. Transferindo essa premissa para o ambiente político, pode-se concluir que Barbosa não cultiva o perfil de vice, mas o de cabeça de chapa. Ou seja: se não houver espaço para concorrer à Presidência da República, ele dificilmente caminharia à sombra de outra pessoa.

No caso de Moro, é ainda menos provável que Barbosa aceite ser vice. O ex-ministro do STF é uma espécie de precursor do ex-juiz de Curitiba. O julgamento do mensalão pavimentou o caminho na narrativa de combate judicial à corrupção para viabilizar o nascimento da Lava Jato. Primeiro, Barbosa foi alçado a herói nacional. Moro veio na sequência.

Fazer de um ex-ministro do STF vice na chapa de um ex-juiz de primeira instância seria, no mínimo, inusitado. Em tempo: Moro era juiz auxiliar no Supremo, no gabinete da ministra Rosa Weber, durante o julgamento do mensalão.

Outro ponto a ser levado em conta é que Moro aceitou o convite de Jair Bolsonaro para ser ministro da Justiça em 2018, logo depois que o presidente venceu as eleições. Barbosa estava na trincheira oposta. No segundo turno, declarou voto ao petista Fernando Haddad.

No início de 2018, Barbosa filiou-se ao PSB. Havia a possibilidade de ele se candidatar a presidente da República. Os acertos políticos levaram o partido a outros caminhos. Na época, o ex-ministro não quis ser vice de ninguém. Neste ano, talvez não haja novamente espaço para o ex-ministro na cabeça de chapa: o PSB tenta convencer o tucano Geraldo Alckmin a se filiar e fazer dele vice de Luiz Inácio Lula da Silva.

Se não houver vaga para Barbosa na urna como presidente da República, ele dificilmente se contentaria com outro cargo - como, por exemplo, o de senador, como se cogita nos bastidores de Brasília. O cenário mais provável, portanto, é que o papel de Barbosa em 2022 seja na retaguarda, conferindo apoio a algum candidato da esquerda ou da centro-esquerda.

Mesmo com o perfil reservado, Barbosa vez ou outra opina sobre a política nacional. Recentemente, em entrevista à Folha de São Paulo, defendeu o sistema presidencialista e criticou a quantidade de partidos existentes no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL