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Decotelli copiou ao menos 4 trechos de outros trabalhos em mestrado

Constança Rezende

É colunista do UOL em Brasília. Passou pelas redações do Estadão no Rio de Janeiro, O DIA e Jornal do Commercio.

Colunista do UOL

27/06/2020 13h33Atualizada em 02/07/2020 09h07

O novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, copiou quatro trechos de outras dissertações de mestrado e textos acadêmicos na introdução de seu trabalho de mestrado, apresentado em 2008 para a FGV Rio de Janeiro, com o título Banrisul: do PROES ao IPO com governança corporativa. A prática de copiar literalmente ou parafrasear textos de terceiros sem dar a eles a devida referência ou citação é classificada como plágio.

De acordo com levantamento feito pelo UOL, Decotelli usou um trecho idêntico na página 18 de sua dissertação à página 111 do texto "Origens e desenvolvimento institucional", do trabalho de mestrado de Kátia Valéria Araújo Melo e Rezilda Rodrigues Oliveira, apresentado em julho de 2005 - três anos antes de Decotelli.

Ele escreveu: "Dependendo da natureza do negócio e da teia de constituintes que o embasam, pode-se detectar a existência de burocratas, técnicos e outros atores engajados em projetos e ideias que, para eles, fazem sentido e pelos quais lutam, mesmo que ainda não os tenham materializado, e às vezes, somente se configurando como uma mera agenda, cuja conformação e evolução está sujeita a códigos de conduta, a fontes de poder, ao compartilhamento de uma linguagem comum, a um ambiente propício à colaboração e a mecanismos de difusão da inovação tecnológica.

O texto de Kátia e Rezilda diz: "Dependendo da natureza do negócio e da teia de constituintes que o embasam, pode-se detectar a existência de burocratas, técnicos e outros atores engajados em projetos e ideias que, para eles, fazem sentido e pelos quais lutam, mesmo que ainda não os tenham materializado, e às vezes, somente se configurando como uma mera agenda, cuja conformação e evolução está sujeita a códigos de conduta, a fontes de poder, ao compartilhamento de uma linguagem comum, a um ambiente propício à colaboração e a mecanismos de difusão da inovação entre as comunidades ocupacionais com que se relacionam". As autoras citaram, inclusive a origem da informação em outros autores: "Pelled, 2001; Hoffman, 2001".

Na mesma página, Decotelli diz:

"A sobrevivência das organizações, na abordagem institucional, depende da capacidade de entendimento das regras, crenças, valores e interesses criados e consolidados num determinado contexto ambiental, social e cultural. A forma de interpretar estes aspectos, a fim de se posicionar frente às pressões isomórficas, são melhor explicadas pela presença dos esquemas interpretativos, definidos como "pressupostos resultantes da elaboração e arquivamento mental da percepção de objetos dispostos na realidade, que operam como quadros de referência, compartilhados e frequentemente implícitos, de eventos e comportamentos apresentados pelos agentes organizacionais em diversas situações".

O trecho é quase idêntico às páginas 32 e 33 da dissertação de mestrado de Júlio César de Paiva de 2006, de título "Institucionalização da garantia do status sanitário na cadeia produtiva da avicultura de corte".

"A sobrevivência das organizações, na abordagem institucional, depende da capacidade organizacional de entendimento das regras, crenças, valores e interesses criados e consolidados num determinado contexto ambiental, tira social e cultural. A forma de interpretar estes aspectos, a fim de se posicionar frente às pressões isomórficas, são é mais bem melhor explicadas pela presença dos esquemas interpretativos, definidos como "pressupostos resultantes da elaboração e arquivamento mental da percepção de objetos dispostos na realidade, que operam como quadros de referência, compartilhados e frequentemente implícitos, de eventos e comportamentos apresentados pelos agentes organizacionais em diversas situações".

Já na página 20, Decotelli cita:

"Nesta visão, a adaptação organizacional refere-se à habilidade dos administradores em reconhecer, interpretar e implementar estratégias, de acordo com as necessidades e mudanças percebidas no seu ambiente, de forma a assegurar suas vantagens competitivas. Como se pode notar, o estudo do processo de adaptação estratégica envolve as visões deterministas do ambiente organizacional e a voluntarista da escolha das estratégias pelos tomadores de decisão nas organizações".

O trecho é igual ao texto "Teoria institucional e dependência de recursos na adaptação organizacional: uma visão complementar", de Carlos Ricardo Rossetto e Adriana Marques Rossetto", publicado em janeiro/junho de 2005. de em jan./jun. 2005, pela Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, ( Univali).

"Nesta visão, a adaptação organizacional refere-se à habilidade dos administradores em reconhecer, interpretar e implementar estratégias, de acordo com as necessidades e mudanças percebidas no seu ambiente, de forma a assegurar suas vantagens competitivas. Como se pode notar, o estudo do processo de adaptação estratégica envolve as visões deterministas do ambiente organizacional e a voluntarista da escolha das estratégias pelos tomadores de decisão nas organizações.

Na página 24 de seu trabalho, Decotelli copia trecho da páginas 33 e 34 dissertação de mestrado em Economia de Julieda Puig Pereira Paes, "Criação" de Moeda e Ciclo Político, publicada em junho de 1996.

O ministro diz:

"Este 'círculo' econômico-político de perda de poder econômico engendrando uma relativa fragilização política da União, só pôde ser mantido às custas de uma especificidade do sistema político-partidário brasileiro: a de gerar representantes legislativos federais com interesses fortemente locais em seus estados de origem. Portanto, o lastro político-institucional que proporcionou o projeto dos bancos estaduais foi reproduzido como um modelo ao mesmo tempo econômico-político-partidário, confrontando espaços de gestão, poder e autonomia administrativo-financeira entre os estados e a União",

O trabalho anterior afirma:

"Este 'círculo' econômico-político de perda de poder econômico engendrando uma relativa fragilização política da União, que por sua vez, reforça a fragilidade financeira, só pôde ser mantido às custas de uma especificidade do sistema político-partidário brasileiro: a de gerar representantes legislativos federais com interesses fortemente locais. Os representantes do Congresso Nacional são eleitos pelo voto puramente proporcional. Não há listas partidárias fechadas, o que faz que o eleitor vote em "nomes" e não em partidos"

Os quatro trechos não são colocados entre aspas, o que é obrigatório em trabalhos acadêmicos, quando há citações de outros textos. Também não há referência ao autor, logo quando termina a frase.

Ao final do texto, Decotelli faz referência apenas aos textos de Rossetto e o escrito por Kátia Valéria Araújo Melo e Rezilda Rodrigues Oliveira, na bibliografia. Os outros, nem isso.

Nesta sexta-feira, o professor Thomas Conti, do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa, mostrou que a dissertação de Decotelli também tem trechos idênticos aos de um relatório da CVM do mesmo ano. O relatório não foi citado por Decotelli nem sequer consta da bibliografia.

De acordo com uma orientação do Núcleo de Apoio Pedagógico da FGV, o plágio/cópia acadêmica viola a Lei 9.610/1998, que regula os direitos autorais presentes no Código Penal Brasileiro.

Segundo o manual, plagiar e copiar é "reproduzir parcialmente ou na íntegra um texto ou parte dele produzido por um ou mais autores sem citar as devidas fontes".

"Se no trabalho solicitado pelo professor contiver uma situação como a citada acima o plágio/cópia parcial está configurado, pois o texto foi copiado na íntegra sem a citação entre aspas da devida fonte: FURTADO Celso, Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001. p.197", explica.

Procurada pelo UOL, a Fundação Getulio Vargas informou que "vai apurar os fatos referentes à denúncia de plágio na dissertação do Ministro Carlos Alberto Decotelli". "A FGV está localizando o professor orientador da dissertação para que ele possa prestar informações acerca do assunto."

Ministro nega plágio

Em nota divulgada hoje pelo Ministério da Educação, o ministro nega ter cometido plágios e afirma que, se houve omissões, trata-se de "falhas técnicas".

"O ministro refuta as alegações de dolo, informa que o trabalho foi aprovado pela instituição de ensino e que procurou creditar todos os pesquisadores e autores que serviram de referência e cujo conhecimento contribuiu sobremaneira para enriquecer seu trabalho. O ministro destaca que, caso tenha cometido quaisquer omissões, estas se deveram a falhas técnicas ou metodológicas", disse o MEC.

Decotelli informou que revisará o trabalho "por respeito ao direito intelectual dos autores e pesquisadores citados".

Errata: o texto foi atualizado
Os termos 'tese' e 'dissertação' foram usados como sinônimos em trecho do texto original. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.