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Chico Alves


Aroeira, sobre charge de Bolsonaro e suástica: "Deram mais visibilidade"

Chargista Renato Aroeira - Divulgação
Chargista Renato Aroeira Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

16/06/2020 16h56Atualizada em 17/06/2020 16h09

Autor da charge em que o presidente Jair Bolsonaro aparece transformando a cruz vermelha de um hospital em suástica nazista, Renato Aroeira entrou na mira do ministro da Justiça. André Luiz Mendonça pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que abram um inquérito para investigar o desenho, reproduzido no Twitter pelo jornalista Ricardo Noblat. A pedido do ministro, tanto Aroeira quanto Noblat podem ser enquadrados na Lei de Segurança Nacional, um recurso muito usado nos tempos da Ditadura Militar.

"Do ponto de vista político, é um baita tiro no pé", diz o chargista, em entrevista à coluna. "Na verdade, deu uma visibilidade à minha charge que eu não poderia imaginar que ela teria". A imagem, que critica o incentivo do presidente à invasão de hospitais, foi publicada originalmente no site Brasil 247.

A possibilidade de punição a Aroeira gerou uma onda de solidariedade entre os chargistas e pelo menos 70 deles, no Brasil e no exterior, vão publicar a partir de hoje o mesmo desenho em releituras de cada artista.

Sobre a alegação de calúnia, Aroeira cita Picasso. O pintor espanhol foi abordado por um oficial nazista que perguntou, apontando para a tela Guernica (que retratava os horrores da guerra): "O sr. fez isso?" E Picasso respondeu: "Não, vocês fizeram".

"Se ele (Bolsonaro) me pergunta se o estou chamando de nazista, respondo: 'Não, você próprio se chamou de nazista. Eu só desenhei', diz Aroeira.

UOL - Quando soube que poderia ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional?

Renato Aroeira - Vi uma corrente de solidariedade no Facebook. Perguntei: que diacho aconteceu? Vi o Twitter da Secom, que estou chamando de Secen, Secretaria de Censura, que é basicamente o que eles fazem. Aí comecei a ver os desdobramentos no Brasil 247 e Jornalistas pela Democracia, que começaram a comentar. Veio uma onda de solidariedade absurdamente gigante, fiquei muito emocionado com isso. Mas, claro, tenso.

Você teve outras duas ações que envolvem a imagem de Bolsonaro e a suástica.

Fiz uma charge com Bolsonaro ainda candidato, também usando a cruz nazista, e ele me processou alegando grande tristeza, infelicidade e angústia moral por ter sido ofendido e caluniado. A juíza na sentença disse que um cara que tira fotos com alguém fantasiado de Hitler e não se sente constrangido, não vai se sentir constrangido com aquela charge. Achei mortal essa sentença. Espero que ela seja reproduzida. Já existe até uma certa jurisprudência formada.

O filho do Luiz Fux tentou mover uma queixa-crime contra mim por uma charge de Bolsonaro com Netanyahu, que foi recusada.

Nesse caso em que ele me acusa de calúnia, dá vontade de citar Picasso, quando um oficial nazista pergunta para ele, apontando para Guernica: "o sr. fez isso?" E Picasso respondeu: "Não, vocês fizeram". A mesma coisa agora. Se ele (Bolsonaro) me pergunta se o estou chamando de nazista, respondo: 'Não, você próprio se chamou de nazista. Eu só desenhei. É a minha defesa".

Acha que há uma escalada contra a liberdade de expressão?

Os outros processos contra mim foram, de uma forma ou de outra, mesmo depois do golpe contra a Dilma, ainda dentro de uma estrutura democrática. Esse já é em um momento em que os fascistas estão organizando o governo e mandando, ou desorganizando e tentando mandar, que é mais ou menos a mesma coisa.

Todos me deixaram muito tristes, mas esse é diferente. Há poucos dias, uma entidade ligada à PM de São Paulo entrou com ação contra os cartunistas da Folha por causa das charges que eles fizeram contra a invasão dos policiais naquele baile (em que foram mortas nove pessoas em Paraisópolis).

Fizeram a mesma coisa um pouco antes no Rio de Janeiro por causa de charge do Latuff. A PM entra com queixa-crime, pedindo investigação.

A mesmíssima coisa com o Alexandre Beck, por causa daquela tira maravilhosa do Armandinho. Ou seja, isso não é comigo. É um modus operandi.

Além disso, o governo agora invoca a Lei de Segurança Nacional...

A LSN é uma novidade. Os outros eram por calúnia simples, processos de pessoas contra mim. Já a Secom pedir ao ministro da Justiça fazer uma coisa dessas é outra coisa. Sinceramente, é um desperdício de munição, principalmente levando-se em conta que eles vão dar um tiro no próprio pé. Quem cava briga com chargista acaba se machucando.

No caso do Charlie Hebdo, a resposta dos chargistas resultou em um milhão de charges sobre os assassinos, Maomé, o escambau. A imagem dos caras fica muito pior do que era antes.

Como está tratando da sua defesa?

O site onde eu publico, o 247, está com advogados cuidando disso, eu estou conversando com o pessoal. Muitos amigos do Direito se ofereceram para trabalhar gratuitamente pela questão da democracia que está envolvida. Quanto à parte jurídica estou tranquilo.

Na parte política é o que eu falei: um baita tiro no pé. Na verdade, deu uma visibilidade à minha charge que eu não poderia imaginar que ela teria. Portanto, também dá visibilidade ao fato que eu estou denunciando na charge.

Essa ação pesa na hora de você pensar sobre uma nova charge, criar um novo desenho?

Pesa... Eu, por exemplo, já estou fazendo a continuação (risos). A mesma charge, só que agora com o ministro da Justiça e o Wajngarten, da Secom, passando pano e limpando a sujeira que o Bolsonaro tinha feito.

Os chargistas do Brasil todo, inclusive alguns de fora, estão se organizando e fazendo um coisa maravilhosa, que eu nunca tinha visto. Todos estão desenhando minha charge com seus estilos e vão assinar meu nome junto. Vão publicar entre hoje e amanhã. Ele vai ter 70 charges idênticas, assinadas por pessoas diferentes. Fiquei muito emocionado com isso.

É bobagem brigar com gente que só estava fazendo piada. Porque rindo você castiga com uma força, rapaz...

Alguns políticos parecem não entender a função do chargista.

Os chargistas todos têm um sobrenome comum: desrespeito. Basicamente, essa é a ideia da charge. A gente ridiculariza, mostra que aquela atitude que todo mundo está achando pomposa, circunspecta e séria, na verdade, é uma calhordice ridícula. É como se disséssemos: a sua anágua está aparecendo. Mostramos a roupa íntima, a bunda... o rei está nu. A gente é desrespeitoso por natureza.

Noventa por cento dos chargistas no mundo moderno são humanistas. Vejo cada vez menos charges que machucam o oprimido, vejo uma quantidade gigantesca de charges que batem no opressor. Não mudamos o mundo. Quem muda o mundo é o oprimido que foi explorado, machucado, espoliado, escravizado...Esse muda o mundo quando dá a volta, toma conta e pega o que era dele.

A gente ajuda nesse sentido, somos força auxiliar. A gente ajuda as pessoas a rirem, a apontarem para o inimigo e rirem dele, ridicularizá-lo, ajudamos a fazer uma catarse ou outra, que é sempre bom.

Acredita que o Brasil está perto de mergulhar no autoritarismo? Imaginaria que voltaria a enfrentar questões como limites à liberdade de expressão?

Há meses que tenho falado que é evidente que as coisas estão caminhando para um encontro. Forças estão se organizando, estão apertando seus parafusos, esticando as suas cordas e vamos nos encontrar. Há uma confluência de fatores e nós vamos ter um desfecho em algum momento.

Não imaginaria esses limites. Mas, no fundo, sempre pensei como um rabino humanista do século 2, que foi médico do rei do Egito, e dizia o seguinte: "Está bom agora, mas pode piorar em 15 minutos".

Minha mulher não é religiosa mas usa uma expressão: "Orai e vigiai". Ou seja, você pode até rezar, mas presta atenção.

Você acha então que nós não prestamos a atenção devida aos riscos à democracia?

Acho que não prestamos.

Chico Alves