Chico Alves

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Witzel: Investigação de porteiro de Bolsonaro no caso Marielle foi coação

Um dos vários pontos obscuros na investigação sobre o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes é a mudança repentina no depoimento do porteiro do condomínio onde moram Ronie Lessa, apontado como o assassino, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na primeira vez que falou à polícia, o homem (que tem o nome mantido em sigilo por segurança) disse que, no dia do crime, Élcio de Queiroz, que dirigiu o carro no momento do homicídio, foi à portaria e pediu para interfonar ao número 58, casa de Bolsonaro, e que "seu Jair" teria autorizado a entrada. Depois, em depoimento à Polícia Federal, ele disse que se enganou.

Governador do Rio à época, Wilson Witzel avalia que o porteiro foi coagido.

"O ministro da Justiça abre uma investigação contra uma testemunha-chave! Na minha visão isso foi coação", disse Witzel à coluna. O titular da pasta era Sergio Moro (União Brasil-PR), um dos principais nomes do governo Bolsonaro.

O ex-governador relata os prejuízos que a iniciativa do então ministro da Justiça Moro causou à investigação. "A partir desse momento o porteiro se calou. A central de mídia do condomínio foi subtraída pelo possível investigado [Bolsonaro], o procurador-geral da República se omitiu", diz. "A central de mídia do condomínio sumiu."

Posteriormente, laudo da Polícia Civil concluiu que a voz do porteiro que liberou a entrada do ex-PM Élcio de Queiroz não era a do funcionário que mencionou Bolsonaro aos investigadores da Delegacia de Homicídios. Para o ex-governador, porém, o fato de Bolsonaro ter levado a central de comunicação do condomínio caracteriza "quebra da cadeia de custódia da prova" e acredita que tudo fica contaminado a partir de então.

Ele defende o afastamento de Augusto Aras para que o episódio seja elucidado. "O PGR deu prosseguimento à requisição de abertura de um inquérito por calúnia contra o presidente. Não me parece adequado", opina Witzel. "Um dos envolvidos [Aras] ainda está no cargo. Para que tudo isso seja esclarecido ele precisa ser afastado."

Quando a imprensa publicou o depoimento em que o porteiro dizia que Élcio de Queiroz procurou por Bolsonaro, o ex-presidente acusou Witzel de ser o responsável pelo vazamento [à época o governador tinha pretensão de concorrer à Presidência]. "A partir daí, nenhum ministro estava autorizado a me receber", relata.

Para o ex-governador, desde então Bolsonaro, que foi seu aliado na eleição de 2018, passou a apoiar o processo que acabaria por tirá-lo do poder. "Apoiou o impeachment com várias declarações, inclusive antecipando a minha suposta prisão que nunca aconteceu", lembra Witzel.

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O ex-governador conta que quando assumiu o estado encontrou a apuração policial em estágio aquém do esperado. "Estava paralisada. Não havia razão para a não representação da prisão dos acusados e início de uma nova fase da investigação com os mandantes", conta. "Sugeri a prisão dos executores exatamente porque eu previa a delação de um deles, pela minha experiência como magistrado. A partir daí, as investigações prosseguiram e surgiu o porteiro. Neste ponto, comecei a ser fortemente perseguido".

Ele evita criticar o general Walter Braga Netto, responsável pela intervenção federal na segurança pública do Rio quando Marielle foi assassinada, e o general Richard Nunes, que foi o encarregado da secretaria de Segurança Pública.

"Não posso acusar o Braga Netto ou o Richard porque eles não entendem nada de processo penal e até duvido que entendam de segurança pública, porque a formação de oficiais do exército é muito diferente da formação necessária aos oficiais da PM e o emprego tático e estratégico também", explica.

Ele recorda que encontrou o delegado da Polícia Civil Giniton Lages, que era o encarregado da averiguação do assassinato, "esgotado emocionalmente". O policial explicou que tinha provas sobre os executores e o governador sugeriu a representação pela prisão.

Wilson Witzel foi eleito governador do Rio em 2018 e sofreu impeachment em abril de 2021, por decisão unânime dos cinco deputados e dos cinco desembargadores do Tribunal Especial Misto.

Outro lado: procurada pelo UOL, a defesa de Lessa nega que ele tenha assassinado a vereadora Marielle e o motorista Anderson Gomes. Segundo o advogado Bruno Castro, Lessa afirma que assistia a um jogo do Flamengo contra o Emelec, do Equador, no momento dos crimes, na noite de 14 de março de 2018. A versão foi mantida mesmo após os novos desdobramentos do caso.

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