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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bloqueio do Telegram é solução ingênua para problema complexo

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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

27/01/2022 06h00Atualizada em 27/01/2022 20h04

O debate em torno do possível bloqueio do Telegram no Brasil confirma - mais uma vez - o pouco que as autoridades brasileiras sabem sobre a luta contra a desinformação. Não existem soluções fáceis para problemas complexos, caros senhores. E vocês precisam entender isso de uma vez por todas.

Nos últimos dias, li e ouvi gente dizendo que o possível bloqueio do aplicativo de mensagens era o verdadeiro "antídoto contra as fake news". Não bastasse o grau de ingenuidade dessa frase, ela não para de pé por falta de dados que a comprovem.

Vamos a eles.

Alguém aí saberia dizer como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e/ou o Congresso "desligariam" o Telegram no Brasil? A ideia é repetir o que foi feito com o Parler, nos Estados Unidos, e impedir as lojas de aplicativos (Google Play e Apple Store) de oferecer novos downloads? (A ação, aliás, foi desfeita quatro meses depois.)

Nesse caso, o que seria feito com aqueles usuários - autoridades inclusive - que já possuem e usam contas no Telegram? Seu uso por VPN, por exemplo, seria criminalizado? De que maneira?

Fora isso: alguém saberia dizer por quanto tempo esse possível bloqueio duraria? Trata-se de uma medida eleitoral/eleitoreira ou o aplicativo ficaria vedado para sempre? O caso do bloqueio do Twitter na Nigéria está aí - e pouco foi debatido no Brasil.

É evidente que o app com sede em Dubai tem - e gera - graves problemas. O fato de não ter sequer um representante no Brasil e de não ter respondido à carta do ministro Luis Roberto Barroso (e nem os pedidos de entrevista para esta coluna) torna tudo ainda mais nebuloso e complicado.

Mas, num Brasil verdadeiramente democrático, a conversa sobre o banimento de uma empresa, de um serviço, de um produto deveria se dar com informações bem mais concretas, com planos bem mais claros.

O que vejo, por agora, não passa de um balão de ensaio - dos mais clássicos. Para fazer espuma e medir popularidade.

Os mais árduos defensores do banimento do Telegram costumam repetir que a medida já foi adotada em pelo menos 11 países. A lista é robusta e certamente merece atenção. Rússia, China, Cuba, Irã? Mas - de novo - faltam dados.

Quantos desses países livres de Telegram já mediram (de maneira científica) o impacto desse banimento? E, mais, quantos deles efetivamente registraram uma diminuição no total de "fake news"? Por que é esse o objetivo, certo?

Até onde enxergo, essa informação não existe.

Pensemos agora na eficácia da medida. Dados públicos indicam que o Telegram está presente em 53% dos smartphones do Brasil, ou seja, em cerca de 75 milhões de aparelhos.

Pesquisa feita em janeiro do ano passado mostra que 21% dos donos desses celulares usam o aplicativo "nunca" ou "quase nunca". Assim sendo, o universo de usuários efetivamente impactados por um bloqueio do Telegram poderia ser de cerca de 60 milhões de pessoas. É bastante gente. Mas sabemos quantos deles desinformam? Quantos usam o Telegram para atacar o TSE, as urnas eletrônicas, os candidatos A, B ou C?

De novo, não?

Que o app de Dubai tem um quê de vilão, ninguém duvida. Mas ele não pode ser o único a carregar essa etiqueta. Se o Brasil pretende ser linha dura com um canal que abre espaço para "fake news", que seja com todos.

Há menos de um mês, o YouTube reconheceu que cerca de 1% de todo seu conteúdo é desinformativo. E sabe quanto isso representa? São 2,6 milhões de horas de conteúdos falsos postados na rede todos os anos (em várias línguas e países). E sabe qual o alcance do YouTube no Brasil? Mais de 150 milhões de usuários. É isso aí: quase o triplo do Telegram. E o que faz o YouTube contra a desinformação? Nem os fact-checkers entendem direito.

Falta aos ministros do TSE, aos parlamentares e a muitos especialistas lembrar que, por mais estranho que seja, o Telegram é mais aberto do que o YouTube no que diz respeito a pesquisas de conteúdo. Não seria interessante apoiar iniciativas que investiguem os conteúdos com presteza e que revelem redes escusas que ali funcionam - em vez de sugerir bloqueio?

Engana-se quem pensa que os desinformadores profissionais chorariam uma possível perda do Telegram quietos e nos cantos. Desde que a possibilidade de bloqueio começou a ser discutida já pipocaram centenas de novos canais de difusão de mentiras. BitChute, Mewe, Getter, Kwai?

Uma lista que só cresce. É o conhecidíssimo efeito backlash,

Depois da publicação desta coluna, o ministro Barroso enviou-me o seguinte comentário:

"Há batalhas que se disputam por princípios, não necessariamente pela vitória. Se uma pessoa não quer me cumprimentar nem cumprir as minhas regras, não deveria entrar na minha casa. Além disso, terrorismo, venda de armas, ataque às instituições não são protegidos pela liberdade de expressão. O fato de não se conseguir eliminar integralmente a criminalidade não é um bom motivo para não combatê-la".

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa