PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


A porta dos fundos da democracia

Gregório Duvivier no especial de fim de ano do Porta dos Fundos na Netflix - Reprodução/Netflix
Gregório Duvivier no especial de fim de ano do Porta dos Fundos na Netflix Imagem: Reprodução/Netflix
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

25/12/2019 12h11

Censura a expressões culturais, indiferença diante do assassinato de indígenas, negligência com a destruição ambiental, ofensa a professores e incentivo à violência policial. A cada novo patamar da escalada de absurdos verificados no país, personagens importantes da República vêm a público garantir que a jovem democracia brasileira continua vigorosa. "As instituições estão funcionando" é a frase recorrente para garantir que, apesar de tantas provações, tudo está normal no país.

Mas será que realmente faz sentido o semblante sereno dos figurões diante do que estamos vivendo nesses tempos?

No atentado terrorista à produtora do humorístico Porta dos Fundos, atacada com coquetéis molotov, as tais instituições têm mais uma chance de mostrar que estão realmente funcionando na prática e não só nos discursos protocolares dos engravatados. Para isso, culpados devem ser identificados e punidos. Simples assim. Deveria ser prática corriqueira, mas no Brasil sabemos que não é.

É fácil fazer uma listinha rápida para comprovar que essa tal normalidade não existe. Até hoje não sabemos quem são os mandantes do assassinato de Marielle; continuam impunes os matadores dos caciques Guajajara, do Maranhão; também os cabeças das queimadas na Amazônia estão livres; não foi identificado o responsável pelo monumental derramamento de óleo no litoral nordestino. Esses são só alguns casos recentes, que ajudam a concluir: institucionalmente, estamos muito mal.

Autoridades de todos os níveis devem meter na cabeça que o tal "funcionamento das instituições" não pode se limitar ao cumprimento de expedientes e rotinas ou aos pronunciamentos dos homens públicos sobre um ou outro tema. É nos casos excepcionais que os órgãos de Estado mostram à sociedade que a democracia está funcionando. Não no discurso, mas na prática.

Se uma parte público se sentiu ofendida com o especial de Natal do grupo, que isso seja discutido de forma civilizada, sem qualquer tipo de ameaça. Quando os argumentos são substituídos por coquetéis molotov, não há dúvida que muita coisa está fora da ordem.

Normalizar absurdos é uma das formas mais rápidas de uma sociedade afundar no lodo do autoritarismo. E parece que estamos descendo.

O que acontece no Brasil nos últimos anos não tem nada de normal. Se o objetivo das autoridades realmente é manter a democracia funcionando, não deveriam se mostrar serenos diante da ação de criminosos comuns ou ambientais e nem minimizar ataques fundamentalistas. Deveriam, isso sim, estar apreensivos.

Os sistemas democráticos não se sustentam apenas com frases feitas, exigem ação pra valer. O ataque terrorista ao Porta dos Fundos precisa ter uma resposta rápida, enérgica. Se isso não acontecer, repetir "as instituições estão funcionando" passará a ter na opinião pública o mesmo efeito que recitar o bordão de um programa de humor. Só que, nesse caso, sem a mínima graça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves