PUBLICIDADE
Topo

Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro precisa recalibrar seu viés de confirmação

21.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU - AFP
21.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante o discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral da ONU Imagem: AFP
Conteúdo exclusivo para assinantes
Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

23/09/2021 10h43

Dez mentiras em 12 minutos. Nisso se resume o discurso que o presidente Jair Bolsonaro fez na última terça-feira diante do plenário das Organizações das Nações Unidas (ONU). Prova definitiva - e traduzida simultaneamente para diversos idiomas - de que o viés de confirmação do presidente anda fora de controle, fazendo do Brasil motivo de chacota.

Para que fique claro logo de início, o viés de confirmação não é uma doença. É algo que todos nós, seres humanos, carregamos. Segundo estudos comportamentais feitos no Reino Unido na década de 1960, trata-se da tendência que sentimos de favorecer - e de verdadeiramente acreditar - nas informações que confirmam nossas crenças, nossos gostos, nossos valores e nossos desejos - mesmo que essas informações sejam falsas e distantes da realidade. É, em miúdos, um abismo cognitivo perigoso contra o qual deveríamos lutar se quiséssemos estar bem informados. O que não parece ser o caso de Jair Bolsonaro.

Encaixa bem no viés de confirmação do presidente acreditar - e difundir - que, no último 7 de setembro, "milhões de brasileiros" foram às ruas "na maior manifestação de nossa história". É o viés cognitivo presidencial que repele o dado da PM de São Paulo que calculou 125 mil participantes nos eventos daquele dia - um total muito inferior ao registrado em outros momentos do país.

Cai bem ao presidente mentir sobre o fim da corrupção e a preservação da Amazônia. É o viés cognitivo que empurra Bolsonaro a realmente acreditar que o Brasil está livre de um dos crimes mais praticados no mundo e que, ao mesmo tempo, mantém uma excelente política ambiental. A cegueira é cognitiva e tapa a dura realidade dos tribunais e das florestas.

E é interessante ver como o presidente está completamente imerso nos três níveis - ou três graus - de viés de confirmação identificados pelos especialistas. Bolsonaro sofre de busca enviesada por informação, faz interpretações enviesadas dos dados e padece de memória seletiva.

Expliquemos.

A busca enviesada por informação consiste na tendência humana de colocar a realidade em xeque a partir de uma única perspectiva ou hipótese. Você deve conhecer alguém assim. É aquele indivíduo que costuma iniciar uma análise ou um experimento científico a partir do final. Traz uma tese pronta e, a partir dela, constrói a pergunta que precisaria ser feita para confirmar sua hipótese. Inverte toda metodologia científica.

Sem fatos nem dados, Bolsonaro afirma que o Brasil estava à beira do socialismo quando ele tomou posse.

A interpretação enviesada se dá quando, diante de provas cabais, dois seres humanos têm entendimentos opostos.

É por isso que, enquanto dezenas de mandatários do mundo olham para os testes feitos com cloroquina e ivermectina e veem o óbvio (que essas substâncias não são eficazes na prevenção ou combate à covid-19), o presidente do Brasil enxerga o oposto.

Para Bolsonaro, o fato de ele ter adotado o chamado tratamento precoce e de aparentemente não ter sofrido qualquer efeito colateral é prova suficiente de que todos poderiam fazer o mesmo.

E a memória seletiva se dá, por fim, quando o ser humano apresenta mais facilidade de lembrar aquilo que se encaixou perfeitamente com suas expectativas, deixando soterrado no fundo das lembranças situações em que se viu em contradição.

O fato de Bolsonaro ter dito na ONU que sempre apoiou a vacinação contra a covid-19 é sinal claro de que o presidente do Brasil padece de memória seletiva.

Além de não ter se imunizado, o presidente foi contra a compra da CoronaVac produzida pelo Instituto Butantan, afirmou que "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina" e solicitou à aliança internacional Covaxin Facility apenas a cota mínima de imunizantes.

E dá para retomar o controle do viés de confirmação?

Especialistas dizem que sim. Basta Bolsonaro querer seguir cinco passos bem delineados:

  1. Evitar hipóteses ou conclusões precipitadas, entrando em campo para colher evidências sobre um assunto e só depois analisá-las;

  2. Durante a análise das evidências coletadas, permitir-se trabalhar com várias hipóteses e ir descartando uma depois da outra até chegar à real. Jamais tomar o caminho contrário;

  3. Compartilhar as evidências coletadas e suas hipóteses com outras pessoas de outras bolhas, antes de tratá-las como definitivas (e de expô-las na ONU, por exemplo);

  4. Também colocar-se à prova e aceitar quando as evidências derrubam suas hipóteses;

  5. Lembrando, por fim, que as evidências podem e devem mudar com o passar do tempo. E que é preciso estar aberto a refazer todo o processo.

Fica a dica.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL