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Chico Alves


E se George Floyd morasse em uma favela do Rio de Janeiro?

George Floyd - Arte: Camila Pizzolotto
George Floyd Imagem: Arte: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

10/06/2020 04h00

O movimento nas ruas próximas ao Complexo do Alemão geralmente é intenso, mas em uma das esquinas da Estrada do Itararé a aglomeração parecia atípica. Em frente a um pequeno mercado, o grupo de moradores observava a ação do PM que acabara de subjugar um homem alto e negro acusado de pagar a conta com dinheiro falso.

Conhecido por todos como um vizinho tranquilo, George não ofereceu resistência quando o policial o jogou ao chão. Em seguida, o soldado, passou a pressionar o pescoço do preso com o joelho, enquanto ele se debatia desesperadamente, dizendo que não conseguia respirar.

Depois de oito longos minutos de protestos dos moradores que presenciaram a violência — alguns gravando a cena chocante de celular em punho — a vítima parou de se mexer. George estava morto.

Seria mais um dos vários assassinatos cometidos pela polícia que poucos ficam sabendo, não fosse pelo vídeo que documentou a ação truculenta, postado nas redes sociais.

A imagem causou revolta em todos que a viram. Já se poderia imaginar a comoção que aquela morte provocaria na população, quando alguém se lembrou de fazer a pergunta fundamental: "Tem antecedentes criminais?"

Sim, George já fora várias vezes preso por roubo e porte de drogas. A última detenção foi por assalto a mão armada.

"Eu sabia! É bandido", exultou o delegado.

A informação foi repassada aos jornalistas, que, depois de relatarem a morte do rapaz, escreveram: "segundo a polícia, George tinha antecedentes criminais". Nos programas policiais de TV, esse detalhe ganhou destaque e apresentadores sensacionalistas parabenizaram os policiais. "CPF cancelado", ironizou um deles, com sadismo.

Ao receberem a notícia em suas casas confortáveis, bem longe do Complexo do Alemão, muitos repetiram consigo mesmos: "Menos um bandido".

A única comoção que restou foi a dos vizinhos e parentes de George, que elogiaram a anunciada intenção de mudar de conduta e nunca mais cometer crimes, promessa que ele conseguia manter há mais de dez anos. Houve uma pequena manifestação, quase protocolar, contra a violência policial e a Estrada do Itararé ficou fechada por alguns minutos.

Na porta do Instituto Médico Legal, a esposa do rapaz lamentava que a filha de seis anos fosse obrigada a crescer sem o carinho do pai. Com a carteira de trabalho na mão, a mulher mostrava o documento aos fotógrafos e cinegrafistas. "Meu marido era segurança, era trabalhador", repetia aos prantos.

O velório aconteceu sob o clima de revolta dos moradores do Alemão, que por tantas vezes viram pessoas da comunidade serem assassinadas pela polícia. Poucas horas depois, George foi enterrado e todos voltaram.para suas casas.

No dia seguinte, a morte daquele homem já não foi mais comentada e a vida no Rio de Janeiro seguiu seu curso normal, como acontece sempre.

PS.: Em Houston, onde morava antes de se mudar para Minneapolis, George Floyd foi detido várias vezes por roubo e posse de drogas. Em 2009, ficou preso durante um ano por um assalto à mão armada. Esses antecedentes não impediram a gigantesca onda de indignação pelo seu assassinato.

Chico Alves