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Chico Alves

As instituições assistem passivas ao show de horrores de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro, cumprimenta as pessoas que o esperavam na porta do Palácio da Alvorada - Antonio Cruz - 30.ago.19/Agência Brasil
O presidente Jair Bolsonaro, cumprimenta as pessoas que o esperavam na porta do Palácio da Alvorada Imagem: Antonio Cruz - 30.ago.19/Agência Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

18/02/2020 11h16

Na falta da competência para gerir a economia, a educação ou a política ambiental de um país, compostura é o mínimo que se pode exigir de qualquer presidente. Ninguém nasce sabendo governar, com o tempo é possível aprender. Já urbanidade, polidez e equilíbrio muitas vezes não se pode assimilar. O presidente Jair Bolsonaro provou isso mais uma vez hoje, ao fazer comentário insultuoso contra a jornalista Patrícia Campos Mello.

Um presidente pode muito, mas não pode tudo. Não pode ser desrespeitoso, machista, misógino, vulgar. Há nos comentários absurdos de Bolsonaro um conteúdo que passa da irresponsabilidade e deve ser examinado sob a possibilidade da responsabilização penal. Afinal, não se diz que as instituições democráticas estão funcionando? Onde estão elas, essas tais instituições, que assistem ao show de horrores no cercadinho do Palácio da Alvorada passivamente?

Assim como o fã clube, que solta urros de apoio a cada ofensa que Bolsonaro dirige a seus desafetos, as redes sociais devem estar a essa altura entupidas de apoiadores de carne e osso e também robôs que aplaudem as baixarias presidenciais. Tudo o que o capitão fizer terá o incentivo desses fanáticos. Contra a horda de zumbis, é preciso que a democracia brasileira prove que está viva.

A matéria feita pela competente jornalista, sobre os disparos em massa de mensagens de WhatsApp pelo grupo da campanha eleitoral de Bolsonaro, foi tão bem fundamentada que deixou transtornado o presidente e sua turma. Nada, porém, justifica comportamento tão baixo. Seus antecessores, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer, apanharam muito mais da imprensa e tiveram comportamento digno. O atual mandatário do país poderia mirar-se neles.

Mais constrangedor é assistir a essa escalada de cenas de baixo calão sabendo que ao lado do presidente estão militares de alta patente. Por definição, a carreira militar pede educação, ponderação, discrição, equilíbrio. Nada mais distante do atual ocupante do Palácio do Planalto.

Com a economia revendo suas metas para baixo, o desemprego teimando em triturar ainda mais de 11 milhões de pessoas, a educação sob gestão catastrófica e a destruição ambiental avançando tragicamente, o Brasil precisa de um presidente sério, que trabalhe duro e faça mais que se orgulhar de dar "bananas" aos jornalistas e atiçar abutres nas redes sociais, como um adolescente malcriado.

O episódio de hoje certamente será noticiado em todo o mundo. O Brasil, assim, descerá mais alguns degraus na escala de respeitabilidade. Os gringos deverão estranhar como, em meio a um cenário econômico desolador, a principal autoridade nacional não se preocupa em destacar algum plano de desenvolvimento ou medidas animadoras. Prefere mostrar-se machista, misógino e desrespeitoso, ao estilo de um frequentador de boteco de vinte anos atrás.

Já que não se pode exigir muito mais desse governo, é preciso cobrar ao menos respeito, não só a Patrícia Campos Mello, mas a todos os brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.