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Chico Alves


Elitismo de Guedes supera Chico Anysio, Miguel Falabella e Marcelo Adnet

Chico Anysio, Miguel Falabela e Marcelo Adnet - reprodução do YouTube
Chico Anysio, Miguel Falabela e Marcelo Adnet Imagem: reprodução do YouTube
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/02/2020 12h13

Na extensa galeria de personagens de Chico Anysio, um dos destaques foi Justo Verissimo. Era um político bigodudo e corrupto, que menosprezava os eleitores de baixa renda e vivia repetindo o bordão: "Quero que pobre se exploda!"

O modo de agir é parecido com outro elitista fictício, Caco Antibes, vivido por Miguel Falabella, estrela do programa "Sai de Baixo". Soltava a todo momento que tinha "horror a pobre" e não perdia oportunidade de humilhar a empregada doméstica.

Mesma linha de raciocínio do personagem que Marcelo Adnet criou em 2012, quando o povão disputava com os bacanas o espaço dos aeroportos. "Eu tenho que viajar, mas meu jatinho atrasa porque agora pobre voa", lamentava o ricaço, taça de vinho à mão, em sua casa cinematográfica.

Como em todo quadro de humor, a graça dos três estava em parecerem caricatos, exagerados, irreais. Mas isso era antes de Paulo Guedes despontar no cenário nacional. Hoje, com suas reiteradas falas de menosprezo aos brasileiros de menor poder aquisitivo, o ministro da Economia coloca Chico, Falabella e Adnet no chinelo.

De tão absurdas, suas declarações podem ser confundidas com esquete de um quadro humoristico. Infelizmente, são reais.

Ontem, ao reclamar que com o câmbio baixo empregadas domésticas estavam indo para a Disney três, quatro vezes por ano ("Uma festa danada, peraí!") tinha o semblante contrariado que caberia bem em qualquer uma dessas criações humorísticas.

E completou a fala como se seguisse um roteiro de pastelão. "Vai passear em Foz do Iguaçu, vai passear no Nordeste!", sugeriu. Isso mesmo: Guedes quer usar o câmbio para delimitar até onde os pobres podem ir.

Depois dessa, Falabella e Adnet terão que se esforçar muito para fazer caricatura de um figurão da elite econômica que odeia pobre. Guedes colocou o sarrafo no ponto mais alto.

Em uma de suas frases mais geniais, o jornalista e pensador Millôr Fernandes anunciou: "A hipocrisia já é um avanço". Dessa forma, ele mostrava que nosso nível moral está tão corroído que se conseguirmos ao menos fingir que somos civilizados já estaremos dando um passo à frente.

O ministro não consegue fingir. A cada fala, mostra sem retoques todo seu desprezo pelas classes menos favorecidas. Mesmo com a péssima repercussão, não duvido que sinta certo orgulho da "coragem" de dizer o que realmente sente, deve ter recebido pelo Whatsapp elogios de seus pares.

Guedes vai muito além de Justo Verissimo, Caco Antibes e do ricaço criado por Adnet. O problema é que, por ser real, não tem graça nenhuma. Pelo contrário. O fato de verbalizar o que parte da elite sente em relação aos pobres torna a situação bastante dramática

Chico Alves