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Chico Alves


Por insinuação de participar de atentado, Bebianno vai processar Bolsonaro

Ex-ministro Gustavo Bebianno - Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Ex-ministro Gustavo Bebianno Imagem: Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/12/2019 11h53

Depois da grande proximidade durante a corrida eleitoral e início de governo, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Gustavo Bebianno se tornaram desafetos, com direito a críticas públicas frequentes. Essa péssima relação azedou de vez com a entrevista que a revista Veja publica na edição publicada hoje, em que Bolsonaro diz que uma figura do seu staff de campanha estaria envolvida no plano de Adélio Bispo para matá-lo. Apesar de não citar o nome, a revista conclui que os detalhes fornecidos pelo presidente "apontam para um ex-ministro". Bebianno se encaixa nesse perfil

Abandonando o tom de serenidade que normalmente costuma usar, o ex-ministro diz que vai processar o presidente cível e criminalmente pela insinuação. Bebianno baseia sua irritação nos comentários do presidente à revista. Mas o assunto já chegara antes a seu conhecimento. "Uma vez, ainda na transição, o próprio Bolsonaro comentou comigo rindo que um assessor dele chamado Waldir juntamente como filho Carlos tinham tentado incutir isso na cabeça dele (que Bebianno articulara o atentado)", relembra. " Depois que eu saí, dois generais comentaram comigo que o presidente voltou fazer o comentário, não mais como brincadeira, já em tom maldoso".

Bebianno diz não temer o confronto com Bolsonaro e acredita que esse assunto tenha sido levantado para encobrir as notícias sobre Flávio Bolsonaro, acusado de "rachadinha" pelo Ministério Público do Rio. Sobre esse caso, diz que a investigação sobre Flávio, que começou antes das eleições, foi "brecada" durante a campanha. Não responde, porém, quando perguntado sobre detalhes acerca do assunto. "Sobre isso vou falar na hora certa", diz Bebianno.

A seguir, tópicos da entrevista do ex-ministro à coluna:

Insinuação do presidente
"A acusação específica em relação a mim não vou nem perder o meu tempo em comentar, por ser ridícula. Vou simplesmente processá-lo cível e criminalmente e ele vai ter que responder até pela última vírgula do que diz. Conheço ele a fundo e sei que é um medroso quando confrontado em igualdade de condições. Se acha que tenho medo dele e da relação que tem com as milícias do Rio de Janeiro está muito enganado. Vou trabalhar incessantemente para que seja interditado. Acho que é um louco que coloca o Brasil em situação de extremo risco".

Convites depois do atentado
"O presidente revela perfil autoritário e perigosíssimo, uma vez que só se preocupa com ele e os próprios filhos. Só que eu sou tão homem quanto ele e tenho os meus filhos também. Tenho uma mãe de 87 anos de idade, tinha um pai que morreu durante a campanha e não pude estar ao lado porque estava ao lado do hoje presidente, para defender a sua vida, a sua integridade física, coisa que os filhos nunca se dispuseram a fazer, porque são três frouxos. Se ele tinha essa convicção, por qual motivo me convidou para ser ministro? Mais do que isso, por qual motivo me convidou para assumir Itaipu? Por que mandou gente para me sondar depois para assumir embaixada em Portugal e na Itália?"

Risco para a segurança pessoal
"Age dessa maneira inconsequente agora para esconder o mar de lama em que está envolvido seu filho Flávio, cuja história eu conheço de A a Z. Até hoje me comportei de forma leal e digna em relação a ele, me limitando a comentar o que é público e notório, corrente nas manchetes de jornal. O presidente mentiu recentemente sobre o dossiê do príncipe, que foi ele próprio que me acordou de madrugada para dizer que tinha recebido. Mentiu em relação ao príncipe e mente agora. Não mede as consequências dos seus atos, do que isso pode representar para a minha segurança pessoal e da minha família. Mas se Bolsonaro acha que tenho medo dele, de miliciano virtual e de miliciano da cidade do Rio de janeiro, está redondamente enganado".

Investigação sobre Flávio brecada

"Lembro que há tempos o "nenê 02" (Carlos Bolsonaro), que é outro maluco, fazia esse tipo de acusação em relação ao general Mourão. Agora o presidente tenta acusar o governador Witzel sobre a investigação do MP em relação ao Flávio Bolsonaro, olha que absurdo. Flávio era investigado já durante a campanha. A investigação foi brecada para não atrapalhar a campanha. Witzel não tinha sido eleito, o MP já estava nisso antes da eleição, fazendo investigação focada em vários parlamentares. Flávio era um deles e a investigação foi brecada. Sobre isso vou falar na hora certa".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves