Topo

Coluna

Chico Alves


Em Paraisópolis, mais uma vez o racismo é excludente de ilicitude

Vídeo que teria sido gravado após baile em Paraisópolis mostra polícia acuando grupo em beco - Reprodução/Twitter
Vídeo que teria sido gravado após baile em Paraisópolis mostra polícia acuando grupo em beco Imagem: Reprodução/Twitter
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

01/12/2019 20h22

Mal começou a investigação sobre a tragédia em que nove pessoas morreram pisoteadas em Paraisópolis, mas a julgar pelas opiniões manifestadas na internet muita gente já tirou suas conclusões. Para um número significativo de internautas, o fato de a multidão atacada pela PM estar em um baile funk é justificativa suficiente para qualquer tipo de truculência. Pior: muitos justificam assim até mesmo as mortes.

Ritmo originário das favelas, favorito de boa parte dos jovens negros e pobres, o funk é usado frequentemente como pretexto para a violência contra essa parcela da população. Mais uma vez isso acontece. Para muitos que moram em bairros de classe média alta (e têm uma grande variedade de opções de lazer a seu dispor), o jovem funkeiro é sinônimo de bandido.

Deve-se dar nome claro a esse tipo de manifestação: racismo.

Tal raciocínio preconceituoso leva muitos a absolver, de antemão, os policiais que alegaram ter sido atacados e que investiram contra a massa de 5 mil pessoas. Uma fração dos "comentaristas" das redes sociais nem de longe pensa que não faz sentido que agentes de segurança pública sejam eles próprios causadores de pânico e insegurança tão grandes que a única saída para alguns jovens de Paraisópolis foi pisotear os corpos dos próprios colegas.

A decantada solidariedade humana não os contaminou nesse caso, simplesmente porque para estes é como se alguém negro, pobre e funkeiro não fosse humano. Em tempos tão bestiais, houve quem dedicasse aos mortos no triste episódio não uma lágrima, mas comentários irônicos.

Seguindo a lógica racista, não haveria motivo sequer para investigar os policiais. É como se tivéssemos em vigor o tal excludente de ilicitude, defendido pelo ministro Sérgio Moro e pelo presidente Jair Bolsonaro, só que baseado claramente em justificativas socio-raciais.

Felizmente, há também nas redes sociais muita gente preocupada em defender a justiça, em combater o racismo, em promover a empatia. São os que cobram investigação rigorosa do caso e mudança urgente no modelo de policiamento colocado em prática nas favelas de todo o Brasil.

Ninguém desconhece os desafios e os riscos que correm os policiais que atuam nessas áreas. Justamente por isso é que se deve planejar melhor as ações, para que nem eles e nem a população que trabalha ou desfruta de lazer estejam constantemente com a vida por um fio.

Não se pode aceitar que a policia brasileira, que já é a mais violenta do mundo, se torne ainda mais letal. A ideologia do excludente de ilicitude só vem agravar o quadro, quase como incentivo, pela impunidade, aos desmandos de qualquer policial. Afinal, ao contrário do que querem Moro e Bolsonaro, os agentes não têm licença para matar.

Apuração transparente e punição dos responsáveis pela tragédia de Paraisópolis é o mínimo que se pede para provar que ainda não estamos dominados pela barbárie.

No mais, é preciso dizer: criminoso não é o funkeiro, mas sim o racista.

Chico Alves